RATOS NADADORES? PRESIDENTE DAS CANÁRIAS RECORREU À IA PARA TENTAR TRAVAR DESEMBARQUE DE NAVIO
2026-05-10 21:05:30

O presidente do Governo das Canárias fez de tudo para tentar impedir a operação. Mas sem sucesso. E acusa Pedro Sánchez de “deslealdade institucional” As autoridades de Cabo Verde não foram as únicas a querer impedir o desembarque do cruzeiro “MV Hondius”. O presidente do Governo das Canárias, Fernando Clavijo, queria travar também o desembarque do navio atingido pelo surto de hantavírus, no arquipélago. E mostrou desde logo a sua indignação com o aval dado pelo Governo central para a escala do navio em Tenerife, solicitando na quarta-feira uma “reunião urgente” com Pedro Sánchez. O que não se sabia é que o governante fez de tudo para tentar impedir a operação. E recorreu até à Inteligência Artificial (IA) para o ajudar na argumentação, conta o jornal "El País". “Estamos preocupados com a possibilidade de um roedor descer durante a noite e colocar em risco a segurança dos canários”, afirmou Fernando Clavijo, durante uma reunião no sábado à tarde com a ministra da Saúde, membros da OMS e outros responsáveis, apontando para a possibilidade de ratos nadadores poderem espalhar o vírus pela ilha. De acordo com o jornal, a ministra espanhola da Saúde, Mónica García, ficou perplexa com os argumentos do presidente do Governo das Canárias, mas tentou tranquilizá-lo, explicando que se o hantavírus se propagasse assim tão facilmente, através de "ratos nadadores", a Ilhas Canárias e outros territórios já teriam o vírus disseminado. "O mesmo acontece com a dengue: mosquitos não viajam; pessoas doentes, sim. Se não fosse assim, num destino turístico como as Ilhas Canárias, com centenas de navios de cruzeiro todos os anos, haveria todos os tipos de doenças vindas de outros continentes”, declarou a ministra da Saúde, ao lado de membros da Organização Mundial de Saúde (OMS). Não convencido, o presidente do Governo das Canárias resolveu então recorrer à IA e fez uma busca rápida para tentar provar que existem roedores que nadam: “Os ratos são excelentes nadadores”, podia ler-se na resposta que foi mostrada à ministra. Nessa altura, a governante teve consciência de que a única maneira de serenar Fernando Clavijo seria através de um relatório elaborado por cientistas e encomendou então o documento, que só ficou concluído já perto da meia-noite. A conclusão é clara: a estirpe de hantavírus que atingiu os turistas do cruzeiro será a andina, a única transmissível entre humanos, sendo habitualmente transmitido através do contacto com excrementos ou secreções de roedores infetados. Além disso, não foi encontrado qualquer vestígio de roedores no cruzeiro. "O reservatório natural do hantavírus andino, o rato-do-arroz-pigmeu-de-cauda-longa-da-patagônia (Oligoryzomys longicaudatus), vive principalmente no Chile e no sul da Argentina, em áreas florestais, fora de portos, e não está presente na Europa. É encontrado principalmente em florestas andinas. Por isso, a sua introdução em populações de roedores europeus e a potencial transmissão de roedores para humanos são impossíveis”, afirmaram os peritos no Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias. Mais: os cientistas explicaram ainda que essa espécie de rato é "noturna", sobe em árvores em zonas rurais e “não é capaz de nadar até à costa”. Ainda assim, o presidente do Governo das Canárias não ficou convencido, opondo-se até ao final à operação, que foi articulada entre o Governo central e a OMS. Na quarta-feira, Fernando Clavijo disse não poder concordar com o desembarque do navio no arquipélago, não havendo dados que possam tranquilizar a população. E acusou o Governo de Espanha de “deslealdade institucional", enquanto a OMS elogiou, por sua vez, a "solidariedade" manifestada por Pedro Sánchez. Liliana Coelho Jornalista [Additional Text]: Equipas de imprensa aguardam para cobrir a chegada do navio MV Hondius na entrada no porto de Granadilla de Abona (sul de Tenerife) Liliana Coelho