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ESTADO PROCURA RECUPERAR CONFIANÇA NO SETOR DAS TELECOMUNICAÇÕES

Digital Inside Online

2026-05-08 21:06:31

O Governo quer recentrar a política digital numa lógica de previsibilidade regulatória e alinhamento estratégico entre Estado e operadores. No Congresso da APDC, Miguel Pinto Luz defendeu uma abordagem integrada para telecomunicações, cloud soberana, centros de dados e simplificação administrativa O setor das telecomunicações atravessa um momento de redefinição estratégica em Portugal. Entre a pressão para acelerar investimento privado, a necessidade de reforçar a robustez das redes e a competição internacional pela instalação de infraestrutura digital, o Governo procura agora recentrar o debate numa ideia considerada essencial para o mercado, previsibilidade regulatória. Foi essa a principal mensagem transmitida pelo ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, na intervenção realizada no Congresso da APDC, em Lisboa, onde defendeu que temas como renovação do espectro, cloud soberana, centros de dados e simplificação administrativa devem deixar de ser analisados separadamente e passar a integrar uma estratégia nacional para a competitividade digital. O Executivo procura transmitir ao mercado um sinal de maior estabilidade regulatória e institucional para destravar investimento em telecomunicações e infraestrutura digital. A intervenção surge depois de vários anos marcados por tensão entre operadores, regulador e poder político, sobretudo em torno do leilão do 5G, das regras de licenciamento e do ritmo de expansão das redes. Sem apontar responsabilidades diretas, o ministro reconheceu falhas no enquadramento regulatório e administrativo, mas procurou recentrar o debate na necessidade de reconstruir confiança entre Estado, ANACOM e empresas. A mudança de tom político assume particular relevância num setor onde os investimentos exigem elevados níveis de capital e horizontes temporais longos. Para os operadores, previsibilidade sobre espectro, condições regulatórias e retorno financeiro continua a ser um fator determinante para acelerar expansão de rede, modernização tecnológica e cobertura em zonas de menor rentabilidade. Essa visão tornou-se particularmente evidente na abordagem à renovação do espectro. Embora tenha sublinhado que a competência pertence à ANACOM e que a independência do regulador deve ser preservada, Miguel Pinto Luz deixou claro que considera prioritário acelerar o processo. O Governo sinaliza que a renovação do espectro deve ser encarada menos como uma fonte imediata de receita pública e mais como um instrumento para estimular investimento de longo prazo. A posição aproxima-se de uma leitura mais estratégica das telecomunicações. As redes móveis de nova geração deixaram de servir apenas serviços de comunicação tradicionais e passaram a suportar indústria conectada, inteligência artificial distribuída, automação, cidades inteligentes e serviços críticos do Estado. O Executivo admite associar a renovação do espectro a compromissos concretos de investimento e reforço da resiliência das infraestruturas. A mesma lógica estratégica esteve presente no projeto de cloud soberana. O ministro clarificou que a infraestrutura ficará sob responsabilidade da IP Telecom, enquanto a coordenação da adoção pelos organismos públicos ficará associada à área da modernização administrativa e digitalização. Mais do que um projeto tecnológico, a cloud soberana surge agora associada a preocupações de autonomia estratégica, proteção de dados críticos e redução de dependências externas. A crescente preocupação europeia com soberania digital tem vindo a alterar a forma como os governos encaram infraestruturas cloud, sobretudo num contexto dominado por grandes fornecedores internacionais. A conclusão da infraestrutura está prevista para 2030, implicando uma migração complexa dos sistemas atualmente distribuídos por múltiplos fornecedores utilizados pela Administração Pública. Outro dos pontos centrais da intervenção esteve relacionado com os centros de dados. Portugal vive atualmente uma forte aceleração de projetos ligados à capacidade computacional e armazenamento digital, impulsionada sobretudo pela expansão da inteligência artificial e dos serviços cloud. Segundo Miguel Pinto Luz, existem mais de 40 intenções de investimento em análise. Ainda assim, o Governo procura afastar-se de uma estratégia puramente quantitativa baseada apenas em disponibilidade energética, terrenos ou rapidez de licenciamento. O objetivo passa por captar projetos com impacto estrutural na economia nacional, criando ligações com universidades, centros de investigação, laboratórios e PME tecnológicas. O Executivo procura evitar que Portugal funcione apenas como plataforma energética e imobiliária para infraestrutura digital estrangeira sem retenção de conhecimento ou valor tecnológico. A visão articula-se igualmente com a candidatura conjunta de Portugal e Espanha a uma Gigafactory Europeia, num investimento estimado em oito mil milhões de euros, enquadrado na tentativa europeia de reforçar capacidade tecnológica própria em áreas consideradas críticas para a soberania económica e digital. O ministro abordou ainda um tema particularmente sensível nas últimas semanas, a resiliência das redes de telecomunicações após fenómenos climáticos extremos. Miguel Pinto Luz reconheceu que a recuperação das comunicações ficou abaixo do esperado, sobretudo na rede móvel, admitindo que a reposição integral das condições anteriores poderá demorar pelo menos um ano. O reconhecimento expõe um problema estrutural que ganhou nova dimensão nos últimos anos. A infraestrutura digital passou a assumir um papel comparável ao da energia, da água ou dos transportes, tornando as falhas de rede um problema com impacto direto no funcionamento da economia, dos serviços públicos e das operações de emergência. A resiliência das telecomunicações começa a ser tratada pelo Governo como uma questão de infraestrutura crítica nacional. Na frente administrativa, Miguel Pinto Luz defendeu igualmente maior articulação entre legislação e setor empresarial. O Governo está atualmente a rever o Código dos Contratos Públicos, o enquadramento do Tribunal de Contas e a transposição do GIA para a legislação nacional, procurando reduzir obstáculos burocráticos que historicamente atrasam investimento tecnológico. No essencial, a intervenção procurou transmitir uma ideia de alinhamento entre investimento privado e estratégia pública. O Governo quer garantir condições de retorno para os operadores e investidores, mas exige em contrapartida melhores níveis de conectividade, menor latência, maior capacidade computacional e infraestruturas mais robustas para empresas e cidadãos. Por trás da intervenção política permanece, contudo, uma questão estrutural mais ampla. Telecomunicações, cloud, centros de dados e computação deixaram de funcionar como setores autónomos e passaram a constituir a infraestrutura-base da economia digital. É nessa transição que Portugal procura agora definir o papel que pretende ocupar na cadeia tecnológica europeia. João Miguel Mesquita