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SUSTENTABILIDADE EM SAÚDE: ENTRE O CUSTO E O VALOR

Diário de Coimbra

2026-05-08 21:06:27

Sempre que se fala da sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, o debate resvala, quase por inércia, para a mesma per- gunta: quanto se gasta? Os números multiplicam-se - em medicamentos, em urgências, em inovação terapêutica - e instala-se a ideia de que sustentar o SNS é, sobretudo, gastar menos. Sustentabilidade não é sinónimo de poupar. Sus- tentabilidade é garantir que o dinheiro público produz saúde. E esse é um output muito mais exigente. Em 2024, o SNS gastou quase quatro mil milhões de euros em medicamentos, mais 11,5% do que no ano anterior, e os dados provisórios de 2025 não só confirmam a tendência, como a agravam. A inovação terapêutica abre janelas de esperança que não pode-mos, nem devemos, fechar. Mas também não pode ser financiada de forma difusa, sem critérios claros, transparentes e aplicados de forma equitativa, porque o acesso à inovação não pode depender do código postal do doente, nem da sensibilidade de quem avalia o seu processo. Isso não é sustentabilidade, é sorte. Há, contudo, uma outra dimensão menos discutida. Portugal apresenta fragilidades no acesso ao medicamento, e 16,1% dos portugueses referem dificuldade em suportar os seus custos. Quando o acesso depende da carteira, a doença deixa de ser apenas clínica. Torna-se social, e também territorial, porque nem todos partem do mesmo ponto. E o sistema, por mais contas certas que apresente, falha na sua missão. A sustentabilidade exige, por isso, coragem em duas frentes: decidir, com critérios nacionais e transparentes, o que se financia e em que condições; e usar, com inteligência, os recursos que já existem. Entre esses recursos, continuam subaproveitados os farmacêuticos. Nos hospitais, pela sua capacidade de avaliação farmacoeconómica, seleção racional de terapêuticas e promoção de genéricos e biossimila-res. Na comunidade, pela proximidade às populações, acompanhamento do doente crónico, reconciliação terapêutica e resolução segura de situações ligeiras que hoje pressionam desnecessariamente as urgências. Em vários países europeus, este é já o caminho. Persistir em não o fazer é desperdiçar valor. O SNS precisa de foco no essencial: o doente. E de reconhecer que a sustentabilidade se constrói quando cada profissional contribui em pleno. No fim, a pergunta certa não deve ser quanto custa. É quanta saúde devolve às pessoas. Portugal apresenta fragilidades no acesso ao medicamento, e 16,1% dos portugueses referem difculdade em suportar os seus custos Lúcia Santos Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Farmacêuticos Lúcia Santos