pressmedia logo

O NOSSO OBJETIVO É ASSEGURAR QUE CADA EURO INVESTIDO GERA O MÁXIMO VALOR EM SAÚDE

Diário de Coimbra

2026-05-08 21:06:27

ULS Baixo Mondego A ULS Baixo Mondego procura conciliar rigor na gestão com a melhoria da qualidade dos cuidados prestados, a fim de assegurar a sustentabilidade da instituição a médio e longo prazo. Em entrevista, Ana Raquel Santos, presidente do Conselho de Administração, dá a conhecer as várias estratégias implementadas para uma melhor gestão dos recursos, com o objetivo de reduzir custos e desperdícios em diferentes áreas, sendo a transformação digital e a literacia em saúde uma aposta crescente Diário de Coimbra Quais as estratégias da ULS Baixo Mondego para assegurar a sustentabilidade financeira, mantendo a qualidade dos cuidados? Ana Raquel Santos A sustentabilidade financeira da ULS Baixo Mondego assenta numa abordagem integrada que procura conciliar rigor na gestão, com a melhoria da qualidade dos cuidados prestados à população. Uma das principais estratégias passa pela otimização dos recursos, através da reorganização de processos assistenciais e administrativos, eliminando redundâncias e promovendo maior eficiência operacional. A integração de cuidados entre os diferentes níveis - hospitalar, cuidados de saúde primários e, no futuro, cuidados continuados - permite reduzir desperdícios, evitar duplicação de atos, através de um modelo de referenciação de utentes. Paralelamente, temos vindo a investir na transformação digital, com a adoção de sistemas de in-formação mais eficazes, que aumentam a produtividade e contribuem para uma melhor gestão dos recursos clínicos, em especial na saúde mental e na imagiologia. Outra vertente é a aposta na prevenção e promoção da saúde, reforçando o papel dos cuidados de saúde primários. Ao intervir mais precocemente, conseguimos aumentar a qualidade dos cuidados e reduzir o volume financeiro alocado ao tratamento dos utentes. Estamos também focados na gestão eficiente da despesa, através da centralização de compras, negociação mais eficaz com fornecedores e controlo rigoroso dos consumos, sem comprometer a qualidade. Por fim, valorizamos o envolvimento dos profissionais, promovendo uma cultura de responsabilidade e melhoria contínua. O nosso objetivo é assegurar que cada euro investido gera o máximo valor em saúde, garantindo a sustentabilidade da instituição a médio e longo prazo. Como planeia otimizar a gestão de recursos (água, resíduos, energia) no Hospital Distrital da Figueira da Foz? A otimização da gestão de recursos é uma prioridade estratégica. Ao nível do consumo de água, temos vindo a implementar um conjunto de medidas concretas que já estão no terreno, como substituição progressiva dos equipamentos sanitários por soluções mais eficientes, que permitem redução significativa do consumo. Substituímos as infraestruturas de águas quentes sanitárias, que registavam perdas elevadas, por uma solução mais eficiente, baseada em energia renovável. Complementarmente, recorremos à utilização de água de poço para usos não potáveis, como rega de espaços verdes, para uma gestão mais racional da água da rede pública. No futuro, temos definido um conjunto de iniciativas estruturantes. Ao nível da eficiência energética, destacamse a ampliação do parque fotovoltaico e a implementação de sistemas de armazenamento de energia, que permitirão maximizar o autoconsumo e reduzir a dependência energética. Está também em curso a melhoria do desempenho térmico dos edifícios, através da requalificação das fachadas com soluções mais eficientes. Na área dos resíduos, reforçaremos a aposta na economia circular, através da recolha seletiva de resíduos orgânicos, com encaminhamento para valorização, evitando a deposição em aterro. Será revista e reforçada a política interna de boas práticas ambientais, incluindo a atualização do Manual de Boas Práticas Ambientais e a promoção de ações de sensibilização dirigidas aos profissionais, com foco na prevenção da produção de resíduos e no uso eficiente de recursos. Quais as medidas tomadas para reduzir desperdício clínico e administrativo? No plano clínico estamos a analisar a prescrição de medicamentos para eliminar duplicações, permitindo poupanças para a ULS e para o utente. Na área da gestão de stocks e consumíveis, implementamos práticas mais rigorosas de planeamento e monitorização para evitar desperdícios por expiração de prazos. Centralização de compras e normalização de produtos permitem ganhos de escala e maior controlo da despesa. A nível administrativo digitalização de processos e comunicação entre níveis de cuidados com base em sistemas de informação, embora haja um longo caminho a percorrer, é e continuará a ser uma estratégia a seguir. Importa destacar o envolvimento dos profissionais e a sensibilização para a utilização de recursos, aliada à revisão de processos internos, que permite identificar ineficiências e implementar soluções mais eficazes, em especial através da Comissão para a Sustentabilidade. Como pretende a administração aplicar tecnologias digitais para aumentar a eficiência? Destacamos a implementação da teleconsultadoria, que tem permitido uma articulação mais ágil entre os cuidados de saúde primários e os hospitalares. Este modelo facilita a partilha de conhecimento, melhora a capacidade de resposta e evita referenciações e deslocações desnecessárias, libertando vagas para situações que necessitam de observação presencial. Paralelamente, estamos a reforçar a aposta na telereabilitação, que permite o acompanhamento de vários utentes. Estamos a investir na utilização de ferramentas de inteligência artificial (IA) para otimizar o tempo de trabalho dos profissionais. Iniciámos na saúde mental e imagiologia. No futuro, a utilização de ferramentas de IA de apoio à decisão clínica e de análise de dados permitirá antecipar necessidades, identificar doentes em risco e planear de forma mais proativa a atividade assistencial. Nas compras de medicamentos, que estratégias está a ULS a implementar para garantir a sustentabilidade financeira sem comprometer o acesso a medicamentos inovadores? A gestão da despesa com medicamentos é uma área particularmente sensível, onde é essencial encontrar um equilíbrio entre a sustentabilidade financeira e o acesso à inovação terapêutica. Os medicamentos mais inovadores assumem grande importância, uma vez que estão associados a melhores resultados clínicos. No entanto, reconhece-se que a sua utilização deve ter em conta o perfil clínico do doente, pelo que a estratégia passa por assegurar uma prescrição criteriosa e adequada. Na ULS Baixo Mondego prosseguimos esse objetivo através do formulário de medicamentos e da Comissão de Farmácia e Terapêutica, temos reforçado a avaliação sistemática das opções terapêuticas, incluindo estudos farmacoeconómicos aplicados aos fármacos inovadores. Esta abordagem permite privilegiar terapêuticas custo-efetivas, nomeadamente através da utilização de medicamentos genéricos e biossimilares, cuja poupança é reinvestida no acesso a terapêuticas inovadoras. Estamos também a trabalhar em modelos de contratualização baseados em resultados em saúde, com partilha de risco, que permitem alinhar o custo com os benefícios efetivamente alcançados. Qual é a taxa de penetração de medicamentos genéricos e biossimilares na ULS e qual é a meta estabelecida para reduzir custos através desta via? A taxa atual de medicamentos genéricos/biossimilares está acima de 96%, com muito bons resultados, sobretudo com os biossimilares, cujo impacto financeiro é bastante significativo. O peso dos medicamentos genéricos no total de embalagens dispensadas pelas farmácias comunitárias foi de 46,13% em 2025. Reconhecendo o impacto que esta decisão pode ter na despesa suportada pelo utente, e a forma como esse encargo pode influenciar a adesão à terapêutica, foi realizada uma análise do custo evitável associado à escolha de medicamentos. Os resultados evidenciam um potencial significativo de otimização nesta área. Neste sentido, pretende-se promover a escolha informada por parte dos utentes, através do desenvolvimento de materiais de comunicação acessíveis e de fácil compreensão, nomeadamente folhetos informativos e vídeos educativos a disponibilizar nas diferentes unidades funcionais. O objetivo central é reforçar a literacia em saúde no domínio dos medicamentos genéricos, esclarecendo o modo como é calculada a comparticipação dos medicamentos integrados em grupos homogéneos e demonstrando o potencial de poupança associado à escolha de alternativas equivalentes. Será igualmente promovida a divulgação de ferramentas disponibilizadas pelo INFARMED, que permitem aos utentes consultar preços e efetuar comparações entre medicamentos, apoiando assim escolhas mais informadas, com vista a aumentar a dispensa de genéricos. Quais são os valores atuais de desperdício de medicamentos na ULS e quais as medidas de controlo para otimizar o circuito do medicamento? Em 2025 o valor em desperdício com medicamentos foi de 0,56%, principalmente devido a vacinas não administradas da gripe e desperdícios por excursões de temperatura. No que respeita às previsões de quantidades de vacinas estamos a articular com a DGS uma estimativa mais fina. Já relativamente às excursões por diferenças de temperatura implementámos um sistema de vigilância e articulámos em situações extremas, como o apagão, a centralização de stocks. Como está a ser assegurada a estabilidade do fornecimento de medicamentos essenciais, evitando ruturas de stock que forcem a aquisição por ajuste direto ao abrigo do artigo 128.º? Um dos pilares fundamentais passa pela participação ativa no grupo nacional de “Disponibilidade de Medicamentos”, que integra os serviços farmacêuticos a nível nacional com o apoio do INFARMED. Esta rede permite antecipar potenciais ruturas, identificar alternativas terapêuticas atempadamente e promover a articulação entre instituições, mitigando o impacto de falhas no abastecimento. A nível interno, temos implementado mecanismos rigorosos de monitorização, com validação diária de stocks críticos, deteção precoce de constrangimentos e comunicação célere de eventuais falhas. Sempre que necessário, são acionadas medidas de redistribuição entre unidades da ULS, garantindo uma gestão mais eficiente e equilibrada dos recursos disponíveis. Paralelamente, asseguramos a existência de alternativas terapêuticas previamente definidas no formulário de medicamentos da ULS Baixo Mondego, cuja utilização é articulada de forma estreita entre a Direção Clínica e a Comissão de Farmácia e Terapêutica. Este processo garante que qualquer substituição é clinicamente validada, mantendo a segurança e a qualidade dos cuidados prestados. Em suma, a nossa atuação assenta na antecipação, coordenação e flexibilidade, permitindo reduzir significativamente o risco de ruturas e evitar, sempre que possível, o recurso a mecanismos excecionais como o ajuste direto. O plano da ULS foca-se na monitorização da prescrição em ambulatório nos cuidados de saúde primários. Que medidas estão a ser adotadas para garantir que esta prescrição está alinhada com as melhores práticas de custoefetividade hospitalar? A ULS Baixo Mondego tem vindo a implementar um conjunto de estratégias orientadas para a sustentabilidade fi-nanceira no âmbito dos medicamentos adquiridos em farmácia comunitária. Uma das abordagens passa pela consciencialização dos médicos relativamente ao seu perfil de prescrição, nomeadamente nas classes farmacoterapêuticas com maior impacto financeiro para o SNS. O objetivo é promover uma maior reflexão e ponderação na escolha terapêutica, evitando práticas de prescrição rotineiras quando existem alternativas igualmente eficazes e mais custo-efetivas. Paralelamente, foi realizada uma análise ao nível das unidades funcionais, com identificação do potencial de poupança em cada classe farmacoterapêutica. Esta avaliação permite identificar as unidades onde a intervenção é mais prioritária, bem como as classes com maior margem de otimização. A partilha destes resultados pretende fomentar a colaboração entre médicos, promovendo maior sensibilização para a dimensão dos custos e incentivando a definição, pelos próprios profissionais, de estratégias de otimização da prescrição que funcionem como orientações práticas, sempre salvaguardando a segurança e a eficácia das escolhas terapêuticas. Outra medida que vai ao encontro desta questão é a implementação da consulta farmacêutica, a pedido do médico, com vista à otimização da terapêutica, nomeadamente através da reconciliação terapêutica em doentes com um elevado número de medicamentos e com utilização de classes farmacoterapêuticas críticas em termos de interações medicamentosas. Paralelamente, temos vindo a trabalhar na definição e implementação de protocolos de apoio à prescrição, baseados na melhor evidência científica e em critérios de custo-efetividade. Estes instrumentos são fundamentais para harmonizar práticas entre diferentes níveis de cuidados, reduzir variabilidade e garantir maior consistência nas decisões clínicas. Importa também destacar que este processo assenta numa lógica colaborativa entre médicos, farmacêuticos e restantes profissionais de saúde, promovendo uma abordagem integrada e centrada no doente. Com a reestruturação das ULS, de que forma a centralização das compras tem beneficiado os custos finais dos medicamentos no Baixo Mondego? Desde logo, o aumento do volume global de aquisição permite potenciar economias de escala, com impacto direto na redução do custo unitário dos medicamentos. Esta maior capacidade negocial traduz-se em condições mais favoráveis junto dos fornecedores, contribuindo para uma gestão financeira mais sustentável. Paralelamente, a implementação de acordos e mecanismos de aquisição centralizada tem permitido uma gestão mais eficiente dos stocks. A monitorização sistemática dos consumos e o ajustamento dinâmico das existências entre unidades promovem uma maior adequação às necessidades reais, evitando excessos e ruturas. Outro aspeto relevante é a maior proximidade e integração na gestão do circuito do medicamento, o que facilita o abastecimento e reduz a necessidade de manter elevados níveis de stock, particularmente nos cuidados de saúde primários. Esta otimização diminui custos associados ao armazenamento e reduz o risco de desperdício. Adicionalmente, a centralização tem contribuído para a diminuição de perdas associadas a fatores como excursões de temperatura ou prazos de validade expirados, reforçando a segurança e a eficiência na utilização dos medicamentos. Existe mais algum projeto que considere relevante no âmbito desta temática de sustentabilidade na saúde? Existem outros projetos relevantes na ULS Baixo Mondego que importa destacar. Um deles é a implementação da Consulta de Psiquiatria Domiciliária e da Consulta de Psiquiatria nos cuidados de saúde primários, associada à cedência de antipsicóticos em proximidade ao doente e à administração domiciliária. Este modelo de intervenção tem um impacto muito significativo na melhoria da adesão terapêutica, reduzindo situações de descompensação clínica evitáveis e, consequentemente, diminuindo a necessidade de internamentos ou recurso a cuidados agudos. Outro projeto é a implementação da Plataforma Clínico-Social, que promove uma ligação estruturada entre a ULS Baixo Mondego e as ERPI da nossa área de influência. Esta ferramenta permite uma articulação mais eficaz entre o setor da saúde e o social, facilitando a monitorização de utentes institucionalizados e evitando deslocações desnecessárias ao serviço de urgência, parti-cularmente em utentes de maior vulnerabilidade. Desta forma, promove-se uma resposta mais adequada, centrada no local de cuidados, com redução da pressão sobre o Serviço de Urgência. A sustentabilidade passa igualmente por uma visão preventiva da saúde. Investir na literacia em saúde e prevenção da doença é uma das apostas da ULS Baixo Mondego. A II edição do evento de prevenção “Saúde Mais Perto de Si” reforça a aposta na promoção da literacia em saúde desde a infância, através de uma abordagem prática, interativa e próxima da comunidade escolar. Esta iniciativa traduz-se num investimento na prevenção, promovendo hábitos saudáveis desde cedo e contribuindo para ganhos efetivos em saúde e para a sustentabilidade do sistema. Em conjunto, estas iniciativas refletem uma abordagem integrada e inovadora, que vai além da organização tradicional dos cuidados de saúde, o que contribui de forma clara para a sustentabilidade do sistema, melhorando acessibilidade, qualidade e humanização dos cuidados prestados à população. A ULS Baixo Mondego continuará a investir em projetos que promovam ganhos em saúde, proximidade e equidade no acesso à informação. Ana Raquel Santos é presidente do Conselho de Administração da ULS Baixo Mondego Políticas de sustentabilidade da ULS Baixo Mondego nos cuidados primários e hospitalares A integração de cuidados entre os diferentes níveis permite reduzir desperdícios, evitar duplicação de atos, através de um modelo de referenciação de utentes A ULS Baixo Mondego continuará a investir em projetos que promovam ganhos em saúde, proximidade e equidade no acesso à informação