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A SUSTENTABILIDADE NÃO SE RESOLVE COM MAIS DO MESMO. VAI DEPENDER DA NOSSA CAPACIDADE DE FAZER ESCOLHAS - ENTREVISTA A RITA SÁ MACHADO

Diário de Coimbra

2026-05-08 21:06:27

DGS Várias visões sobre a sustentabilidade em saúde mas a consciência de que o futuro da Saúde em Portugal vai ter de ser feito de mudanças, organização e, no fundo, de uma mudança de paradigma. É o que diz Rita Sá Machado, diretora-Geral da Saúde que, em entrevista, deixa claro que o segredo para o sucesso passa por “olhar para o sistema de saúde como um todo - SNS, setor social, setor privado e comunidade-, e perceber como se articulam” Diário de Coimbra Quando falamos de sustentabilidade em saúde, estamos a falar sobretudo de dinheiro ou de modelo? Rita Sá Machado Quando falamos de sustentabilidade em saúde, falamos inevitavelmente de financiamento, mas sobretudo de modelo. Não é apenas uma questão de quanto se investe, mas de como se organiza o sistema para gerar mais saúde com os recursos disponíveis. Isso implica investir na prevenção, antecipar risco, evitar doença evitável e ga-rantir que os cuidados são prestados de forma integrada. A sustentabilidade constrói-se, sobretudo, na forma como o sistema decide atuar. O atual Serviço Nacional de Saúde é sustentável a médio e longo prazo? O Serviço Nacional da Saúde continua a ser um pilar essencial de coesão social e de proteção da população. Mas a questão hoje já não se coloca apenas ao nível do SNS. A verdade é que nenhum sistema de saúde, tal como está atualmente or-ganizado, parece plenamente sustentável a longo prazo. Temos de olhar para o sistema como um todo SNS, setor social, setor privado e comunidade e perceber como se articulam. A sustentabilidade não se resolve reforçando apenas um dos pilares. Exige alinhamento, integração e uma mudança progressiva para modelos mais preventivos e menos reativos. Portugal é um dos países mais envelhecidos Europa e a tendência é para haver um fosso cada vez maior entre os mais jovens e os mais velhos. Como encarar o futuro do Serviço Nacional de Saúde face ao envelhecimento da população? O envelhecimento deve ser encarado como uma conquista, mas também como uma responsabilidade coletiva que começa muito cedo. Devemos preparar o envelhecimento desde a infância, promovendo estilos de vida saudáveis e prevenindo a doença ao longo de todo o ciclo de vida. Ao mesmo tempo, é ne-cessário adaptar o sistema às realidades da longevidade maior prevalência de doença crónica, multimorbilidade e fragilidade reforçando respostas de proximidade que acompanhem as pessoas no seu contexto. Podemos apontar o envelhecimento como o maior desafio à sustentabilidade? O envelhecimento é um desafio importante, mas está longe de ser o único e, isoladamente, não explica a pressão so- bre o sistema. A sustentabilidade resulta da conjugação de vários fatores: o aumento da doença crónica, a complexidade clínica, a inovação tecnológica, as expectativas crescentes da população, a escassez de profissionais e, sobretudo, a forma como o sistema está organizado. A isto juntam-se os determinantes da saúde, que continuam a ter um peso muito significativo nos resultados. Se não atuarmos sobre eles e se mantivermos um modelo predominantemente reativo a pressão sobre o sistema tenderá a aumentar independentemente do envelhecimento. Por isso, a questão central não é apenas demográfica. É relevante como organizamos o sistema para responder melhor, mais cedo e de forma mais integrada. O aumento da despesa em saúde é inevitável? Onde estão os maiores desperdícios? Algum crescimento da despesa em saúde é expectável, mas a questão central não é apenas quanto se gasta é que valor se gera com essa despesa. Hoje falamos cada vez mais de uma lógica de valor em saúde: isto é, avaliar o sistema não pelo volume de atividade, mas pelos resultados em saúde que consegue produzir, tendo em conta os recursos utilizados. Nesse contexto, a maior oportunidade está em atuar precocemente. A vacinação é um exemplo claro de elevado valor previne doença, reduz complicações e evita custos futuros. O mesmo acontece com os rastreios, que permitem diagnóstico precoce e intervenções mais simples, com melhores resultados. Por outro lado, quando há fragmentação de cuidados falta de articulação entre níveis assistenciais, duplicação de exames ou atrasos no se- guimento estamos perante perda de valor. Melhorar a integração de cuidados é, por isso, essencial para aumentar resultados em saúde e garantir sustentabilidade. Portugal investe realmente em prevenção ou continua centrado na doença? Portugal tem áreas onde a prevenção é sólida e reconhecida, mas ainda não está plenamente integrada como eixo estruturante do sistema. A prevenção continua, muitas vezes, a coexistir com um modelo predominantemente orientado para o tratamento. O Plano Nacional de Saúde estabelece essa orientação de forma clara colocando a prevenção, a equidade e os determinantes da saúde no centro das políticas públicas. O desafio está na execução: garantir que essa visão estratégica se traduz de forma consistente na organização dos cuidados e nas decisões do dia a dia. Que medidas concretas já estão no terreno? É possível dar alguns bons exemplos? Portugal tem bons exemplos: o Programa Nacional de Vacinação, os programas de rastreio, a vigilância epidemiológica, a resposta em saúde pública, a estratégia para alimentação saudável, a promoção da atividade física, a prevenção do tabagismo e as respostas nas doenças crónicas. O que importa agora é consolidar, medir impacto e garantir que estas respostas chegam efetivamente a quem precisa. Que importância tem a literacia em saúde para a sustentabilidade do sistema? O conceito de literacia em saúde evoluiu significativamente. Hoje sabemos que não basta transmitir informação é necessário promover mudança de comportamento. E é precisamente aí que está uma das maiores dificuldades. As escolhas individuais não acontecem num vazio: são fortemente influenciadas pelos determinantes de saúde, in- cluindo os comerciais desde a forma como os produtos são disponibilizados, promovidos e comunicados, até aos contextos em que as pessoas vivem e trabalham. Isso significa que não podemos limitar a resposta à informação. É necessário criar ambientes que facilitem escolhas saudáveis, alinhar políticas públicas e garantir coerência entre aquilo que se recomenda e aquilo que está disponível no dia a dia. O objetivo não é apenas que as pessoas saibam mais, mas que tenham condições reais para agir sobre esse conhecimento. A fragilidade da confiança dos cidadãos e a desinformação existente em matéria de saúde tem vindo a causar grandes preocupações. Que riscos trará? A desinformação é hoje um dos maiores riscos em todas as áreas do saber, incluindo a saúde. O seu impacto é direto: compromete decisões individuais e fragiliza respostas coletivas. Sem confiança nas instituições, na ciência e nos profissionais o sistema perde eficácia. Por isso, investir em confiança é uma prioridade estratégica. Isso faz-se com transparência, consistência na comunicação e presença ativa nos espaços onde a informação circula. Têm vindo a aumentar as críticas em relação às desigualdades no acesso no acesso ao Serviço Nacional de Saúde. Fazem sentido as críticas? Fatores como o território, as condições socioeconómicas ou questões associadas à nacionalidade influenciam o acesso e os resultados em saúde. A resposta não pode ser uniforme tem de ser de proximidade, ajustada às realidades locais. Que medidas estão a ser ou podem vir a ser tomadas para reduzir as diferenças? Reduzir desigualdades exige intervenção direcionada. Implica conhecer bem as populações, atuar localmente, adaptar respostas e trabalhar em rede com diferentes setores. A equidade não se garante apenas com oferta garante-se com adequação. Quando falamos em sustentabilidade em saúde, falamos também na questão ambiental. Em que medida? A saúde também tem pegada ambiental: energia, resíduos, transportes, compras, medicamentos e dispositivos. Reduzir essa pegada é parte da sustentabilidade. Neste âmbito, e como contributo, a DGS está a desenvolver uma orientação que permitirá classificar dispositivos inalatórios de acordo com o seu impacto ambiental, apoiando decisões clínicas mais informadas e sustentáveis, sem comprometer a eficácia. Como é que imagina o sistema de saúde português daqui a 10 anos? Daqui a 10 anos, o verdadeiro critério de sucesso não será termos mais atividade, mas termos mais saúde. O futuro exige uma mudança clara de paradigma: um sistema que antecipa risco, que atua sobre os determinantes da saúde, que reduz a incidência de doença evitável e que acompanha as pessoas de forma próxima e contínua ao longo da vida. Isso implica também usar melhor os dados, integrar cuidados e alinhar todos os intervenientes do sistema em torno de resultados em saúde e não apenas de produção. A sustentabilidade não se vai resolver com mais do mesmo. Vai depender da nossa capacidade de fazer escolhas diferentes hoje, com impacto nos próximos anos. Rita Sá Machado, diretora-Geral da Saúde desde 2023, diz que a sustentabilidade se constrói, sobretudo, na forma como o sistema decide atuar Devemos preparar o envelhecimento desde a infância, promovendo estilos de vida saudáveis e prevenindo doença ao longo de todo o ciclo de vida Se mantivermos um modelo predominantemente reativo a pressão sobre o sistema tenderá a aumentar independentemente do envelhecimento Rita Sá Machado é diretora-Geral da Saúde desde novembro de 2023 PERFIL Rita Sá Machado é diretoraGeral da Saúde desde novembro de 2023, ficando responsável por liderar a Direção-geral da Saúde em Portugal. É, portanto, responsável por regulamentar, orientar e coordenar as atividades de promoção da saúde e prevenção da doença, tendo também a seu cargo a definição de normas técnicas, gestão de emergências de saúde pública e direção do Plano Nacional de Saúde. As principais funções de um diretor-Geral da Saúde prendem-se com a Regulação e Orientação, definindo normas e orientações técnicas para a prestação de cuidados de saúde, incluindo vacinação e programas de saúde (materna, infantil, etc.); Saúde Público e Vigilância, coordenando a vigilância epidemiológica de doenças transmissíveis e não transmissíveis, além de gerir alertas sanitários; a Promoção da Saúde, fomentando hábitos saudáveis e prevenir doenças na população; o Planeamento e Qualidade, coordenando o Plano Nacional de Saúde e gerindo a qualidade no sistema de saúde; a Gestão de Crises, coordenando a resposta a emergências de saúde pública (ex: crises alimentares, riscos ambientais) e ainda as Relações Internacionais, assegurando a articulação com organismos internacionais de saúde. Proteger e melhorar a saúde e bem-estar dos cidadãos, garantindo que, através da qualidade, da segurança e da redução de iniquidades em saúde, todos atinjam o seu potencial de saúde é missão da DGS. O objetivo não é apenas que as pessoas saibam mais, mas que tenham condições reais para agir sobre esse conhecimento “Daqui a 10 anos, o verdadeiro critério de sucesso não será termos mais atividade, mas termos mais saúde”, diz a diretora-Geral da Saúde