82% DOS HOSPITAIS DO SNS TRATARAM MENOS PESSOAS: LOURES E SANTA MARIA ENTRE OS PIORES
2026-05-08 21:06:28

Diagnóstico. Dados revelam que a Saúde piorou com o atual Governo. Loures e Santa Maria lideram cortes em consultas e cirurgias As unidades públicas de saúde estão a assegurar menos consultas e cirurgias aos utentes e quando o fazem demoram mais. Os dados oficiais de fevereiro mostram que o estado do Serviço Nacional de Saúde (SNS) sofreu um agravamento severo em relação ao mesmo período do ano anterior: 82% dos hospitais fizeram menos consultas, 87% reduziram os primeiros atendimentos e 72% realizaram menos cirurgias programadas face ao ano passado, tornando mais profundo o corte na assistência que vinha a ser infligido desde 2024. Consultas nos Cuidados de Saúde Primários Em milhões. Dados em fevereiro de cada ano Na liderança das unidades locais de saúde (ULS) com menos consultas de especialidades hospitalares está Loures-Odivelas. Os médicos fizeram menos 13.329 consultas (menos 30,4%) face ao ano passado. Nas primeiras consultas hospitalares, a quebra foi de 27,7%. Ao Expresso, a administração explica que “os dados atualmente refletidos no Portal da Transparência foram influenciados pela alteração de sistemas de informação hospitalares e das várias aplicações satélite, o que criou dificuldades no registo e contabilização da atividade assistencial”. Por isso, “em vários momentos, foi necessário recorrer a planos de contingência e a registos em papel, pelo que parte da atividade realizada pode não estar ainda totalmente refletida nos dados reportados”. Já na atividade cirúrgica programada, é a ULS Médio Ave que se destaca pela negativa, com 35,4% abaixo do que tinham feito em 2025. Mas em número absoluto de operações que ficaram por fazer é Santa Maria, o maior hospital de Lisboa, o menos produtivo - menos 2846 cirurgias do que no ano anterior, um corte de 31,6%. E mesmo na atividade de ambulatório, Santa Maria fica entre os piores, registando menos 2033 intervenções (31,2% abaixo), apenas perdendo em percentagem para as ULS Médio Tejo, Arco Ribeirinho (Barreiro-Montijo) e Médio Ave, por ordem crescente. Consultas hospitalares Em milhões. Dados em fevereiro de cada ano </iframe O mau desempenho de um dos maiores hospitais do país já tinha dado sinais. No Santa Maria, de 2024 para 2026 as cirurgias programadas caíram 27,5% e as consultas 2,4%. Aliás, entre as unidades semelhantes, como São José (Lisboa), São João (Porto) e Coimbra, é a que menos cuidados assegura, sejam cirúrgicos ou consultas. A administração não quis explicar as razões. A análise global do SNS nos primeiros dois meses face aos últimos dois anos é evidente: com o atual Governo o SNS entrou em estado crítico . Os dados do “Dashboard do SNS - fevereiro 2026” mostram que os cuidados primários somam 5,64 milhões de consultas no acumulado dos dois meses iniciais do ano, menos 6,1% face a 2025 e menos 5,9% do que em 2024 (ver gráficos). Nos hospitais, o diagnóstico é ligeiramente menos negativo. Foram realizados 2,42 milhões de atendimentos pelos especialistas em fevereiro, 3,8% abaixo do ano passado, embora 0,5% acima de 2024. Contudo, o quadro agrava-se nas primeiras consultas hospitalares: 650.288, menos 7,3% e menos 4,7%, respetivamente. Primeiras Consultas hospitalares Dados em fevereiro de cada ano Ainda nos hospitais, os doentes que precisam de ser operados estão mais penalizados este ano. As intervenções programadas passaram de 133.349 em 2024 e de 140.833 no ano passado para 130.439 em fevereiro deste ano. E do lado de fora do acesso, a espera aumentou. Os inscritos para cirurgia aumentaram para 273.871 - mais 1,4% face a 2025 e 2,6% face a 2024 - e quem está na lista fica muito mais tempo à espera. Um total de 84.593 doentes têm já uma demora além do que é clinicamente indicado, revelando um severo agravamento deste indicador, pois em fevereiro dos últimos dois anos a cifra foi de 73.486 (menos 15%) e 75.824 (menos 11,6%). A quebra na assistência é paradoxal, porque o SNS tem agora mais profissionais e mais trabalho extraordinário. Os recursos humanos totalizam 157.094 pessoas, 2,3% acima de 2025 e 4,1% em relação a 2024. Há 22.122 médicos e 52.989 enfermeiros, ambos com mais 2,4% comparando com o ano passado. Mas mesmo com mais profissionais, foram mais as horas extraordinárias, sobretudo à noite. Somaram EUR2,10 milhões versus EUR1,94 milhões e EUR1,91 milhões nos anos anteriores. Contas feitas, o SNS está mais caro. Os gastos operacionais aumentaram para EUR2723,6 milhões, 39,7% acima do valor de 2024. Os pagamentos em atraso e a dívida total a fornecedores cresceram para EUR78,1 milhões no primeiro caso e para EUR1718,9 milhões no global. Nos centros de saúde, há melhoras, quase impercetíveis: 85,1% de utentes com médico atribuído, mais 0,1% do que em 2025 e menos também 0,1% do que em 2024. As áreas positivas estão agora mais limitadas. Verificam-se melhoras na afluência às Urgências ou nos gastos com tarefeiros e suplementos, por exemplo. Gestores culpam Governo A Direção Executiva do SNSnão respondeu ao Expresso e o gabinete ministerial repetiu as explicações dadas por Ana Paula Martins no final de abril no Parlamento, desde logo, que é “fundamental não retirar conclusões apressadas”. A ministra afirmou então que a redução nos cuidados primários “deve-se em grande medida a fatores concretos: menos dias úteis e condições climatéricas adversas no primeiro trimestre”. Já nos hospitais, “também os dados exigem leitura responsável, houve uma redução pontual (...) explicada pelo impacto do pico da gripe e pela suspensão da atividade programada”. No entanto, os dados do Instituto Ricardo Jorge mostram que a 18 de janeiro a atividade gripal estava em “tendência decrescente” e na primeira semana de fevereiro era já uma “atividade não epidémica”. “É altamente preocupante e as causas são todas responsabilidade do governo” Líder dos gestores do SNS A ministra fez o prognóstico do SNS: “Quando comparamos com 2023, temos mais consultas, mais cirurgias e maior capacidade de resposta global e isto demonstra que o sistema não está a recuar, está a adaptar-se.” Os gestores das ULS asseguram que não. “A situação é altamente preocupante. Temos mais médicos, mais médicos em dedicação, mais enfermeiros, mais trabalho extraordinário, mais 25% nas remunerações e um ano depois temos uma redução na atividade. É preciso explicar o que está a acontecer”, afirma Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares. Cirurgias Programadas Dados em fevereiro de cada ano Enquanto o Governo não explica o que aconteceu, Xavier Barreto diz o que está a acontecer. “Não existem objetivos definidos, as equipas não estão mobilizadas, não temos os termos de contratualização nem os contratos-programa assinados, não sabemos quais são os objetivos definidos, não há gestão intermédia, temos administradores que nunca geriram uma unidade de saúde, investimento abaixo do necessário, camas bloqueadas. Tudo questões da responsabilidade do Governo.” Com Cátia Barros Vera Lúcia Arreigoso Jornalista Vera Lúcia Arreigoso