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CRÓNICA À 6ª FEIRA , BYD ESTÁ A CRIAR A SUA HISTÓRIA

Motor 24 Online

2026-05-10 21:06:07

BYD ataca nos supercarros O que não falta às marcas europeias é aquilo que as marcas chinesas não têm: história. A história é muito útil, para dar identidade a uma marca, para servir de âncora às mais diversas atividades de marketing e até como fonte de inspiração para novos modelos. A BYD não tem nada disso, mas sabe que precisa. Em mais uma Crónica à 6ª feira do TARGA 67, Francisco Mota mostra como a marca chinesa está a criar a sua história. As marcas chinesas de automóveis não têm história, pelo menos história como a interpretamos na Europa. Aquela história cheia de modelos fantásticos que perduraram na memória. Modelos utilitários que inventaram uma nova maneira de servir milhões de compradores; ou modelos de prestígio que encheram os sonhos de outros tantos durante décadas. O que não falta na Europa é história. E também a história dos personagens que a fizeram no último século, os engenheiros famosos, os designers inspirados, os líderes com mão de ferro e olhar de falcão. Os grandes feitos desportivos, as vitórias, mas também as tragédias. Tudo isso faz parte da história da maioria das marcas europeias e, a um nível mais baixo, também de algumas japonesas. Nada disso é conhecido na Europa acerca das marcas chinesas. E há várias razões para isso. Porque o mercado chinês esteve fechado durante muitas décadas, não se sabendo o que por lá se fazia, porque as exportações não existiam e porque a indústria automóvel chinesa estava efetivamente muito atrasada em relação à europeia. Por tudo isso, falta história ao setor automóvel, a tal história que vai além dos eventuais feitos industriais para consumo interno. A história feita de heróis de aço ou de carne e osso. Há cerca de vinte anos, com a abertura do mercado chinês às marcas europeias e americanas, o mercado chinês começou a mudar. As marcas europeias foram autorizadas a vender na China e venderam imenso, mas com a condição de fabricar na China o que lá vendiam. E com outra condição, a de terem que se estabelecer na China em associação com o Estado. Empresas totalmente privadas estrangeiras não eram admitidas. Os chineses queriam aprender a fazer automóveis, e essa foi uma das vias que consideraram mais rápida para o fazer. No início ainda nos rimos dos primeiros carros feitos na China, quando se faziam cópias de péssima qualidade de alguns modelos apreciados na Europa. Estou a lembrar-me das imitações do Evoque e do Smart, feitas a escalas diferentes e onde apenas o estilo era copiado do original, tudo o resto era de baixíssima qualidade. Mas os tempos foram passando, as marcas europeias foram engordando os seus lucros com as vendas de modelos básicos com grandes margens de lucro, definindo o comprador de automóveis típico chinês, como alguém que gostava de uma berlina com muito espaço no banco de trás, uma boa porção de cromados, uma grelha ostentatória da marca na frente e pouco mais. O motor era uma preocupação menor. O grupo Volkswagen liderou o mercado chinês por muito tempo, vendendo modelos como o Skoda Superb numa versão de maior distância entre-eixos, para obter mais espaço nos lugares de trás e com uma frente e marca Volkswagen. Foi o carro de sonho de muitos compradores durante muito tempo. Só que a segunda geração de engenheiros, designers e todo o tipo de fornecedores formados na China já queria seguir o seu próprio caminho e aproveitou a transferência para os carros elétricos para afirmar um novo tipo de carro chinês. Muito mais desenvolvido, com uma aparência diferente e com desempenhos ao nível dos melhores. A história da BYD, um grupo privado chinês, é bem conhecida, por ser curta. Começou com um PHEV em 2000 e abraçou os NEV pouco depois. Nos anos mais recentes, apostou forte nos BEV e estabeleceu como objetivo ultrapassar a Tesla em termos de produção anual de veículos 100% elétricos. O objetivo foi atingido em dois anos e pode dizer-se que esta “guerra” declarada aos americanos valeu à BYD uma relevância que vários milhões gastos em publicidade nunca teriam atingido. Um golpe de génio. Na China, hoje em dia, a novidade tem prioridade em relação à consolidação. Ou seja, é mais fácil vender um modelo novo de uma marca nova, desde que venha embrulhado em algum tipo de “tecnologia” nova, do que vender modelos de marcas bem estabelecidas no mercado. Chega-se ao ponto de tornar numa nova marca o nome de um modelo que resulte bem nas vendas, fazendo crescer uma nova marca com uma gama completa feita com base nos modelos da marca original. E sucessivamente. Esta estratégia está a funcionar neste preciso momento, mas a BYD, que tem muitos consultores fora da China, já percebeu que é uma estratégia que leva à confusão dos compradores, ao multiplicar as marcas existentes no mercado até ao ponto em que o comprador pode passar a encarar a compra de um automóvel como a compra de um electrodoméstico: comprar o mais recente ou comprar o mais barato. Por isso, a BYD decidiu entrar noutros segmentos de mercado, segmentos onde pode conceber modelos desportivos de alto rendimento, sempre elétricos, mas que possam ficar na memória dos compradores. Além do efeito imediato e das vendas, este tipo de modelos pode tornar-se nos tais ícones de que a BYD está a precisar para solidificar a sua imagem como líder entre os fabricantes de veículos elétricos. No recente Salão Automóvel de Pequim pude assistir à apresentação mundial de um desses modelos. Trata-se do Fang Chen Bao Formula X. Um desportivo de dois lugares, descapotável, com 1014 cv e capaz de acelerar dos 0 aos 100 Km/h em menos de 2 segundos. Em termos de estilo, vê-se uma clara inspiração nos Ferrari V12 de motor dianteiro, nomeadamente no 812 Superfast de 2017, com um resultado final de verdadeiro supercarro. A Fang Chen Bao é a marca de prestígio da BYD, o Formula X tem três motores elétricos, dois atrás e um à frente, no total de 1014 cv. A bateria inclui um sistema de troca de bateria. O tejadilho removível assenta numa estrutura tipo “targa” e as portas são de abertura vertical. O volante tem dois braços verticais, mas não tem uma pega na base. O modelo mostrado no Salão de Pequim é ainda um concept-car, a versão final estará à venda no próximo ano. Francisco Mota Até para a semana Ler também, seguindo o Link: Crónica à 6ª feira , REEV estão a substituir os PHEV [Additional Text]: Francisco Mota Francisco Mota