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100 ANOS DEPOIS, MARCOLINO ABRAÇA O FUTURO

Fora de Série Online

2026-05-08 21:06:33

No Porto, a Marcolino celebra cem anos com um programa cultural, artístico e social que olha para a história da casa, para as pessoas que A porta da Marcolino abriu-se, pela primeira vez, num Porto que ainda acertava a vida pelo comércio de rua, pelas montras iluminadas, pelas famílias que se conheciam pelo nome e pelos relógios que marcavam a cadência da cidade. Em 1926, quando António Marcolino fundou a casa, a relojoaria ainda pertencia a um território quase íntimo: comprar um relógio era escolher um objeto para durar, reparar uma peça exigia confiança, oferecer uma joia pedia conselho, discrição e olho treinado. Um século depois, a Marcolino continua no centro do Porto, ligada à cidade por uma história que atravessa proprietários, gerações, mudanças urbanas, reabilitações, novas marcas, novos clientes e novas formas de entender o luxo. A celebração dos 100 anos chega em 2026 com um programa que junta memória, cultura, arte, responsabilidade social e um jantar de gala marcado para setembro. Mas o interesse desta história está sobretudo na forma como uma casa portuguesa, nascida no comércio tradicional portuense, conseguiu preservar um nome, transformar-se por dentro e manter-se relevante num setor onde o tempo tanto mede como julga. A Marcolino é hoje uma das referências portuguesas em alta relojoaria e joalharia. A flagship Marcolino 1926, situada na Rua de Santa Catarina, ocupa um edifício de fachada Arte Nova e reúne marcas como Rolex, IWC, Omega, Blancpain, Hermès, Longines, Montblanc, Messika, TAG Heuer, Tudor e Zenith. A Marcolino Link, com um posicionamento mais jovem, funciona como concept store e integra marcas como Pandora e Swatch. No espaço onde a marca nasceu, na Rua de Passos Manuel, mantém-se a assistência técnica, assegurada por mestres relojoeiros especializados, uma dimensão essencial numa casa que nunca se limitou a vender peças bonitas em vitrinas bem iluminadas. A cronologia da Marcolino começa com António Marcolino, figura descrita pela própria marca como homem de persistência e rigor. Em 1937, a relojoaria instala-se na Rua de Passos Manuel, no coração do Porto, onde a fachada com relógio se torna referência para a hora certa. A imagem é preciosa: antes dos telemóveis, dos ecrãs omnipresentes e dos pulsos digitais, uma cidade também se orientava por relógios públicos, montras e pequenos rituais de passagem. A Marcolino entrou nessa geografia diária. Em 1962, a casa passa para Adriano Magalhães, que mantém o nome e aprofunda a especialização em relojoaria de qualidade superior. O detalhe é relevante. Muitas marcas familiares desaparecem quando muda a propriedade. Outras mudam de nome, de ambição, de público ou de carácter. A Marcolino conservou a designação original, sinal de que o nome já tinha valor próprio no comércio do Porto. Em 1970, a aquisição por José Moura, reconhecido ourives, trouxe uma primeira grande renovação estética e funcional, tornando o espaço mais moderno, mais confortável e mais alinhado com uma clientela que começava a olhar para relógios e jóias com outra exigência. A etapa decisiva chega em 1980, quando a família Neves adquire a empresa. A Marcolino renova o espaço, reforça o serviço pós-venda e afirma-se como referência de modernidade com a introdução da Swatch, tornando-se, segundo a informação da marca, a única loja no Porto com os modelos mais procurados da marca suíça. À distância, este episódio diz muito sobre inteligência comercial. A Swatch não era apenas um relógio acessível e colorido. Era um fenómeno cultural. Colocá-la no contexto de uma relojoaria histórica significava perceber que o desejo também muda de linguagem e que uma casa com ambição de futuro não podia ficar refém de uma ideia demasiado solene de tradição. Em 1991, a família Neves expande a Marcolino com a abertura de um novo espaço comercial e reposiciona a marca no segmento de topo, integrando prestigiadas marcas de alta relojoaria e reforçando a assistência técnica com um mestre relojoeiro especializado. A partir daqui, a casa começa a desenhar o seu lugar contemporâneo: uma relojoaria portuense com raiz local, mas vocabulário internacional; uma empresa familiar capaz de conversar com o cliente de sempre e com o colecionador atento às grandes maisons suíças. A compra, em 2011, de um terceiro espaço comercial na mesma rua, na esquina com a Rua de Santa Catarina, num edifício Arte Nova de valor patrimonial, acrescenta outro capítulo a esta história. O Porto vivia uma transformação profunda, acelerada pela reabilitação urbana, pelo turismo, pela nova vitalidade do centro histórico e pela valorização do património arquitetónico. A Marcolino acompanhou esse movimento sem abandonar a sua matriz. Em vez de se deslocar para uma lógica anónima de centro comercial ou perder-se numa neutralidade internacional, reforçou a presença na rua, no edifício, na esquina, na cidade real. O regresso de Paulo Neves, em 2014, marca nova fase de renovação, com imagem mais apurada e lançamento da flagship store, integrando shop-in-shop Rolex, marcas de alta relojoaria suíça e joalharia internacional. Em 2016, ano do 90º aniversário, a fachada é renovada, acompanhando a reabilitação da zona histórica. Em 2021, a loja da Rua de Santa Catarina volta a ser intervencionada para reforçar conforto e experiência de cliente. A palavra “experiência” pode estar gasta, coitada, já pediu férias há anos. Aqui, no entanto, tem utilidade: numa relojoaria desta natureza, a experiência começa no acolhimento, passa pelo conselho, prolonga-se na assistência e continua muitos anos depois da compra. A Marcolino chega aos 100 anos num momento curioso para o setor. O luxo internacional vive pressionado por duas forças aparentemente opostas: a globalização das grandes marcas, com os seus códigos reconhecíveis em qualquer capital, e a procura crescente por histórias com chão, rosto e proveniência. O cliente contemporâneo pode viajar, comparar preços, seguir lançamentos em tempo real e estudar referências como quem prepara uma tese. Ao mesmo tempo, valoriza cada vez mais casas capazes de oferecer confiança, continuidade e conhecimento. É aqui que uma marca como a Marcolino encontra a sua relevância. Uma relojoaria independente portuguesa, nascida no Porto, não compete apenas pela lista de marcas representadas, embora essa lista seja naturalmente importante. Compete pela curadoria, pelo serviço, pela relação, pela memória acumulada e pela capacidade de saber quando uma peça merece ser comprada, conservada, revista ou transmitida. Um relógio mecânico vive da precisão, mas também de paciência. Exige manutenção, conhecimento técnico, respeito pelo mecanismo. Pode atravessar gerações. Pode ganhar valor. Pode perder interesse. Pode voltar a ser desejado. Tem humor próprio, portanto. A assistência técnica, instalada no espaço original da Rua de Passos Manuel, torna-se particularmente simbólica. A marca sublinha que ali trabalham mestres relojoeiros especializados, responsáveis pela manutenção das peças. Esta dimensão merece destaque porque devolve espessura ao luxo. A venda é apenas um momento. O cuidado posterior, a reparação, a revisão e a preservação dizem muito sobre a seriedade de uma casa. Num relógio, o que fica escondido costuma ser tão importante como o que brilha no mostrador. A personalização e o desenvolvimento de peças de joalharia segundo o desejo do cliente acrescentam outra camada a esta história. A joalharia vive de matéria preciosa, mas também de interpretação. Transformar uma ideia, uma herança, um pedido ou uma ocasião numa peça concreta implica saber ouvir. A Marcolino parece ter construído parte da sua reputação nesse território discreto, onde a confiança pesa tanto como o ouro. No universo das marcas representadas, a casa move-se hoje em diferentes velocidades. A flagship Marcolino 1926 concentra alta relojoaria e joalharia internacional. A Marcolino Link abre a porta a uma linguagem mais jovem e acessível, sem quebrar a ligação ao universo da relojoaria e da jóia. O resultado é uma arquitetura comercial com duas entradas para a mesma história: uma mais próxima do colecionismo, da peça de investimento, da tradição mecânica; outra mais ligada à descoberta, ao presente imediato, ao prazer de compra menos cerimonial. A celebração dos 100 anos foi desenhada pela Marcolino como um conjunto de momentos culturais, artísticos, institucionais e sociais. O conceito oficial, “100 anos a contar histórias”, serve de guarda-chuva a uma agenda que começa pelas pessoas da casa: colaboradores, parceiros e família. A marca produziu um vídeo institucional de homenagem a quem construiu a sua história ao longo de gerações e criou o Pin dos 100 anos, entregue como símbolo de pertença e reconhecimento. A fachada histórica da Marcolino será iluminada com o logótipo do centenário, transformando o edifício num elemento visível da comemoração durante vários meses. A decisão tem leitura urbana. Uma marca com cem anos no Porto não celebra apenas dentro de portas. Celebra na rua, no passeio, na montra, diante de quem passa. A relojoaria foi, durante décadas, parte da paisagem visual da cidade; o centenário devolve essa presença ao espaço público. Outro eixo importante será o livro comemorativo dos 100 anos, desenvolvido em parceria com o historiador Francisco Queiroz. A obra não ficará limitada à história da Marcolino. Segundo a marca, abordará também a evolução da relojoaria e da joalharia em Portugal e a ligação ao Porto. Esta opção dá densidade ao projeto. Um trabalho histórico com enquadramento mais amplo permite perceber a casa como parte de um ecossistema: comércio, ofício, cidade, gosto, consumo, património e transformação social. O programa integra ainda uma ação solidária com o Centro Paroquial Nossa Senhora da Vitória, reforçando a ligação à comunidade onde a Marcolino nasceu e cresceu. No plano cultural e artístico, estão previstos projetos de intervenção urbana e artística, concursos abertos a jovens criadores e uma exposição temporária, ainda a anunciar em detalhe. O centenário ganha assim uma dimensão que ultrapassa a efeméride interna. Entra no território da responsabilidade local e da participação cultural. O jantar de gala, marcado para 24 de setembro de 2026, será o grande momento social das celebrações, reunindo clientes, parceiros, personalidades e representantes institucionais. É natural que assim seja. Uma casa de luxo também se afirma pela capacidade de reunir a sua comunidade. Mas a parte mais interessante do programa talvez esteja antes e depois desse jantar: no livro, na fachada, na ação social, na convocação de jovens criadores, na vontade de usar a história como ponto de partida para novas conversas. Miguel Neves, COO da empresa, resume o espírito da celebração ao afirmar que o centenário da Marcolino é um compromisso com o futuro, com a cidade, com as pessoas e com os valores que trouxeram a marca até aqui. Uma afirmação que desloca a comemoração do terreno nostálgico para uma ideia de continuidade. Uma marca centenária pode olhar para trás com orgulho, mas fica realmente interessante quando sabe o que fazer com esse passado. A Marcolino prepara os próximos anos com três pilares assumidos: excelência artesanal, sustentabilidade e responsabilidade social, e experiência de cliente. A marca pretende reforçar o seu posicionamento no mercado da excelência através de relações duradouras com clientes que valorizam autenticidade e exclusividade. O desafio será transformar estes princípios em prática visível, consistente e reconhecível, sem perder a escala humana que torna uma casa independente diferente de uma grande plataforma global. O Porto mudou muito desde 1926. Mudou o comércio, mudaram as ruas, mudou a forma como se compra, se viaja, se comunica e se deseja. A Marcolino atravessou esse século mantendo uma ideia antiga e bastante atual: certas casas sobrevivem porque sabem adaptar-se sem apagar a sua assinatura. O relógio da fachada pode marcar a hora certa. A história, essa, marca outra coisa: a persistência de um nome portuense que chegou aos 100 anos com lastro suficiente para celebrar e curiosidade suficiente para continuar. Rita Iberico Nogueira