EVIDÊNCIA CIENTÍFICA CONTRIBUI PARA SUSTENTABILIDADE EM SAÚDE
2026-05-09 21:09:19

Investigação Falar em sustentabilidade em saúde é também contar com os contributos da investigação científica para melhorar respostas e dar mais qualidade aos cuidados. Na Universidade e no Politécnico de Coimbra vêm de praticamente todas as faculdades e unidades orgânicas exemplos de estudos que se transformam em evidência científica fundamental para ajudar os decisores políticos a decidir em prol de uma melhor saúde para os cidadãos. O que se segue são apenas alguns dos muitos exemplos... Onde morremos, onde queremos morrer os cuidados de saúde em fim de vida Pode o local onde morremos ajudar a definir cuidados de saúde de qualidade em fim de vida? A resposta é sim. Se tivermos em conta que, entre 2015 e 2021, mais de 13% das pessoas morreram em Portugal num serviço de Urgência e que, pelo contrário, a esmagadora maioria das pessoas, quando interrogadas, não colocam, sequer como opção, um hospital como local de morte Estes são alguns dos dados mais relevantes do EOLinPlace, uma investigação liderada por Bárbara Gomes, investigadora coordenadora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e do Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia (CiBB), que analisou dados relativos a locais de morte em 35 países, acreditando que «a iden-tificação destes dados pode ajudar na implementação de políticas de saúde que melhorem a prestação de cuidados de saúde em fim de vida». «Este trabalho tem muito a ver com a nossa capacidade de planear serviços, adaptar recursos de forma sustentável nos diversos sítios onde as pessoas preferem estar na altura da sua morte», explica a coordenadora que, através da revisão de literatura, análise de estatística, verificação de dados relativos à mortalidade e entrevistas a familiares de adultos e crianças com doenças progressivas e degenerativas, conseguiu criar «bastantes evidências» sobre as preferências das pessoas em relação ao local onde morrem. «Beber exemplos» de outros países sobre políticas e modelos de cuidados de saúde em fim de vida foi um dos objetivos deste trabalho que, em relação ao local de morte, concluiu que, em muitos casos, é ainda «rudimentar» a forma como é regis-tado o local de morte nos certificados de óbito. Curiosamente, apesar de todos terem o hospital como local de morte, só em Portugal é possível registar mortes no serviço de urgência (EUA e África do Sul juntam-lhe a área de ambulatório), o que mostra o «pioneirismo» português, mas também que «os serviços de urgência não são apenas locais para tratamento de situações agudas, mas locais onde as pessoas, de todas as idades, passam as últimas horas de vida, muitas vezes com necessidades de cuidados paliativos, sejam eles físicas, psicológicas, sociais e/ou espirituais». E esta é uma tendência em crescimento, se tivermos em conta que em 2015 a percentagem de mortes na Urgência era de 10,6% e em 2021 de 14,3%. Mais. De acordo com esta investigação, nesta janela temporal de seis anos, 15,7% dos que morreram nas Urgências em Portugal eram pessoas com demência. «Uma percentagem mais elevada do que a registada nas pessoas que morreram com cancro», continua. Números que surpreenderam a equipa responsável pela investigação. Até porque, como sublinha Bárbara Gomes, vai totalmente no sentido contrário àquelas que são as preferências das pessoas, quando questionadas sobre o local onde querem morrer. «Nunca vi ninguém dizer que prefere morrer no serviço de urgência porque, de facto, não é o ambiente», diz, sublinhando que, ter “estas pessoas” num serviço de urgência «é um sinal de que não têm outro tipo de apoio ou que não sentem confiança no apoio que estão a ter no domicílio». E domicílio, neste caso, pode ser a habitação ou uma resposta social, sublinha a investigadora, adiantando que isso é o que sugere a percentagem de pessoas com demência que morrem nas Urgências. Tudo dados que permitem aos decisores políticos encontrar melhores respostas, mais adequadas às necessidades destas pessoas e, no fundo, às suas preferências, nomeadamente ao nível de cuidados paliativos. «Na questão da sustentabilidade, temos sempre de ponderar, não só a sustentabilidade financeira, não só o olhar para os custos, mas para a eficácia e colocar na balança o custo/benefício e pensar em soluções domiciliárias em fim de vida», avança a investigadora, adiantando que só deste modo será possível «alinhar a sustentabilidade com a centralidade no doente». «Se modificarmos as tendências atuais em Portugal, que é a crescente morte hospitalar, e proporcionarmos mais soluções domiciliárias, estamos a alinhar com a vontade dos doentes mas também a procurar soluções que podem ser mais sustentáveis para o sistema de saúde», remata. Tratamento para depressão na gravidez e pós-parto com impacto na saúde da mãe e do bebé Um estudo no Reino Unido, em 2014, mostrou que os custos com a saúde mental da mulher, grávida ou em período pós-parto, a médio e longo prazo, rondam os nove milhões de euros, dos quais 80% representam custos associados ao desenvolvimento do bebé, relacionados com o aumento das consultas, problemas físicos e de desenvolvimento, mas também a nível mental, problemas de adaptação ao contexto académico e, portanto, com impacto no desenvolvimento cognitivo da criança. Só estas conclusões justificam um outro olhar, mais atento, para as doenças mentais da grávida e no pós-parto, em particular a depressão. Foi, aliás, no Reino Unido que foi testado e «com muito bons resultados», um tratamento para a depressão na gravidez e no pós-parto, usando a estimulação elétrica transcraniana de baixa densidade que, num trabalho da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, através do seu Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC) se pretende vir a implementar em Portugal. «Está a ser testada a sua imple- mentação no Sistema Nacional de Saúde Português, depois de testada a sua eficácia noutros países», resume Ana Ganho Ávila, investigadora do CINEICC, falando de um tratamento não invasivo e sem recurso a medicamentos, que combina a estimulação elétrica transcraniana de base cogntivocomportamental, suportada por uma aplicação móvel, e que «permite modular a atividade neuronal, tornando determinadas áreas do cérebro mais ou menos excitáveis». Este tratamento está a ser disponibilizado, pela primeira vez, na Maternidade Bissaya Barreto, a 40 grávidas ou mulheres em período pós-parto, «com sintomatologia depressiva clinicamente significativa», daí que tenha de ser prescrito pelo médico assistente. «É um tratamento para a depressão, portanto tem de haver um diagnóstico», reforça a investigadora da FPCEUC, adiantando que este tratamento está a ser implementado como um chamado «trata- mento de primeira linha», ou seja, para mulheres que apresentem «uma sintomatologia leve a moderada». Este tratamento, como explica a in- vestigadora, vem responder ao receio demonstrado por muitas mulheres, já acompanhadas por psicólogos ou psiquiatras, de tomarem medicação durante a gravidez ou a amamentação. «Pode, portanto, ser uma alternativa não medicamentosa», reforça Ana Ganho Ávila, adiantando, no entanto, que caso o médico assim o entenda, permite a combinação com medica- ção. O tratamento, cuja implementa- ção em Portugal está a ser testada, tem a duração de 10 semanas, em que, nas primeiras três, a mulher realiza uma sessão de tratamento por dia (cinco ao todo) e nas sete seguintes reduzirá para três sessões. As sessões têm sempre uma duração de 30 minutos de estimulação cerebral, associada a um conjunto de exercícios oferecidos pela aplicação «e integrados numa intervenção psicológico-comportamental breve», explica. Uma das grandes vantagens deste tratamento, além de ser não invasivo e poder substituir os medicamentos, é que é feito em casa e é de utilização muito simples. «A nossa experiência é a de que facilmente esta geração de novas grávidas e mães estão preparadas para usar a tecnologia no seu tratamento e na sua saúde», diz a investigadora, apontando ainda para o facto de se tratar de um tratamento de baixo custo, o que significa pouco impacto no SNS. «Na verdade, custo é não tratar», diz Ana Ganho Ávila, recordando que «a saúde mental tem custos muitos elevados, não só para a mulher, mas também para o bebé», como, aliás, comprova o estudo reali- zado no Reino Unido referido no início deste texto. «Uma mãe deprimida está menos disponível para acompanhar o bebé durante os primeiros meses e, muitas vezes, esta sintomatologia torna-se crónica, exatamente porque não é devidamente tratada», garante. A expectativa é que aconteça em Portugal o que aconteceu no Reino Unido, e que haja «uma muito boa aceitabilidade». A investigadora sublinha que, num passado recente, já tinha sido feito um estudo, também em Coimbra, com as duas maternidades e alguns centros de saúde, «com muito bons resultados» das mulheres e profissionais de saúde. SafeCaring: Inteligência artificial auxilia profissionais a cuidar dos doentes Sabia que cerca de 30% do tempo do turno de um enfermeiro é gasto a fazer registos do doente no sistema? Dentro de poucos meses, os profissionais de saúde podem ter uma ajuda preciosa que vai permitir a introdução dos dados, com a ajuda da inteligência artificial, num projeto que, para além de reduzir o tempo despendido em registos, se propõe também a reduzir e prevenir quedas, úlceras de pressão e desidratação. No final, espera-se uma melhoria na qualidade dos cuidados prestados aos doentes. O SafeCaring , assim se chama a solução , está a ser desenvolvido pela empresa que lhe dá o nome, com a colaboração da UC , através das faculdades de Direito e de Economia -, IPN, Pharmilab e o Hospital da Misericórdia da Mealhada, onde o projeto começará a ser testado, em princípio, em setembro, nomea-damente na Unidade de Cuidados Continuados. «A tecnologia é muito simples: basicamente, é uma solução baseada em inteligência artificial que passa pela utilização de uma câmara que deteta os movimentos que ocorrem num determinado espaço e percebe ou tenta perceber que tipo de intervenção é que o enfermeiro fez», salienta Vítor Ra- poso, investigador responsável, explicando o que está por trás do projeto. «Nós temos um problema, que é o envelhecimento da população. Os dados internacionais e as projeções do INE apontam para isso. Um outro pro-blema vai ser a falta de recursos humanos na área da saúde, nomeada- mente na componente da enferma- gem», destaca o docente da FEUC, referindo que, com recurso ao SafeCaring, é possível «automatizar» o processo, permitindo que as informações acerca dos doentes vão diretamente para o sistema, podendo emitir alertas. Como salienta Vítor Raposo, «significa que a informação, relativamente ao doente, está atualizada praticamente em tempo real e isso traz ganhos significativos para todos os cuidados que são prestados». A decorrer até 2027 com financiamento do programa Centro 2030, o projeto encontra na FEUC a entidade que vai avaliar o impacto económico e social da solução e, salienta o docente, avaliar a aceitação da tecnologia. «A Faculdade de Direito lida com todas as questões jurídicas, nomeadamente as questões relacionadas com ética, privacidade, etc.», sob coordenação da docente Carla Barbosa. Vítor Raposo dá conta de «uma série de desafios», numa altura em que estão a ser instaladas as câmaras na Unidade de Cuidados Continuados, com o início de alguns testes, até no sentido de estabilizar a tecnologia «neste ambiente mais controlado». É que «basta, por exemplo, variar um objeto, uma caneca, que é uma coisa tão simples... o algoritmo tem que ser treinado para identificar que aquele objeto é uma caneca. E porquê? Vamos supor que no contexto em que estamos a trabalhar, a caneca é exatamente a mesma, mas, depois, vamos para um contexto que é mais pequeno, pode ter uma cor diferente ou pode ser de outro material. Portanto, o algoritmo tem que ser treinado para identificar», explica, deixando claro que «não há circulação de imagens para fora do espaço». «O que o algoritmo faz é identificar. A única coisa que sai é a comunicação para o servidor onde está o sistema do hospital, indicando o tipo de intervenção que foi detetada», resume, a propósito das questões de privacidade e confidencialidade, sem dúvidas de que «esta tecnologia vai tem impacto enorme» e que vai «introduzir ganhos», contribuindo para a sustentabilidade da saúde. O investimento total é de 919.640 euros e o apoio financeiro da União Europeia é de 738.888 euros. Valor terapêutico dos medicamentos influencia o investimento do Estado? Num contexto em que os sistemas de saúde enfrentam crescentes pressões financeiras, garantir o acesso a terapias inovadoras sem comprometer a sustentabilidade tornou-se um principais desafios das políticas da saúde. É precisamente neste equilíbrio delicado que se centra um projeto de doutoramento de Catarina Ribeiro, aluna da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, suportado por uma bolsa de doutoramento da Fundação para as Ciências e Tecnologia e orientada por Carlos Alves e Diogo Mendes. O principal objetivo deste projeto de investigação é avaliar a relação entre a magnitude do valor terapêutico acrescentado, ou seja, a superioridade de um medicamento face à melhor alternativa existente, demonstrando maior eficácia, segurança ou conveniência» e os rácios incrementais custo-efetividade (métrica usada em economia da saúde para calcular o custo adicional por unidade de benefício clínico de uma nova intervenção em comparação com a alternativa atual) dos medicamentos financiados em Portugal, com vista a caracterizar padrões e a reprodutibilidade das decisões nacionais de financiamento. «Queremos perceber se à medida que o valor terapêutico do medicamento aumenta, também aumenta o rácio incremental de custo-efetividade e se isso, de alguma maneira, traduz a disponibilidade para pagar do Serviço Nacional de Saúde pela tecnologia», diz Carlos Alves, um dos orientadores da tese, clarificando que o objetivo é perceber se «quando o medicamento está associado a mais valor, o Estado terá uma maior disponibilidade para pagar e se o medicamento estiver associado a um valor terapêutico mais limitado, a disponibilidade para pagar também diminui». Para além disso, a tese propõe-se a estudar «outras variáveis como, por exemplo, o impacto orçamental», ou seja, analisar o quanto vai custar a adoção daquele medicamento em específico e o seu impacto no orçamento em saúde e de que forma vai ser traduzido em valor monetário, com a particularidade de se propor a fazê-lo «comparativamente a outras realidades que têm um procedimento semelhante» ao português. Este estudo deparou-se, sublinha Carlos Alves, «com uma limitação», que é o facto de Portugal não publicar «os resultados dos estudos de avaliação económica que suportam as avaliações dos medicamentos para efeitos de financiamento», o que levou a equipa a «estudar essa avaliação em função do preço». «Ou seja, se à medida que o valor terapêutico dos medicamentos aumenta, a diferença de preço entre o medicamento e o comparador - o que já existe no mercado - também pode aumentar ou não», esclarece o professor da FFUC, adiantando que, neste momento estão a ser «rastreadas publicações científicas, por forma a determinar se existem estudos de avaliação económica que tenham publicados rácios incrementais custo-efetividade, para ser possível relacionar os seus resultados com os relatórios de financiamento do Infarmed que já estão publicados». «Basicamente, este trabalho vai permitir compreender, em primeiro lugar se a disponibilidade para pagar do Estado em medicamentos está relacionada com o valor terapêutico que é atribuído aos mesmos no momento em que são avaliados», ajudando na programação ou antecipação por parte do Infamed «sobre as conclusões de valor terapêutico» «Traz-nos alguma previsão do ponto de vista da adoção de novas tecnologias de saúde, designadamente dos medicamentos para o SNS», confirma o orientador da tese, acrescentando que esta virá também permitir o estabelecimento de um paralelismo com outras realidades e perceber se Portugal acompanha aquilo que é feito em outros países no que respeita a investimento em medicamentos. Este estudo, ao gerar informação, pode ajudar os próprios hospitais em termos da aquisição de tecnologias de saúde e disponibilidade para pagar medicamentos, permitindo-lhes antecipar o futuro em função do resultado da avaliação terapêutica. RHYTHM: travar excesso de exames radiológicos em crianças e jovens A evidência mostra que há, no espaço europeu, «uma quantidade enorme de exames radiológicos que não estão justificados», ou seja, que «não deveriam ser feitos». Para se ter uma pequena ideia, a situação é de tal ordem que «a radiação utilizada para fins médicos já está ao mesmo nível que a chamada radiação natural», sendo o exame que mais contribui para estar a aumentar a exposição à radiação "desnecessária", as famosas TAC - Tomografias Computorizadas. Se este cenário já é preocupante quando pensamos na população adulta, a apreensão torna-se ainda maior quando falamos de crianças e jovens, que são «mais sensíveis à radiação desnecessária». Tal justifica o desenvolvimento do projeto RHYTHM - Radiation, Health, Safety anda Quality for Youth: A Comprehen-sive Approach to Justification, Optimisation and Education, que tem como missão melhorar a qualidade e segurança da imagiologia médica destinada a crianças, adolescentes e jovens adultos submetidos a exames de TC, SPECT/CT, PET/CT e de TC de planeamento para os tratamentos de radioterapia. «Basicamente, o que este projeto pretende é melhorar a qualidade dos exames radiológicos que utilizam radiação ionizante», em particular nos mais jovens, «desde os recémnascidos até aos jovens adultos», explica Graciano Paulo, presidente da Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Politécnico de Coimbra (ESTeSC) e o responsável do projeto, que, com um financiamento de quatro milhões de euros, envolve um total de 20 instituições internacionais, todas focadas na missão de proteger a população contra as radiações ionizantes. «O projeto tenta resolver este problema através de uma abordagem interdisciplinar, com o envolvimento de vários stakeholders, desde a indústria, os organismos reguladores, os profissionais de saúde, os representantes dos doentes, no sentido de desenvolver as chamadas “guidelines”, orien-tações de apoio à decisão clínica, para que quem prescreve o exame tenha esta consciência da necessidade de prescrever de forma justificada», explica. Depois, sendo o exame justificado, é preciso «que ele seja feito à menor radiação possível, no sentido de permitir chegar a um diagnóstico», confirma o líder da equipa da ESTeSC que é também composta pelos docentes Joana Santos, João Casalta e Mário Monteiro, adiantando que está também a ser avançada a possibilidade de ser criado «um repositório europeu de imagens, com informação sobre a dose a prescrever, no sentido de ser possível harmonizar e criar padrões de protocolo em função de indicação clínica». Como explica Graciano Paulo, o objetivo é que, quando for necessário sujeitar uma criança ou jovem a um exame como uma tomografia computorizada, com base em indicação clínica, se saiba à partida como é possível ter um resultado diagnóstico com a menor dose possível. A missão da ESTeSC neste projeto, que inclui oito grupos de trabalho com objetivos distintos, é desenhar um programa de formação em proteção contra radiações para esta população específica, ou seja, na pediatria e em jovens adultos, desenvolvendo também material para melhorar a prática clínica. «Este projeto vai decorrer durante 48 meses e tudo o que tem sido feito nesta área, na última década, aponta para o facto de a formação, a chamada Education and Training, ser o calcanhar de Aquiles de todo este processo», confirma o presidente da ESTeSC, considerando fundamental a formação dos profissionais, com a criação de workshops desenvolvidos pela indústria, por peritos clínicos e também por peritos e representantes dos doentes. Aliás, um dos objetivos é a criação de material «para que sejam desenvolvidas competências no âmbito da comunicação com os doentes». E aqui, particularmente importante, é «a explicação do benefício e do risco». De tal maneira que, diz Graciano Paulo, «a Europa tem uma diretiva comunitária especificamente sobre a questão da radiação e do consentimento informado», consciente de que «a questão da comunicação do risco ou do benefício ao doente é algo que tem que ser muito melhorado», em particular quando falamos de crianças e jovens, o que obrigada ao envolvimento dos pais e da família. Em termos de sustentabilidade do sistema, o projeto tem vários níveis. «A tecnologia em saúde é hoje uma das áreas que mais contribui para a despesa em saúde. Garantir de utilização racional desta tecnologia é fundamental para a sustentabilidade», considera, sublinhando que «usar mais radiação, fazer mais exames, significa consumir mais equipamento, desgastando-o, e tornando a sua degradação mais rápida». Portanto, «a adequação do equipamento àquilo que realmente importa, àquilo que é realmente necessário, é fundamental», diz.O impacto na população e no ambiente deste tipo de radiação é outro dos pontos referidos pelo responsável, considerando que é obrigação dos especialistas expor o doente à menor radiação possível para fins médicos. Farmácias são parte da solução no controlo da hipertensão arterial Em Portugal há uma prevalência estimada de hipertensão arterial de cerca de 42%. Significa que quase metade da população portuguesa adulta tem hipertensão arterial. Um cenário que se torna ainda mais preocupante se pensarmos que das pessoas com hipertensão arterial, um terço não sabe sequer que a tem e, dos que sabem, um terço está medicado e não tratado e só o outro terço está efetivamente medicado e controlado. Está reconhecido que a hipertensão arterial é dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares e que, em Portugal, um desafio particularmente relevante são os AVC , que têm precisamente na hipertensão arterial o seu principal risco. É neste cenário que nasce o projeto europeu TOGETHER, no qual está envolvida a ESTeSC, «um modelo diferente que procura melhorar o controle da pressão arterial e reduzir o risco cardiovascular, assente na colaboração estruturada entre farmácias comunitárias e unidades de saúde familiar», explica Telmo Pereira, docente da ESTeSC e líder da equipa envolvida no projeto. Trata-se de «uma ideia simples» para «aproximar os cuidados de saúde das pessoas, utilizando uma farmácia, integrada na comunidade, como ponto de monitorização e educação, em articulação direta com os cuidados primários». Tudo num duplo desafio: detetar novos casos de hipertensão (os que têm hipertensão sem o saber) e os que, estando medicados, não a têm controlada. «O facto de não estarem controladas, coloca os utentes sob alto risco de eventos, como AVC», garante. A realidade mais do que justifica pensar em novas abordagens. De acordo com Telmo Pereira, «uma das principais causas para a falta de controlo é a má adesão à terapêutica». Ou seja, apesar de os médicos prescreverem medicação, o facto de se tratar de uma doença silenciosa, faz com que as pessoas «não sintam um impulso natural para fazer a medicação de acordo com a prescrição», fazendo com que a pressão arterial não esteja particularmente controlada. Depois, há o facto de o SNS, e em particular as unidades de saúde familiar, estarem «sob uma enorme pressão do ponto de vista assistencial». «Termos alternativas complementares para atacar este desafio será algo bastante importante e relevante do ponto de vista de saúde pública», considera o docente da ESTeSC, acreditando que o TOGETHER pode dar o seu contributo para o «descongestionamento da pressão sobre os cuidados primários». O facto de as farmácias comunitárias já terem uma proximidade muito grande com a co-munidade e de as pessoas identificarem “a sua” farmácia é aproveitado neste projeto para garantir a confiança no processo pelos cidadãos. De tal maneira que Telmo Pereira acredita que, a correr bem, o modelo poderá ser estendido a outras situações. Outra das vertentes inovadoras deste projeto é a introdução do conceito de idade vascular. «O tipo de linguagem utilizado para dialogar com o doente no sentido de ele compreender conceitos como o risco cardiovascular é de compreensão difícil», confirma, constatando que «o doente, confrontado com dois valores, tem muitas vezes dificuldade em entender exatamente o que significam». É nesse contexto que se está a criar o conceito de idade vascular. «No fundo, é a forma de expressarmos o estado das nossas artérias, o sistema cardiocirculatório, em comparação com aquilo que é a idade cronológica», diz. A ideia é confrontar o cidadão com a sua idade cronológica e com a sua idade biológica. «Podemos ter uma pessoa com 50 anos cronológicos e a sua idade vascular corresponder a 65 anos, o que indica maior risco cardiovascular», descreve. «Isto confronta a pessoa com a noção de que, do ponto de vista biológico, está mais envelhecida do que deveria» e permite uma «mais fácil leitura do que os dois valores quando medimos a tensão arterial», diz, falando num «conceito intuitivo» que pode ultrapassar «o risco abstrato que muitas vezes se tenta traduzir para o doente, sem sucesso», convertendo-o «numa forma de linguagem mais compreensível» e, de alguma forma, motivando o cidadão para a mudança de comportamento. A ideia é que o cidadão tenha «um papel mais relevante na gestão do seu problema de saúde que, para além da medicação, depende também da sua adesão a essa mesma medicação e de questões comportamentais que são muito importantes para controlar a pressão arterial, como o peso, a atividade física, a redução da ingestão de sal e a adesão a todas as recomendações do médicos», diz Telmo Pereira, não tendo dúvidas de que essa adesão será tanto maior quanto está mais consciente do risco que corre. O projeto TOGETHER, que envolve, em Portugal, cerca de 120 pessoas, teve o seu início em abril de 2024 e conta com quatro farmácias de Coimbra, num estudo através do qual se pretende validar o modelo, baseado numa abordagem de controle da pressão arterial inovadora. «Pretende-se demonstrar que, com a implementação composta ainda por António Carvalho Santos, Cândida Malça e Francisco Ganhão. Criado o protótipo deste equipamento, a equipa considerou que seria possível acrescentar-lhe funcionalidades, nomeadamente através da realização de moldes em 3D, que podem ser usados na área da reabilitação auditiva, para o fabrico de aparelhos auditivos, de protetores à prova de água ou protetores de ruído, mas também, na área do espetáculo, com os conhecidos “inears”, que são auscultadores colocados dentro do canal auditivo externo e que servem para ouvir o som de retorno de regie. «Estamos a falar de dispositivos que são feitos à medida, respeitando a anatomia do ouvido externo de cada pessoa, para os quais é necessário um molde», explicam as investigadoras. Neste momento, esse molde é feito através da injeção de silicone no canal auditivo externo, «o que acarreta riscos» para a pessoa, para além de ter um forte impacto do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, uma vez que «esse molde é enviado às fábricas de aparelhos auditivos que ficam, nomeadamente, em Espanha ou na Dinamarca, através de transportadoras com todos os efeitos que isso representa destas medidas, conseguimos contribuir para melhorar a pressão arterial na comunidade», diz o professor da ESTeSC. A ideia é que cerca de três a seis meses depois da primeira avaliação, a pessoa possa ser reavaliada «para perceber se efetivamente melhorou». O facto de ser uma abordagem baseada em equipa, envolvendo as farmácias comunitárias, que estão próximas dos cidadãos e a introdução do novo conceito de idade vascular são apontados pelo responsável como aspetos importantes do impacto do projeto na sustentabilidade do sistema de saúde. Junta-se «uma abordagem centrada no doente, que traz ganhos potenciais do ponto de vista da eficácia clínica e também da prevenção», continua Telmo Pereira, que tem a expectativa que em 2027 este projeto se possa estar a «espalhar pelo resto do país». Vídeo otoscópio a custo acessível “amigo do ambiente” e com impacto na saúde auditiva O vídeo otoscópio é um instrumento médico avançado, que combina uma microcâmera de alta definição com uma fonte de luz, permitindo a visualização ampliada e detalhada do canal auditivo externo e da membrana timpânica. Os seus benefícios para despiste de doenças auditivas são inegáveis, mas estamos a falar de instrumentos que permitem realizar apenas uma vídeo otoscopia.com base nesta realidade, uma equipa do Instituto de Investigação Aplicada do Politécnico de Coimbra, com elementos ligados ao Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC) e da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra (ESTeSC) propôs-se a introduzir no mercado um vídeo otoscópio com scanner integrado, não só a um custo acessível, mas também com a possibilidade de fazer, em tempo real, a monitorização de patologias ao nível do ouvido externo e do tímpano. «No fundo, o que pretendíamos, numa primeira fase, era que tivesse a função de vídeo otoscópio e simultaneamente conseguisse ter uma medição real das estruturas do ouvido externo que permitissem, após alguns meses, realizar uma nova avaliação e verificar o progresso dessas patologias», explicam Carla Moura e Carla Silva, dois dos elementos da equipa, para o ambiente», explicam. O equipamento desenvolvido pela equipa do IPC dispensaria esse transporte, uma vez que com este vídeo otoscópio é possível «uma captação de imagem em 3D» do interior do ouvido que seria enviada, via email, para a fábrica de aparelhos auditivos. «Com esta metodologia conseguiríamos obter automaticamente o modelo digital», resumem as investigadoras, falando numa «redução considerável da cadeia de produto». «Estudos recentes indicam uma relação entre a perda auditiva e o declínio cognitivo, porque a perda auditiva leva à falta de comunicação, ao isolamento, à depressão», constataram, considerando que este dispositivo, que «otimiza processos e reduz custos», poderá facilitar o acesso da população a um processo de reabilitação auditiva mais precoce, evitando «situações mais graves do ponto de vista da saúde mental dos utentes». Neste momento, e depois de criado o protótipo, que passou por um estudo piloto com «alguns feedbacks positivos», o projeto está em fase de otimização de design com base nesses mesmos resultados, sendo vontade da equipa vir a incluir-lhe inteligência artificial de modo a que, por exemplo, possa ser utilizado como simulador académico. Este dispositivo seria também uma «ajuda à tomada de decisão», nomeadamente nos cuidados de saúde primários. Perante uma dúvida de um médico de família, o dispositivo «dará uma indicação mais precisa» se o doente necessita ou não de ser encaminhado para uma consulta da especialidade, ajudando-o a fazê-lo apenas com aqueles doentes «que realmente precisam», o que evita que haja uma sobrecarga de consultas em hospitais centrais, muitas vezes desnecessárias. Sustentabilidade e a prevenção de doenças infecciosas tem levado projeto das Escola de Enfermagem ao mundo Depois da pandemia de Covid-19 e num mundo em que a resistência a antimicrobianos tem desafiado a saúde global, a Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra tem trabalhado e desenvolvido projetos, a nível europeu e global, onde a sustentabilidade e novas práti-cas de saúde tomam um papel fundamental na prevenção de doenças infecciosas e onde têm sido aliados de um novo caminho na sensibilização dos estudantes e profissionais de saúde para as questões ambientais. «A pessoa vive num ambiente e portanto o mesmo tem um papel fundamental para o bem-estar das pessoas e para a saúde das mesmas e interfere na ocorrência de doenças ou pode influenciar o bem-estar das pessoas», explicou Anabela Salgueiro, professora e coordenadora do 1.º ano do curso de Enfermagem, dando conta da importância que hoje a sustentabilidade tem, não só na gestão de recursos na saúde e na prevenção de doenças, como também no bem-estar das comunidades. Por isso, a sustentabilidade, como um tema mais abran- gente, tem hoje um «papel fundamental» na equação dos cuidados de saúde, na gestão de recursos das unidades hospitalares e na necessidade de ponderar este fator quando se avalia a saúde de uma comunidade.com uma componente multidisciplinar, esta temática faz parte de todo o percurso académico de um aluno de en-fermagem, sensibilizando, para uma «gestão de recursos mais cuidado». «A nossa instituição tem feito um trabalho, abordando esta temática de forma mais global e incisiva no primeiro ano e depois vai sendo, ao longo dos quatro anos, reforçada em cada unidade específica», adiantou a professora, assegurando que hoje os estudantes estão muito mais «sensibilizados para a questão da sustentabilidade», desde logo, no ensino secundário. Ao longo do percurso académico, aos estudantes é incutido um ensino contínuo para a sustentabilidade ambiental, que em contextos hospitalares, se cruza com a sustentabilidade económica, como explicou a coordenadora. «Ao se perceber que a sustentabilidade tem uma importância fulcral» os estudantes são sensibilizados, por exemplo, para «a quantidade de resíduos produzidos numa unidade de saúde e que podem ter impacto no ambiente». Fazer uma separação correta dos materiais diminui, assim, uma «utili- zação inadequada do material», evitando assim a sua condução para a incineração, por exemplo, «que tem custos mais elevados relacionados». Contudo, as preocupações nesta temática não se fecham na Escola de Enfermagem, uma vez que a instituição tem sido, desde a pandemia, coordenadora de projetos financiados com fundos europeus para a sensibilização, desenvolvimento de “guidelines” e métodos de ensino que possam capacitar estudantes de outros pontos do mundo. Por um lado, o "Previnf" é um projeto que pretende melhorar o conteúdo educativo e os métodos de ensino em enfermagem em países da América Latina. «Fazemos cenários de simulação que implicam o envolvimento de pessoas que validam os mesmos, que ajustam ao contexto, ou seja, não vale a pena nós querermos implementar algo que pode fazer muito sentido num contexto europeu, mas que depois num contexto de África tem que ser adaptado à realidade deles», explicou a professora. Nestes projetos, o envolvimento dos estudantes é uma preocupação e a ideia é captar cada vez mais países no debate e na sensibilização para a sustentabilidade ambiental, económica e na saúde. Equipa do projeto EOLinPlace que estuda o local onde as pessoas morrem. Em Portugal, mais de 13% morrem nas Urgências Vítor Ramalho é responsável pelo projeto SafeCaring Graciano Paulo lidera, a partir da Escola Superior de Tecnologia da Saúde, o projeto RHYTHM Estudo procura envolver as farmácias comunitárias para o estudo da hipetensão arterial Telmo Pereira lidera o projeto TOGETHER Cuidar da mente para transformar vidas: o impacto da Se-Mente e do programa ALL4DEM Num país que envelhece a um ritmo acelerado, falar de demência deixou de ser uma opção é uma necessidade urgente. Em Coimbra, a Se-Mente surge como uma resposta especializada a este desafoi , focando-se na promoção do bemestar de pessoas com alterações cognitivas e demência e no apoio aos seus cuidadores.com uma abordagem centrada na pessoa, na sua história e nas suas necessidades, a Se-Mente conta com uma equipa multidisciplinar que une psicólogos, neuropsicólogos, terapeutas (ocupacionais e da fala), gerontólogos, técnicos de desporto e outros especialistas. ALL4DEM: inovação terapêutica gratuita Uma das respostas da Se-Mente é o programa ALL4DEM, uma iniciativa que se destaca pela inovação e alcance comunitário. Resultado de uma parceria entre a Se-Mente, a Universidade de Coimbra e a Pedrinhas, e fni anciado pelo Portugal Inovação Social, o ALL4DEM é um programa terapêutico dirigido a pessoas com declínio cognitivo ligeiro ou demência em fase inicial, residentes em Coimbra e Lousã. Os participantes podem benefci iar de um acompanhamento gratuito ao longo de seis meses que inclui avaliação diagnóstica, planos de intervenção personalizados e sessões regulares de estimulação cognitiva, motora e ocupacional. Para garantir a acessibilidade, as sessões podem ser realizadas na Se-Mente, em entidades parceiras ou até no domicílio do participante. Um projeto inovador que integra saúde e comunidade Num contexto em que sintomas como perda de memória recente, difci uldades de orientação ou alterações na linguagem podem ser sinais de doença neurodegenerativa, a identifci ação atempada e o encaminhamento adequado tornam-se essenciais. “Quando falamos de alterações cognitivas ou demência, sabemos hoje que agir cedo faz toda a diferença, permitindo que as pessoas preservem a sua autonomia e mantenham o seu projeto de vida durante mais tempo. Mas também sabemos que os resultados podem melhorar com uma articulação entre a rede de cuidados de saúde e a comunidade”, sublinha Ana Rita Silva, neuropsicóloga, docente na Faculdade de Psicologia e responsável pela avaliação do impacto do projeto. Nesse sentido, o ALL4DEM diferencia-se pela sua ligação à rede de cuidados de saúde. O programa prevê a referenciação de participantes por profsi sionais de saúde como médicos de medicina geral e familiar, neurologistas ou psiquiatras , promovendo-se uma comunicação contínua ao longo do acompanhamento e a participação na avaliação da evolução clínica dos mesmos, reforçando a continuidade de cuidados e a tomada de decisão informada. Sensibilizar, informar e humanizar A par da intervenção clínica, a Se-Mente aposta também na sensibilização da comunidade, promovendo uma maior literacia e combatendo o estigma associado à demência através de ações em escolas, instituições e eventos públicos. “Falar de demência com crianças, por exemplo, é abrir espaço para relações mais conscientes entre gerações. A demência não afeta apenas quem tem o diagnóstico é um desafio coletivo”, destaca Raquel Redondo, diretora da Se-Mente. Num cenário em que o número de pessoas com demência deverá aumentar signifci ativamente nas próximas décadas, iniciativas como a Se-Mente e o ALL4DEM assumem um papel cada vez mais relevante. “Queremos contribuir para uma sociedade mais preparada para lidar com alguns desafoi s associados ao envelhecimento. Isso passa por intervir, mas também por articular, prevenir e humanizar o cuidado”, conclui Raquel Redondo. Implementação de tratamento inovador para depressão na gravidez e pós-parto avaliada na UC Estudo avalia se o valor terapêutico dos medicamentos interfere com o investimento do Estado