RUI TAVARES - “LUÍS MONTENEGRO TEM USADO MINISTROS COMO PARA-RAIOS”
2026-05-08 21:06:36

GOVERNO Em entrevista ao DN, co-porta-voz do Livre vê esta segunda legislatura da AD como “bem pior” do que a primeira: “este Governo não chega sequer para a nota sete (de zero a 20)” .E acha que o primeiro-ministro usa os titulares das pastas para se proteger das críticas. oco-porta-voz do Livre ainda não abre o jogo sobre uma recandidatura, em ano de congresso do partido, apesar de estar habilitado a fazê-lo pelos estatutos interno. Nesta entrevista ao Diário de Notícias, Rui Tavares lamenta que o PSD esteja a seguir a agenda do Chega, considera que Luís Montenegro se tem blindado através dos ministros e mantém temores em relação à revisão constitucional. Não vê o PS como um parceiro fiável para a regionalização. Quaissãor as principais metas doLivrepara2 2026? Temos muito claramente no horizonte a defesa da Constituição, porque acreditamos que, mais tarde ou mais cedo, haverá uma inútil e desnecessária querela constitucional. Porque à medida que a direita vai deixando claro a incompetência para resolver os problemas práticos que as pessoas têm, na habitação, na saúde, na educação, a única maneira que tem de: a disfarçar é através de guerras culturais ou do destapar dessa querela constitucional. Não defendemos o imobilismo da Constituição. Defendemos que tenha uma capacidade de adaptação, mas que seja fiel à sua história, que seja um espaço de consenso que vai da esquerda à direita democráticas. Temos uma direita muito radicalizada que quer fazer uma revisão, que pode ser drástica, retirando o direito do consumo, do trabalho, do ambiente. Fazer essa revisão unicamente à direita e coma a extrema-direita seria um caso único na história de 50 anos de democracia em Portugal e uma machadada numa história constitucional democrática. E olhamos para o Chega, está a pôr os seus ministros-sombra no Conselho Superior de Magistratura do Ministério Público, assessoras jurídicas do próprio grupo parlamentar = que aliás nos levará a pedir pareceres ao Conselho da Europa-e deputados como membros de um órgão de imprensa do próprio partido no Conselho da Opinião da RTP Hugo: Soares, há umas semanasno Parlamento, valorizou que oGovernoaplicouapropostade do nasseferroviárionacional. êumaproposta do Livre. Mostra que há pontos de entendimento possíveis com O Governo? Não nos importamos nada que o Governo roube as nossas ideias desde que não as distorça e que depois não diga que é dele aquilo que, na verdade, é nosso. As pessoas que moram no Entroncamento, ou em Tomar, dizem-me que essa medida serviu para pouipar dezenas de euros. Agora o que era preciso era alargá-lo a mais comboios. Já chega a um milhão de assinaturas e isso éo efeito prático na vida das pessoas. Esta proposta, ainda com Pedro Nuno Santos [como ministro de Costa), andoum muito tempo em negociação. Este passe era um teste para um passe de mobilidade nacional, porque há muita gente em Portugal que mora em regiões que não têm comboio e hoje a situação está agravada pela crise da habitação. O nosso programa centra-se sempre entre coisas pequenas que mudam o dia a dia. Temos outras mais visionárias, como a semana de quatro dias. Os governos vão começar a perceber que é boa em termos de produtividade, poupança e para o planeta. Olhando ao mandato do Governo, der 0a a 20, comor classificariaas medidas que têm sido aplicadase asrespostasa às crises? Este Governo não chega sequer para a nota sete. Pedro Nuno Santos foi muito generoso quande o categorizou de medíocre. ê um Governo que não tem resolvido nenhum dos problemas práticos que tem à frente. Já é uma questão diferente com a primeira legislatura de Luís Montenegro. Primeiro, porque havia muita fruta madura para apanhar, que António Costa tinha deixado, a nosso ver, incompreensivelmente. Mas as negociações com os professores, polícias, enfermeiros foram mantidas no início do primeiro Govermo de Luís Montenegro e isso foi bem feito. Houve alguns problemas que fo-ram resolvidos. Só que não vimos outro programa quando deixou de ter fruta madura para apanhar. Na Saúde tinha os tais 60 dias para um plano de emergência e não se vê qualquer melhoria. Acha que Ana Paula Martinsi está emxeque? Aministra só não foi ainda demitida porque Montenegro tem usado os seus ministros como para-raios para, no fundo, receberem todas as culpas que deveriam ser parao próprio primeiro-ministro. Jáo fez com a ministra da Administração Interna [Maria Lúcia Amaral] e agora com a ministra da Saúde. Eincluiaministrado Trabalhonestadefinição de para-raio? A ministra do Trabalho tem um papel diferente, o papel de ponta de lança em relação a coisas que ar adireita sempre quis fazer. O pacote laboral não faz o mínimo sentido numa altura em que o país veme de uma situação de pleno emprego, de crescimento económico. Faria sentido ajudar OS trabalhadores, OS bons gestores e OS patrões que tenham interesse numa economia de valor acrescentado. Precisamos de einvestimento público e privado, que seja bem canalizado, experimentando técnicas avançadas de gestão como a semana de quatro dias, uma agência portuguesa de inteligência artificial e a economia de descarbonização. Essas são propostas que nos levam para salários mais altos, quenos dão uma segurança social mais reforçada e um Estado com capacidade para dar serviços públicos universais e tendencialmente gratuitos. Pelo contrário, o que este Governo e a sua base de apoio apostam sempre é na economia do dinheiro fácil. Há toda uma cadeia que beneficia disso, do imobiliário à banca. Vamos dar mais exemplos deste dinheiro fácil: o »jogo online. Tenta-mos sregulamentá-lo, impedir que esteja a ocupar o espaço público da maneira absolutamente escandalosa que ocupa. Temos uma enorme maioria social a favor da regulamentação, as pessoas veem as desgraças que acontecem à sua volta, mas o Governo não quer. Em Portugal, fala-se sempre em baixar O IRS e o IRC dos que já são mais beneficiados, mas veja-se a dificuldade que há , desde que José Sócrates o fez subir, em 201 ] , de baixaro O IVA. Compreendeq quec PSD. adote discursos tão ferozes contra aimigraçãor e que tenha apriorizadomudanças nal Lei da Nacionalidade? Da parte do PSD não se entende. é um total erro, um tiro no pé de que se vai arrepender mais tarde por estar a ir atrás dos temas do Chega. Da parte do Chega entende-se muito bem. Cada vez que um deputado do Chega tem um problema criminal, ai vem. André Ventura com três Salazares. Depois, vem ao plenário e cita frases usadas por Hitler, que se fosse dita no parlamento alemão ou no parlamento francês seria um escândalo. André Ventura quer que as pessoas falem de burcas ou da utilização de armas por polícias, quando deveríamos estar a falar dos milhares de milhões de euros para fazer a recuperação no território após as tempestades. O Governo só fala da unidade de missão, mas essa não executa milhares de milhões de euros. é preciso uma agência pública que seja escrutinada, que seja fiscalizada neste parlamento com OS seus gastos, mas disto nunca ouvimos o Chegar a falar. Acho é éextraordinário que o PSD vá atrás disto. o PSD é indispensável para fazer qualquer maioria de dois terços neste parlamento, tem desde o início uma escolha muito clara entre fazê-la com parceiros históricos da construção da democracia em Portugal e com novos partidos que, como no caso do Livre, estejam sempre disponíveis para ouvir, para falar. Mas o Governo identifica também que se as pessoas falarem de burcas durante umas semanas não vão falar de urgências fechadas ou casas mais caras. Indigna-me que haja um Governo que esteja sentado em cima do epicentro da crise da habitação e nada faça. Acha que a esquerdar deve (ou pode, sequer) trabalhar para que o Governo não termine alegislatura? Não podemos ser institucionalistas numas coisas e não ser nas outras. Este Governo é legitimamen-teescolhido pelos portugueses, é preciso que as pessoas vejam do que é capaz oul, neste caso, do que não é capaz. O país não deve ter crises políticas que sejam artificiais. Se a crise política surgir de outras paragens, aí avaliaremos, mas não surgirá da parte do Livre. é muito difícil que este Governo nos apresente um Orçamento que nós digamos que sim, mas não dizemos que não antes de o avaliar, porque há guerras, catástrofes. Todos temos de dar o nosso contributo e O Livre, a seguir ao comboio de tempestades, disse estar aberto a um trabalho para um orçamento retificativo. Não seise vai acontecer, importante é darem-s se os apoios às pessoas e à economia local. O Livreo a Iniciativa Liberal, em certosi casos, podem fazer de pêndulo. Sensibilizoua a IL para que nosórgãosi externosi não se aliasseao Chega. Ficoudesiludido? Não senti desilusão porque também não tinha enormes ilusões. Sinto é incompreensão. é difícil conceber a Iniciativa Liberal como um normal partido liberal deum país europeul e trabalhei muitas vezes com esses partidos na Europa. Em Portugal, vê-se uma agenda sobreposta, partilhada com o inimigo óbvio, OS antiliberais, como o Chega. Viu-se na deriva da Iniciativa Liberal em relação à imigração. Entende-se se mal que não tenham contribuído para a existência de um entendimento em relação a estas instituições centrais na democracia portuguesa, como o Conselho Superior de Magistratura, o Conselho Superior do Ministério Público, que são coisas seríssimas no combate à corrupção eindependência na Justiça. A Iniciativa Liberal reagiu? Não! O Rui Rocha guardou a sua capacidade de estar zangado com a vida com: a candidatura de Tiago Antunes. e foi pela janela toda a briga que a Iniciativa Liberal tinha com a cultura de cancelamento, agora pelos vistos adotaram-na. Pode sempre haver um momento em que a Iniciativa Liberal abra OS olhos e pense que tem de construir a democracia com as famílias políticas que historicamente construíram as democracias europeias e, sim, as democracias europeias tiveram muito de Socialismo. Se a ILnão quiser, o ivre não se importa nada eserá também base do nosso crescimento, porque é preciso ir roubar o eleitorado à direita. Aregionalizaçãoo uman ametaa assumidapelo Livre. Tececonversas como PSD, sabendo quehá depu-tados do próprio PSD que concordam com a necessidade de descentralização de competências? O Livre não para de fazer o que éo seu ativismo nesta ideia. A cura para o centralismo chama-se regionalização. é preciso que um jovem de Portalegre ou Bragança possa votar em diversos partidos e ter essa representação, quie não tenha de vir para Lisboa ou Porto para que o voto conte. Por outro lado, deve votar também na direção política da sua própria região. o que dizemos é: escolhes o teu autarca, a tua região, o teu país e a democracia europeia. Isto é o que éprático depois na alocação de recursos, no combate às catástrofes. Queremos ganhar esse debate em referendo e não temos paciência para a treta de quem diz que é contra o centralismo, mas também contra a regionalização. éseguroconfiar nol PS quando teveoportunidader para o fazer quandofoi Governo e nãoavançou? Não, O PS também está muito dividido. Publicamente, e a favor daregionalização, mas também tem muita gente que prefere criar estes híbridos, que não são nem carne nem peixe, das CCDR a mandar, ainda para mais eleitas pelos autarcas. A AD decide nomear para as CCDR uma série de políticos de carreira no partido. Faz-se longe doe olhar das pessoas. Espanha tem problemas de falta de coesão nacional, fez a regionalização e vemos onde está hoje a Galiza em comparação há uns anos. A regionalização interessa ao litoral também. ouveumaprofundamentoderelaçãocom José Luís Carneiro? Também entende que ele tem de sermaiscríticosobred o Governo? As relações são boas e o diálogo é constante. Não lhe vou é dar conselhos de como deve levar adian-te a liderança do seu partido. é muito importante que todos os partidos progressistas cresçam para que Portugal tenha alternativa. O Livre tem de ser pragmático no diálogo, fazer coligações como já fez à escala local. Mas ter uma estratégia de crescimento para si mesmo. Quantoa aor novo Presidente, AntónioJosé Seguro: é garante de que, por exemplo, uma revisão constitucional não passará? Não pode ser um político a ser esse garante. Somos todos. Seguro fez um ótimo discurso no 25 de. Abril e tem notado vários problemas do país. Se viermos a ter uma querela constitucional, que creio ser inevitável para a direita, o Presidente da República fica numa situação mais limitada, porque só tem duas cartas para jogar. Deixar andar, mesmo que seja uma revisão drástica, ou então ir para uma dissolução parlamentari e para novas eleições que ninguém deseja no país neste momento. A direita, hoje, tem noção de que a revisão constitucional não é popular e que nunca ganharia dois terços numa eleição. Estamos preparadíssimos para avançar com um grande esforço de dinamização da opinião pública a partir do exato momento em que alguém entregue um projeto de revisão constitucional. Estamos prontos há meses. Concorda com Bloco el PCP que adisseram quer o Presidente da República fez pressão à UGT para um acordo na lei laboral? Não vou comentar. O Presidente da República, durante a campanha eleitoral, disse que usaria a caneta para vetar o pacote como está er é o que esperamos que faça. Como reager aos sinais de alguma divisão e críticas internas, noLivre? Hát quem aponte, designadamente, falta de erotatividadenos cargos. Está nos estatutos desde o início a rotatividade no cargo de co-porta-voz. Há três mandatos, curtos, de dois anos, para o Grupo de Contacto, portanto essa rotatividade existe por inerência, mas o Livre tem mais do que isso. Tem uma direção do partido composta sempre por pessoas das várias listas que tenham obtido um mínimo de votos [Rui iTavares teve dez de 15 em 2024]. Os candidatos são escolhidos por eleições primárias, existe euma abertura e temos visto uma estabilidade grande: muita gente entra, poucos saem. Não há debandadas ou lideranças inteiras a sair. As pessoas não entram no Livre para ficarem numa posição de expectativa. Queremos enraizamento no mundo do trabalho, dos que são sindicalizados, mas uma rede de pequenos e médios empresários, da Ciência, Cultura. ésua intenção continuar e candidatar-se em 2026 noo congresso? Alguns têm possibilidade de renovar o seu cargo no Grupo de Contacto. é o meu caso, mas tudo isso terá de ser discutido entre membros e apoiantes. Não é meu hábito discuti-lo na imprensa nem antes de tempo. é importante discuti-lo com a marcação oficial do congresso e, em primeiro lugar, com membros e apoiantes. A Isabel Mendes Lopes está nas mesmas condições, fez dois mandatos, é uma extraordinária co-porta-voz e líder parlamentar e tem todas as condições políticas para continuar. Jorge Pinto ganhou lastropara ser onovo Rui Tavares em 2028? O Jorge Pinto é o novo Jorge Pinto, tem uma simpatia e um acolhimento tão grande por parte das pessoas, e vejo a forma como toda a gente reage à naturalidade com que o Jorge Pinto está na política, à maneira franca, honesta, sorridente, como se apresenta. Conheço-o antes do Livre, desde o dia em que me veio bater à porta do gabinete no Parlamento Europeu porque tinha acabado de conseguir um emprego nas instituições europeias e queria doar dinheiro para uma bolsa de estudos que eu estava a fazer. Tem grande futuro político, como tem o Paulo Muacho, um alentejano que veio para O Seixal com nove anos, jovem advogado, aguerrido, que não deixa que ninguém tire um direito a ninguém. Foi líder parlamentar agora em substituição da Isabel e é alguém que faz um papel extraordinário nos Direitos, Liberdades e Garantias, como também a Patrícia Gonçalvest e a Filipa Pinto fazem na Ciênciae e Defesa e Educação e Cultura, respetivamente. Olho para o nosso grupo parlamentar e sinto um grande orgulho. FOTO PAULO SPRANGER “Se viermosa a ter uma querela constitucional, que creio inevitável para a direita, o Presidente só tem duas cartas parajogar. Deixar andar, mesmo que uma revisão drástica, ou ir para uma dissolução parlamentar” LEIA A ENTREVISTA COMPL ETA EM WWW.DN.P FREDERICO BÁRTOLO