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LUVAS DE BOXE, BASTÕES E BEIJA AS BOTAS : QUEM SÃO AS 13 VÍTIMAS DOS POLÍCIAS DO RATO?

Público Online

2026-05-08 21:06:32

Entre 2023 e 2025, 13 pessoas terão sido agredidas e torturadas por polícias. Com base em documentos judiciais, o PÚBLICO traça o retrato das vítimas e das agressões que sofreram. Três cidadãos portugueses, um brasileiro, dois argelinos, dois egípcios, um cabo-verdiano, um angolano, dois sem-abrigo: quem são as 13 vítimas dos 24 polícias das esquadras que foram detidos? Que agressões terão sofrido? Sabemos que a maioria dos alegados agressores é maioritariamente das esquadras do Rato, onde se passaram dez dos 13 casos, e que há um arguido em prisão preventiva que terá tido um papel central: Guilherme Leme. É ele o fio condutor deste processo. Acusado de 29 crimes, como tortura e violação, é mencionado em quase todas as agressões. Por três vezes terá usado um bastão e um cassetete para violar dois portugueses sem abrigo e um marroquino: é acusado de ter consumado uma das violações e de ter tentado outras duas. Das vítimas conseguimos traçar um breve perfil a partir do que vem nos documentos judiciais: há sem-abrigo, estrangeiros que não falam português, mulheres e toxicodependentes. Com base no despacho de acusação do Ministério Público, nos últimos mandados de captura e na decisão de instrução que conduziu os agentes Guilherme Leme e Óscar Borges (acusado de sete crimes) a julgamento, o PÚBLICO traça uma fotografia das vítimas e das agressões. Todas as informações têm como base estas fontes (versão que aqui reproduzimos) e ainda têm de ser provadas em tribunal. Divulgamos só os nomes dos agentes que já estão constituídos arguidos para ir a julgamento. Os nomes das vítimas são todos fictícios. Várias das vítimas disseram ter tido medo de denunciar , excepto a cidadã portuguesa que enviou uma denúncia para o Ministério Público. “Ana” é, por isso, uma das duas vítimas que a juíza do Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa considerou que não é especialmente vulnerável. A maioria dos casos aconteceu com as vítimas na esquadra, já algemada, sem risco de resistência. Por outro lado, em quase uma dezena de episódios houve imagens e partilhas em grupo das mesmas, acompanhadas com comentários. Os factos terão ocorrido em pelo menos nove episódios, entre 2023 e 2025. A maioria das agressões terá acontecido na esquadra do Rato, com as vítimas já algemadas, sem risco de resistência. Por outro lado, relativamente a quase uma dezena de episódios, há imagens e partilhas em grupo, acompanhadas de comentários. Este caso está dividido em três momentos. Num primeiro despacho de acusação, em Julho de 2025, ficaram detidos Guilherme Leme e Óscar Borges e na semana passada o tribunal de instrução decidiu que iriam a julgamento. Em Março, foram alvos de mandados de captura outros sete agentes, que também ficaram em preventiva. Nesta semana, houve mais 15 agentes detidos presentes a interrogatório, e ainda não se sabem as medidas de coacção. Na decisão instrutória a juíza ouviu cerca de duas dezenas de testemunhas, entre elas, agentes da PSP , nenhum disse ter visto as agressões, apesar de vídeos e imagens contarem outra história. A magistrada considerou que, apesar da vulnerabilidade das vítimas, isso “não abala a sua credibilidade, pois não se detectou qualquer intenção de relatar factos que não correspondessem à verdade”. Ahmed, marroquino, tentativa de violação, "beija as botas" Data: 30 de Agosto de 2024 Agentes envolvidos: Guilherme Leme e outros agentes Ahmed, marroquino com problemas de toxicodependência, foi transportado à esquadra onde terá sido brutalmente agredido, na sequência do que ficou com dentes partidos e cortes no rosto. Ajudado por dois colegas que manietaram Ahmed, Guilherme Leme é acusado de usar um cassetete para tentar violá-lo, mas não terá conseguido. Foram a resistência de Ahmed e um graduado que evitaram o acto , mas nenhum agente reconheceu ter visto as agressões de colegas até agora. Os três agentes terão obrigado Ahmed a beijar as botas de serviço enquanto estava deitado no chão, “encolhido, a chorar, devido aos pontapés, socos e bastonadas”. Os polícias diziam-lhe: “Beija, kiss, kiss, kiss, kiss, kiss caralho , o que foi gravado em vídeo e partilhado , e “Welcome to Portugal”. Depois, os agentes pegaram nele, meteram-no no carro e deixaram-no no chão no meio da rua, onde lhe deram uma bastonada e ele perdeu os sentidos, diz a acusação. Foram populares que o encontraram. Foto NFACTOS/Fernando Veludo No grupo partilhado do WhatsApp foram encontradas as seguintes mensagens dos agentes: é “um dos marroquinos da faca e do taser que o pessoal do Delta apanhou há uns tempos”; “Ah então dá-lhe bue, faz aí um vídeo a meter-lhe o esfregão com merda na boca”; o que partilha o vídeo diz que “ele desmaiou” e acrescenta: “Estávamos os 4 a lhe enquadrar com o estica”, ao que outro elemento responde: “Ele já acorda, mija para um papel e esfrega no nariz”. Miguel e Pedro, portugueses, sem abrigo: a violação com bastão Data: 20 de Outubro de 2024 Agentes envolvidos: Guilherme Leme e mais agentes Miguel e Pedro, dois cidadãos sem abrigo, foram detidos por suspeitas de furto e levados para a esquadra do Rato num carro que teve um acidente de viação. Na esquadra, o agente Guilherme Leme acusou-os de terem provocado o acidente, e a acusação diz que os agrediu com um cinto, usando a fivela, incluindo na cabeça. Outros agentes deram chapadas, socos e pontapés. Pedro terá sido “enforcado” com o cinto, repetidamente. A dois sem-abrigo o agente disse: “cheira agora a tua merda”. Um chorava, o outro pedia aos agentes para pararem. Polícia disse: “..contigo não é com o extensível vai ser com o pau da vassoura.." Mas nada se compara ao que se seguiu, de acordo com a descrição feita nos documentos judiciais: com colaboração de vários agentes, Pedro foi imobilizado, despido parcialmente por Guilherme Leme, que lhe introduziu o bastão extensível no ânus , enquanto Pedro gritava. Depois de retirar o bastão, Guilherme Leme dizia: “Cheira agora a tua merda”. Pedro chorava. Miguel, ao lado, pedia aos agentes para pararem, mas um dos polícias, dando socos e pontapés, respondia: “Contigo não é com o extensível vai ser com o pau da vassoura...vais já treinar para a prisão.” Os agentes são acusados de tentarem forçá-los a simular actos sexuais entre si com o pau da vassoura, rindo. No final, obrigaram-nos a cantar “parabéns”, com o cassetete em riste, filmando a cena. Yusuf e Omar, egípcios, socos com luvas de boxe Data da agressão: 18 de Outubro de 2024 Agentes envolvidos: Guilherme Leme e outros agentes Yusuf e Omar, egípcios, tinham ido assistir a um concerto no Music Box, no Cais do Sodré, quando dizem ter visto homens a pontapear um homem africano e a manietá-lo. Os dois seriam depois imobilizados pelo grupo de agentes à civil, detidos com a justificação de resistência e coacção sobre funcionário e levados para a esquadra do Rato, onde ficariam algemados. Nessa altura, dois agentes, entre eles, Guilherme Leme, terão desferido as agressões. Outro polícia foi buscar luvas de boxe: usou-as para lhes desferir “vários socos na cara e no corpo, como se eles fossem um saco de boxe”, diz a acusação. Guilherme Leme filmou a cena com o seu telemóvel. Seis agentes terão continuado a desferir socos e pontapés simultânea ou sucessivamente durante uma hora nestes dois homens. Os dois cidadãos egípcios relataram que, quando lhes devolveram os pertences, faltavam 50 e 10 euros, em cada uma das carteiras. Ali, argelino, como “crucificado numa cruz” Data: 23 de Outubro de 2024 Agentes envolvidos: Guilherme Leme, Óscar Borges, e mais agentes Detido por suspeitas de furto por esticão, o argelino Ali foi conduzido à esquadra do Rato, algemado de mãos e pés esticados a um banco como “se estivesse crucificado numa cruz”, lê-se na acusação. Cinco agentes , entre eles, um chefe , são acusados de o agredirem. Guilherme Leme ter-lhe-á aplicado spray tipo gás-pimenta directamente no rosto, mantendo-o preso. O arguido Óscar Borges é acusado de o pontapear, incluindo no tornozelo que estava “agrilhoado” com algemas, e Ali ficou assim durante horas. De acordo com o relatado, foram tiradas fotos e vídeos de Ali detido, partilhadas num grupo de WhatsApp com quase 70 pessoas, a maioria agentes, com comentários jocosos; Guilherme Leme exibiu a botija do spray para explicar o que fizera. Neste grupo circularam os comentários: “Um açoriano a falar com um argelino, eles entendem-se bem”; “fez um aiduken ao argelino, ou foi impressão minha?” , ao que Guilherme Leme respondeu: “Não viste as cabeçadas à pepe”. Há filmagens apreendidas em que se vê Ali “em total e completa vulnerabilidade, impossibilitado de resistência, a debater-se com o efeito do gás-pimenta”. Ana, portuguesa: a queixa que terá aberto o processo Data: 9 de Maio de 2024 Agentes envolvidos: Óscar Borges e outro agentes, mais Guilherme Leme por omissão Agarrou na faca apreendida e cortou uma rasta a cidadão cabo-verdiano, enquanto Guilherme Leme filmava tudo. Leme terá então cortado outra rasta e atirou-a para um caixote Ana é uma das duas únicas vítimas que o tribunal identificou como não sendo particularmente vulnerável. É uma peça-chave deste processo porque enviou uma denúncia ao Ministério Público sobre os factos. Há relatório hospitalar das lesões sofridas. Os agentes são acusados de a agredir no local onde foi detida , um café onde tinha estado a beber cervejas na zona do Marquês de Pombal, e onde a PSP foi chamada ao local pela gerente porque Ana não quereria sair. Os polícias, entre eles, Óscar Borges, tiraram-na do carro, “arrastaram-na com recurso à força física, agarrada pelos braços, provocando-lhe o agravamento de uma lesão que tem no ombro direito, a perda de um ténis no trajecto, rasgando a meia e magoando-a no pé”, lê-se. Filmaram um vídeo onde se vê Ana a ter espasmos e Guilherme Leme “fazia gestos como se a benzesse com o sinal da cruz”, que foi partilhado com outros polícias. A dada altura, Ana fechou os olhos e encostou a cabeça na parede, Óscar Borges esbofeteou-a com algo que descreve como um pano molhado com um produto que lhe provocou uma infecção ocular. Nessa altura, terão dito: “Aqui ninguém dorme.” Os agentes levaram Ana ao Hospital de São José e tiraram uma fotografia que foi encontrada no telemóvel de Óscar Borges. Este agente é ainda acusado de, numa ida à casa de banho, tê-la agarrado pelas costas, tapando-lhe a boca com a mão enluvada e batendo-lhe com a cabeça na parede, enquanto dizia: “Ou te calas, ou vais ver ”. Ana diz que o mesmo agente tirou a arma e a apontou várias vezes a si durante a noite. Guilherme Leme “fazia gestos como se a benzesse com o sinal da cruz”, vídeo que foi partilhado com outros polícias Malick, gambiano: água pelo nariz Data: 20 de Julho de 2024 Agentes envolvidos: Guilherme Leme e outros dois agentes, entre eles, um responsável operacional do turno suspeito de omissão Cidadão gambiano, sem compreender português, Malick foi conduzido à esquadra após abordagem na zona dos bares do Bairro Alto. Foi aqui que dois polícias lhe retiraram três pedaços de haxixe e o “mandaram” para casa, ao que Malick recusou, refere o despacho. Mais tarde, noutra zona , Cais do Sodré ,, voltaram a encontrá-lo e intimidaram-no, perguntando por que é que ele não tinha seguido as suas ordens e ido para casa. Os agentes levaram-no, então, à esquadra do Rato. Algemado a um banco, terá sido espancado com murros e chapadas, sofrido uma simulação de afogamento quando um agente lhe despejou água pelo nariz, fazendo-o inalá-la. No telemóvel de Guilherme Leme foi encontrada uma fotografia do mesmo e no grupo o comentário: “Há-de levar no focinho para aprender a não se esticar.” Guilherme Leme é acusado de ter acrescentado comprimidos de ecstasy ao haxixe apreendido para justificar a detenção por tráfico de estupefaciente , algo que o agente no comando terá validado. Josué, cabo-verdiano: “Levou tanto que entrou em choque, mano” Data: 30 de Agosto de 2024 Agentes envolvidos: Guilherme Leme e outros agentes, incluindo um por omissão Josué foi detido na zona do Cais do Sodré por ter uma faca e levado para a esquadra do Bairro Alto, onde se relata que foi espancado por vários agentes e ameaçado de morte com armas apontadas à cabeça por um dos agentes: “Vamos-te matar.” Um dos agentes terá acusado Josué de lhe chamar um nome e em sequência cinco agentes são acusados de o ter espancado ao ponto de terem levado Josué a urinar, ao que um agente lhe disse: “Então um homem desse tamanho com uma faca destas e ainda te mijas nas calças...”. Um polícia terá agarrado na faca apreendida e cortado uma rasta. Depois, Leme cortou outra rasta e atirou-a para um caixote, cena que filmou. Em tom de gozo, um dos agentes chega a dizer que vai mandar o vídeo para a namorada. No telemóvel de Guilherme Leme foram encontrados vídeos e fotografias de Josué algemado e alusões ao corte das rastas. O vídeo foi partilhado no Whatsapp, num grupo intitulado “Grupo sem gordos”, onde estavam sete agentes. Também partilharam a foto de Josué sem rastas e os comentários: “Ahahahahah foi pena não ter morrido esse paneleiro”, “Eu metia o gajo no tejo” ou “mano, se tivesse morrido távamos na merda”. Dani, brasileiro: “A minha vontade era te matar” Data: 10 de Fevereiro de 2025 Agentes envolvidos: Guilherme Leme e outro agente Dani, brasileiro, estava no Cais do Sodré, com um amigo, tinha na sua posse haxixe e álcool e fugiu dos agentes. Foi um segurança de um bar que o entregou aos agentes. Seria levado para a esquadra do Bairro Alto, algemado ao banco e alvo de chapadas sucessivas e pontapés no peito pelo agente Guilherme Leme. A acusação diz que este agente subiu para cima do banco onde ele estava sentado, voltou a descer, e desferiu-lhe um pontapé que o atingiu na zona esquerda do peito. “A minha vontade era te matar brasileiro filho da puta”, disse o agente. O polícia terá adulterado a prova, juntando droga para ultrapassar o limite legal. Dani diz que os agentes se apropriaram de dinheiro (35 euros) e tabaco e acederam ao telemóvel da vítima sem consentimento, além de registarem factos falsos no auto. Frederic, estrangeiro (nacionalidade não identificada): “Sabemos onde moras” Data: 27 de Outubro de 2023 Agentes envolvidos: quatro, um deles não identificado Guilherme Leme exibiu num vídeo a botija do spray para explicar o que fizera ao cidadão argelino. Neste grupo circularam os comentários de Leme: “não viste as cabeçadas à pepe" Novo Highlight É o caso mais antigo e até agora o único que se passou em 2023 e que não estava na lista inicial de vítimas. Frederic, de nacionalidade estrangeira que o despacho não identifica, foi impedido pelos polícias de entrar num TVDE. Os agentes tinham sido chamados por causa de uma queixa de violência doméstica. Terá sido imobilizado e já indefeso atingido repetidamente com pontapés e socos de punho fechado na cabeça e no corpo. Levado para a esquadra do Rato, foi algemado no banco, e alvo de agressões tais que tiveram de o levar ao hospital. Aqui os polícias negaram-lhe uma ida à casa de banho, e trouxeram um balde onde queriam que fizesse as necessidades em público: foi a insistência de uma médica que permitiu que fosse à casa de banho, diz o despacho de indiciação. Adam, argelino, chapada filmada Data: 22 de Março de 2025 Agentes envolvidos: Óscar Borges Adam, argelino, foi detido e levado para a esquadra do Rato , este é o caso sobre o qual se sabe menos. Sentado no banco e algemado, terá sido alvo de uma chapada violenta na cara pelo arguido Óscar Borges - uma cena que foi filmada, segundo a juíza de instrução. José, angolano, “descontrolo de agressividade” Data: 1 de Fevereiro de 2025 Agentes envolvidos: Guilherme Leme, e mais agentes e um segurança José é a segunda vítima caracterizada como não vulnerável que a juíza de instrução identificou e é também o único episódio que se passa na rua. Ele estava no Bairro Alto, em Lisboa, depois de um jantar da empresa, e à saída de um bar envolveu-se numa discussão com Guilherme Leme, depois de cumprimentar a ex-namorada dele com um beijo na mão. José terá dado um soco a Guilherme Leme mas, por estar alcoolizado, desequilibrou-se e caiu ao chão. Acompanhado por outros colegas à civil, o agente é acusado de retirar um bastão extensível e de ter atingido repetidamente José na cabeça, tronco e pernas, sem se identificar como polícia. Com outro agente e um segurança, é acusado de espancarem José com socos e pontapés. Segundo a juíza de instrução, as imagens de videovigilância do local mostram um “descontrolo de agressividade” e agressão ininterruptas mesmo quando José já estava prostrado. tp.ocilbup@hgj Os 24 polícias são acusados de agredir 13 cidadãos de várias formas Paulo Pimenta NFACTOS/Fernando Veludo Joana Gorjão Henriques