VOZ À SAÚDE - ENFERMAGEM: PROXIMIDADE, CIÊNCIA E HUMANIZAÇÃO NOS CUIDADOS DE SAÚDE
2026-05-10 21:06:20

Enfermeira Gestora da ULS de Braga Acompanho diariamente o impacto que a inovação tem vindo a ter na prestação de cuidados de saúde enquanto enfermeira gestora da ULS de Braga. A incorporação de novas tecnologias, a digitalização de processos, o desenvolvimento científico e a reorganização dos modelos assistenciais trouxeram ganhos inegáveis em eficiência, segurança e capacidade de resposta. Estes avanços são determinantes para um sistema de saúde moderno e sustentável. Contudo, a experiência no terreno demonstra-nos que a qualidade dos cuidados não se esgota na inovação tecnológica. Apesar de todos os progressos alcançados, há um fator que continua a distinguir verdadeiramente a qualidade dos cuidados que prestamos: a proximidade e a humanização da relação com as pessoas. ê na atenção dedicada ao utente, à família e à comunidade que se constrói, de forma clara e evidente, a perceção da qualidade do serviço prestado. A confiança, a segurança e o sentimento de cuidado genuíno nascem dessa relação próxima e personalizada, que nenhuma tecnologia suhstitui Reconhecendo a tecnologia como um instrumento indispensável à prestação de cuidados, importa reforçar que esta deve estar sempre ao serviço da pessoa. Sistemas inovadores, por si só, não garantem qualidade se não respeitarem a indiv vidualidade, os valores e o contexto de vida de quem cuidamos. A dimensão relacional do cuidar continua a ser essencial para compreender necessidades reais, antecipar riscos e promover respostas ajustadas, seguras e contínuas ao longo do percurso de cuidados ê neste contexto que os enfermeiros se assumem como verdadeiros elos na prestação de cuidados. A pesar de atuarem em contextos exigentes, marcados por fluxos intensos e elevada complexidade organizacional, mantêm-se fiéis à essência da sua prática e continuam presentes à cabeceira do doente. Como gestora de serviço, observo diariamente como os seus gestos, decisões e atitudes têm um impacto profundo e duradouro no percurso de vida das pessoas, traduzindo-se em ganhos reais em saúde e qualidade. A humanização não se opõe à inovação; pelo contrário, deve orientar o seu desenvolvimento e a sua aplicação, garantindo que a modernização reforça (e não fragiliza) a centralidade da pessoa. Os cidadãos reconhecem qualidade não apenas nos resultados clínicos, mas sobretudo na forma como são acolhidos, acompanhados e cuidados ao longo de todo o seu percurso no sistema de saúde. A confiança constrói-se na relação, na disponibilidade das equipas, na coerência das respostas e na perceção de cuidado genuíno. ê neste equilíbrio entre ciência, inovação e proximidade que se afirmam cuidados verdadeiramente de qualidade. Num momento em que se investe, legitimamente, na modernização do sistema de saúde, cabe-nos, enquanto líderes, não perder de vista aquilo que o torna verdadeiramente humano. A inovação deve potenciar o cuidado, libertar tempo para a relação e reforçar, de forma clara, a centralidade da pessoa. Porque, apesar de toda a evolução tecnológica, continuará a ser a proximidade que distingue, humaniza e qualifica os cuidados de saúde. OLGA GONÇALVES