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A IDEOLOGIA, QUANDO CEGA, MATA

Expresso

2026-05-08 21:06:35

exílio a que António José Seguro se autocondenou após o golpe de que foi alvo em 2014, enquanto líder do PS, foi uma lição de democracia. O seu silêncio e o afastamento da vida política não fizeram parte de um plano a dez anos com vista a uma candidatura à Presidência da República, mas sim um sinal de respeito pelos seus adversários, pela escolha dos militantes do seu partido e por quem votou depois em António Costa para primeiro-ministro. Agora, após ter sido eleito, com uma ampla maioria, pela direita, centro e esquerda, Seguro irá continuar a ser fiel aos seus valores. E neste caminho, tal como o fez como secretário-geral do PS, irá com toda a certeza irritar muitos de entre os seus. Ninguém sentirá tanto esse desalento como aquela esquerda, marcadamente ideológica, que o escorraçou da liderança do PS. Bastaram poucas semanas para que ficassem de tal forma incomodados com Seguro, pela forma como lidou com a Lei da Nacionalidade e com as escolhas que fez para a equipa que quer formar em Belém, que o acusam de vil traição. Há uma parte do PS que não aceita que Seguro queira ser Presidente de todos os portugueses e não de uma ala extremista que nem sequer aceita que existem problemas graves gerados pela forma como eles abordaram a imigração ou como deixaram que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) fosse gerido. Que não percebe que foi o PS e a cegueira ideológica de Marta Temido e dos seus amigos (já lá vamos) que criaram um ambiente onde uma boa gestão é vista como um entrave à prestação de serviços de saúde, e não uma obrigação. Por isso nenhuma escolha de Seguro os irritou tanto como a de Adalberto Campos Fernandes. A preferência pelo médico, professor, político, ex-ministro socialista e, antes disso tudo, um tecnocrata por convicção irritou aquela esquerda para a qual nada nem ninguém está acima da ideologia. Os habituais porta-vozes deste grupo foram audíveis a assumir como um erro colossal a escolha de Adalberto. Porque sabem que com ele não há ideologia, de esquerda ou de direita, que resista ao primado da racionalidade e da eficiência. O ponto máximo da discórdia é a posição equilibrada face à participação de privados no SNS, nomeadamente das parcerias público-g privadas (PPP). Porque para aquelas cabeças tudo se justifica em nome da ideologia, mesmo a destruição de hospitais que prestavam um excelente serviço à população. Já o escrevi várias vezes e volto a repeti-lo: Marta Temido (que sucedeu a Adalberto na pasta da Saúde), António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, enquanto responsáveis políticos da geringonça , são culpados de terem destruído as PPP e com elas a oferta de cuidados de saúde a populações inteiras. Loures é o melhor exemplo. Foi criminoso. O Hospital Beatriz Angelo era exemplar enquanto PPP, hoje é um exemplo da desgraça do SNS, e sem uma nova política diferente de tudo o que foi feito até agora nada mudará. Nos primeiros meses do ano, 82% dos hospitais fizeram menos consultas, 87% reduziram os primeiros atendimentos e 72% realizaram menos cirurgias programadas face ao ano passado. A liderar este descalabro das Unidades Locais de Saúde está Loures-Odivelas, onde os médicos fizeram menos 13.329 consultas (menos 30,4%) face a janeiro e fevereiro do ano passado. E isto enquanto todos nós, os contribuintes, estamos a pagar mais, pois o SNS tem mais profissionais e mais trabalho extraordinário. Há mais 22.122 médicos e 52.989 enfermeiros e mesmo assim, com mais pessoal, o recurso a horas extraordinárias também aumentou. O SNS está a gastar muito mais, 39,7% acima de 2024, e a produzir menos. Ou seja, a receita da direita de despejar dinheiro em cima do problema também não resulta. Para mudar a Saúde não precisamos de ideologia, precisamos de capacidade de gestão e coragem de fazer o que é certo. E, sim, precisamos dos privados, enquadrados com contratos à prova de bala e sempre com o utente em primeiro lugar e o custo em segundo. Não aceitar isso é perpetuar o crime de haver dois tipos de cuidados de saúde em Portugal, o bom para quem tem dinheiro e o resto para quem não tem. António José Seguro percebeu isso há muito tempo e, felizmente, faz parte dos que acha que a ideologia, quando cega, também mata. jivpereira@expresso.impresa.pt A preferência pelo médico, professor, político, ex-ministro socialista e, antes disso tudo, um tecnocrata por convicção irritou a esquerda, para a qual nada nem ninguém está acima da ideologia João Vieira Pereira