pressmedia logo

JUNTOS EM FLORENÇA SEGURO E COSTA: O PRIMEIRO ENCONTRO

Nascer do Sol

2026-05-08 21:06:35

Seguro e Costa, o primeiro encontro em Florença Ha décadas que uma parte significativa da elite política e académica portuguesa passa por Florença antes de chegar ao poder, às universidades ou aos gabinetes ministeriais. ntónio José Martins: foi assim que o Presidente da República foi chamado a intervir nas celebrações do 50.0 aniversário da criação do Instituto Universitário Europeu (IUE), em Florença. E, tanto quanto se sabe, foi a primeira vez que Seguro e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, estiveram fisicamente juntos desde que o antigo líder socialista deu a volta ao resultado e passou de derrotado a candidato presidencial vencedor. Não se sabe o que conversaram. Mas, perante a audiência, e em momentos distintos, ambos falaram da Europa e do mundo. O Presidente da República discursou lem 1português, O presidente do Conselho Europeu abordou, num inglês possível, os temas que hoje interpelam a Europa e o mundo. Ficamos, porem, pela intervenção de Seguro. O Presidente aproveitou os 50 anos da instituição para expor o que foi, no essencial, uma visão do mundo pessoal, mas inevitavelmente política. Disse ter crescido numa Europa onde a paz e a liberdade pareciam adquiridas. Hoje já não parecem. A liberdade, afirmou, «está a ser ameaçada pela força bruta de fora e pela indiferença e pelo cinismo de dentro». «Patriotismo e nacionalismo não São sinónimos. Amar o país de onde se vem é uma emoção legítima. Transformar esse amor em arma contra os outros é o caminho para o abismo», afirmou, antes de citar um professor de Filosofia do colégio: «o erro é um acidente, a repetição é uma escolha». Sobre a governação europeia, defendeu o abandono da regra da unanimidade em matérias estratégicas: «Uma Europa de 27 que se move apenas quando há consenso é uma Europa que chega sempre tarde.» Terminou dirigindo-se aos estudantes do IUE: «As ideias que aqui se geram tornam-se políticas em Bruxelas, em Lisboa, em Roma, em Paris, em Berlim, em Varsóvia. O trabalho que aqui fazem importa.» INTELLIGENTSIA PORTUGUESA EM FLORENçA Há meio século que o IUE, instalado nas colinas de Fiesole, com vista sobre Florença, acolhe gerações de académicos e políticos europeus. Dois assessores de António José Seguro passaram pelo IUE. Luís de Sou-sa doutorou-se em Ciências Políticas e Sociais em 2002. Nuno Severiano Teixeira doutorou-se em História das Relações Internacionais, foi ministro da Administração Interna e da Defesa, e regressou a Florença, em 2010, como Senior Visiting Fellow. Mas a lista é longa. Miguel Poiares Maduro doutorou-se em Direito no IUE antes de se tornar ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional de Pedro Passos Coelho e diretor da Escola de Governação Transnacional do próprio instituto. Francisco Bettencourt fez o doutoramento em Florença antes de dirigir a Biblioteca Nacional e O Centro Cultural Gulbenkian, em Paris. José Santana Pereira doutorou-se em Ciências Políticas e Sociais no IUE em 2012. Hoje professor no ISCTE, disse ao SOL que «muitos desses investigadores regressaram depois a Portugal, trazendo para as universidades portuguesas perfis marcados por uma maior integração em redes científicas internacionais e ajudando a atenuar algum fechamento e provincianismo que durante muito tempo marcaram o sistema universitário português». Entre os muitos académicos portugueses destacou António Costa Pinto, os ex-ministros Helena Carreiras e Pedro Adão e Silva, e ainda Jorge Fernandes e Vicente Valentim. Santana Pereira recorda também o impacto pessoal da passagem nor Florença: «o período que passei no IUE foi, sem exagero, um dos mais marcantes e felizes da minha vida. Cheguei a Florença no final de Agosto de 2008 para iniciar o doutoramento, tinha então 25 anos.» E conclui: «A convivência quotidiana, ao longo de quatro anos, com uma cidade onde arte, história, arquitetura e gastronomia se entrelaçam de forma tão sedutora tornou-me numa pessoa inequivocamente diferente do jovem que saiu de Lisboa para se doutorar no estrangeiro.» OSOL falou também com Luís de Sousa, que recupera a ideia partilhada pelo Presidente da República de que a Europa é «uma escolha civilizacional». Uma ideia, diz, inscrita na própria criação do IUE, instituição que escolheu por «três razões fundamentais»: «Em primeiro lugar, a centralidade da missão do Instituto, profundamente alinhada com a ideia de uma Europa construída também pelo conhecimento científico. Em segundo lugar, o prestígio da instituição, refletido num corpo docente de excelência, marcado pela interdisciplinaridade, pelo espírito críticoe e pelo respeito pela liberdade de investigação. Em terceiro lugar, a oportunidade de beneficiar de uma bolsa que me permitiu seguir um percurso académi-Co vautónomo, com responsabilidade e reconhecimento do investimento públicono conhecimento.» Para Luís de Sousa, a presença do Presidente da República nas celebrações dos 50 anos do IUE, «a escassos dias da evocação da Declaração Schuman _ 9 de Maio, Dia da Europa _ é politicamente relevante». «é-o para a Europa, num contexto de instabilidade global, de incerteza quanto ao futuro e de crescentes desafios ao projeto europeu, que exigem lideranças capazes de inspirar, unir e defender o chão comum europeu. E é-O também para Portugal, cuja consolidação democrática está intimamente ligada à adesão à comunidade de democracias europeias e cujo percurso de desenvolvimento e bem-estar permanece indissociável desse processo.» SEGURO, O PRESIDENTE EXECUTIVO António José Seguro foi eleito há 90 dias Presidente da República com um resultado histórico , os 67% mais expressivos da democracia portuguesa dos últimos 50 anos , e aparentemente tem feito de tudo para diluir a tensão estrutural entre os poderes formais reduzidos de uma Constituição que jurou defender e a legitimidade individual que a eleição direta lhe conferiu. Ainda é cedo, e Seguro tem conseguido escapar das armadilhas em que se colocou , desde logo quando disse que obviamente vetaria uma nova legislação laboral sem acordo na Concertação Social. Pelo caminho, percebeu que promover pactos setoriais a partir de Belém, em competição direta com o Governo, o Parlamento e os parceiros sociais, é criticável menos se não tiver sido completamente inútil. Ainda assim, altera as regras do jogo político. O Presidente escapou também a crí- ticas de maior na recente promulgação da Lei da Nacionalidade, colocando 11m aviso em forma de adversativa Numa interpretação purista da Constituição, porém, um Presidente ou veta ou promulga , não promulga... mas . Mais difícil de escapar a críticas , ainda que empurradas no tempo, para daqui a um ano é a iniciativa presidencial do chamado Pacto Estratégico para a Saúde, que colocou Adalberto Campos Fernandes na linha da frente de uma batalha que a maior parte dá como perdida. Mesmo que Campos Fernandes se imagine Leónidas a enfrentar o numeroso exército persa, sabemos o que aconteceu na Batalha das Termópilas: o pequeno grupo, os 300 espartanos, ainda quesímbolo de coragem e sacrifício, foi traído e derrotado. Mariana Vieira da Silva, que em tempos disse de Seguro que «não se lhe conhece nenhuma ideia», é a socialista que representa o partido no grupo liderado pelo antigo ministro da Saúde de um governo de António Costa. Sobre o Pacto Estratégico para a Saúde disse, em entrevista recente: «Não me parece que vá resolver o debate que tem mais de 40 anos sobre a forma de organização do Serviço Nacional de Saúde». O Governo lembra ao Presidente que tem a sua própria Lei de Bases para a Saúde e que «é o Governo que governa» , mostra-se compreensivo, enquanto o Pacto não se revelar um instrumento de oposição. Não por acaso, a primeira reunião de Adalberto Campos Fernandes foi com a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, que conhece há anos, de quem o PS voltou a pedir a demissão, sendo que o Chega não tem feito outra coisa. No essencial, o Pacto Estratégico para a Saúde gerou, quando comparado a uma vacina, um fenómeno negacionista. PR e presidente do Conselho Europeu encontraram-se pela primeira vez desde 2014. Em Florença, por onde passou muita da intelligentsia portuguesa 12 A liberdade está a ser ameaçada pela força bruta e a indiferença , disse Seguro t Foi a primeira vez que Seguro e Costa estiveram juntos desde que o segundo afastou o primeiro da liderança do PS, há 12 anos Ana Maria Simões