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MENOS URGÊNCIAS OU MENOS ACESSO?

Observador Online

2026-05-10 21:06:20

Quantos dos doentes desviados das urgências tiveram o seu problema efetivamente resolvido em tempo útil? Uma mulher com mastite - uma inflamação mamária que pode evoluir para infeção - recorreu à urgência com dor e necessidade de avaliação clínica. Foi orientada a contactar o SNS 24. Seguiu o circuito definido: triagem telefónica, encaminhamento para cuidados de saúde primários e deslocação presencial a uma unidade de saúde. Quando chegou, não havia capacidade médica para resposta imediata. Não houve prescrição de terapêutica. Foi-lhe garantida vaga para o dia seguinte. Saiu com medidas de conforto - e com o tratamento adiado. Este episódio, aparentemente simples, levanta uma questão que raramente entra no debate público: quando reduzimos o número de idas à urgência, estamos realmente a resolver problemas de saúde ou apenas a mudar o local onde esses problemas ficam por resolver? Nos últimos anos, a reorganização do acesso às urgências tem sido apresentada como sinal de eficiência. A lógica é compreensível: filtrar situações não urgentes, encaminhá-las para respostas mais adequadas e libertar os serviços hospitalares para os casos verdadeiramente críticos. Em teoria, é um modelo racional. Na prática, depende de um pressuposto essencial: a existência de capacidade real de resposta fora da urgência. É precisamente aí que o sistema começa a falhar. Dados divulgados pela SPMS, em 2024, no âmbito do programa “Ligue Antes”, indicam que cerca de 24.500 episódios considerados não urgentes foram desviados das urgências hospitalares. O número foi apresentado como sinal de sucesso. Mas retirar pessoas da urgência não significa, por si só, resolver os seus problemas de saúde. O indicador que falta é outro: quantas dessas pessoas tiveram resposta clínica efetiva, em tempo adequado, depois de serem encaminhadas? No estudo “Linha SNS 24 - O impacto no acesso à prestação de cuidados de saúde”, publicado em 2024, a Entidade Reguladora da Saúde identificou dificuldades relevantes no acesso atempado aos cuidados de saúde primários. Segundo a ERS, uma proporção significativa dos utentes encaminhados pela Linha SNS 24 para os cuidados de saúde primários não obteve consulta no centro de saúde até 72 horas após o contacto. A própria entidade assinala que não foi possível distinguir se isso se deveu à falta de iniciativa dos utentes ou à falta de capacidade dos estabelecimentos. Mas, do ponto de vista do acesso, essa distinção não apaga o problema. Se o doente é triado, encaminhado e não consegue resposta em tempo útil, o circuito falhou. Encaminhar doentes para estruturas sem capacidade não é reorganizar cuidados. É adiar a resposta clínica. O episódio deixa de estar registado como episódio de urgência, mas não deixa de existir. Pode agravar-se, pode gerar nova procura, pode levar o doente a regressar mais tarde em pior estado ou a procurar resposta fora do SNS. E, se não houver monitorização do desfecho clínico, pode desaparecer dos indicadores como se tivesse sido resolvido. Numa situação como a mastite, o tempo não é um detalhe irrelevante. Quando há sinais compatíveis com infeção bacteriana ou agravamento clínico, a avaliação e o tratamento atempados podem evitar a progressão da infeção, reduzir a dor e prevenir complicações, como o abcesso mamário, que pode exigir drenagem cirúrgica ou internamento. Além disso, a dor e a ausência de resposta adequada podem comprometer a continuidade do aleitamento materno, com impacto físico e emocional para a mulher e para o recém-nascido. Reduzir a pressão sobre as urgências é um objetivo legítimo. O problema não está na triagem, nem na intenção de reorganizar fluxos. Está na ausência de articulação entre o ponto de entrada no sistema e a capacidade de resposta subsequente. Um sistema que filtra sem absorver não é mais eficiente. É apenas mais complexo. A eficiência em saúde não pode ser medida apenas pelo número de episódios retirados das urgências. Tem de ser medida pelo que acontece depois: se houve consulta, se houve tratamento, se houve resolução, se houve reencaminhamento adequado, se o doente regressou mais tarde por agravamento ou se ficou simplesmente perdido no percurso. Caso contrário, confundimos gestão de fluxo com melhoria do acesso. A pergunta que deveria acompanhar qualquer medida deste tipo é simples e desconfortável: quantos dos doentes desviados das urgências tiveram o seu problema efetivamente resolvido em tempo útil? Sem essa resposta, corremos o risco de chamar eficiência àquilo que, na prática, pode ser apenas uma falha de acesso. De aceitar como sucesso aquilo que talvez seja apenas uma forma mais silenciosa de atraso no tratamento. De empurrar doentes entre níveis de cuidados sem garantir continuidade. Porque, no fim, a questão não é quantas pessoas deixaram de entrar na urgência. É quantas foram tratadas a tempo - e quantas ficaram pelo caminho, invisíveis nas estatísticas da eficiência. Diana Sousa Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica; Mestrado em Gestão da Saúde - ENSP-NOVA Diana Sousa