EM EXPANSÃO INTERNACIONAL, FIOCRUZ QUER TER PRODUZIR MEDICAMENTOS EM PORTUGAL
2026-05-10 21:06:21

A instituição que é uma das maiores produtoras de vacinas do mundo quer levar tecnologias e inovações ao Brasil, mas também divulgar a experiência brasileira no exterior Sede da Fiocruz no Rio de Janeiro. Instituição quer ampliar as relações com Portugal A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) quer ampliar sua atuação internacional e tem enxergado Portugal como um país estratégico para a expansão de suas atividades não apenas no país como também na Europa e nos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). No final de abril, a instituição anunciou a renovação de sua parceria com a Universidade Nova de Lisboa, que já dura desde 2015, para a elaboração de projetos de saúde pública, investigação científica e formação avançada. O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, esteve na comitiva do presidente Lula que visitou Portugal em 21 de abril e já tem trabalhado para ampliar os projetos com o país europeus, especialmente com a criação do Centro de Inovação em Saúde Global no ano passado, que prevê uma ampla atuação conjunta para o fortalecimento dos sistemas de saúde públicos, atuação em crises, projetos de pesquisa e outras parcerias. Assinatura para a renovação do protocolo entre a Universidade Nova de Lisboa e a Fiocruz que será válida por mais cinco anos. Crédito: Divulgação Para além disso, a Embaixada do Brasil em Portugal ofereceu uma sede para fins diplomáticos para a Fiocruz, que já iniciou conversas para a instalação de uma unidade fabril para a produção de medicamentos e produtos no país lusitano. A ideia é também contar com o apoio do governo português e de financiamentos da União Europeia com o objetivo de ampliar a atuação internacional, mas também de trazer benefícios para o Brasil. LEIA MAIS: Fiocruz e Universidade NOVA de Lisboa renovam termo de cooperação na saúde para mais cinco anos “Queremos buscar tecnologias, recursos e o que há de inovador e relevante na saúde em Portugal. Mas o Brasil também pode contribuir, ensinar e divulgar as suas experiências. Diversas iniciativas brasileiras têm sido muito bem vistas no exterior”, afirma o médico e pesquisador titular da Fiocruz, Fernando Bozza. Bozza possui um forte histórico de trabalho ligado ao combate a doenças infecciosas graves e se tornou um especialista em epidemias, coordenando projetos que se tornaram referências durante a pandemia da covid-19 em populações consideradas vulneráveis, como a favela da Maré e no território indígena do Xingu. Ele ainda coordena a rede International Severe Acute Respiratory and Emerging Infection Consortium (ISARIC), para o combate a epidemias. Pesquisador da Fiocruz há 25 anos, o profissional também é investigador da Universidade Nova de Lisboa na Nova Medical School. Confira abaixo a entrevista exclusiva de Fernando Bozza à EntreRios: Fernando Bozza, pesquisador titular da Fiocruz e investigador da Universidade Nova. Crédito: Reprodução Do que se trata o acordo de cooperação com a Nova e quais seus principais objetivos? A Fiocruz possui parcerias com muitas instituições e vários países. Entre todos os países, Portugal hoje é o principal parceiro e a Universidade Nova de Lisboa é a principal instituição. Mas temos parcerias com a Universidade Lusófona e com instituições em Aveiro, Coimbra, Braga. A Fiocruz é uma instituição do Estado Brasileiro com mais de 126 anos, anterior ao Ministério da Saúde, e é a maior produtora de vacinas do hemisfério Sul com atuação nas áreas de diagnóstico, de produção de medicamentos, especialmente para terapia de retroviral, para o HIV e doenças tropicais. A gente tem interesse de internacionalizar e ampliar a parceria para que a cooperação feita pelo Brasil se dê não apenas em âmbito comercial, mas também de saúde e do desenvolvimento humano. Nesse sentido foi assinado no ano passado o Centro de Inovação em Saúde Global, em uma parceria com a Nova Medical School. Eu já trabalho com pesquisadores da Nova há 16 anos em âmbito acadêmico. Há dois anos e meio, também tenho atuado em programas mais amplos de modo que isso toma um caráter mais institucional, possibilita ir além de projetos de pesquisa e permite criar projetos estruturantes. Um deles é uma cátedra reconhecida pela UNESCO para se pensar no futuro da educação, saúde e do bem-viver. Então, a Nova, a Fiocruz e a Universidade de Paris, por exemplo, se reúnem para pensar em metodologias, estratégias e em soluções escaláveis para o futuro da saúde, o futuro do hospital, da longevidade, do envelhecimento, além de pensar na governança de futuras crises de saúde pública e em questões dos próprios sistemas de saúde. Como você enxerga o potencial do Brasil no âmbito de saúde em nível global? Entre os nossos objetivos não está só a colaboração bilateral Brasil e Portugal, mas também no espaço da Lusofonia e na cooperação com outros países, o que abre uma oportunidade de acesso a recursos internacionais e de financiamentos da União Europeia. Em um contexto geral, com a crise do multilateralismo, o Brasil passa a ter uma relevância internacional maior, então esse é um momento de oportunidade. Muitas vezes, a gente enquanto brasileiro subestima a importância que o Brasil tem internacionalmente. Acabamos achando que tudo no Brasil é ruim e não é, temos muitas experiências incríveis, fantásticas, e que estão sendo motivo de interesse. Por exemplo, o trabalho de agentes comunitários de saúde e saúde de família no Brasil é super relevante e que tem algumas iniciativas sendo reproduzidas pelo sistema de saúde inglês. A Fiocruz tem tido contato com o próprio governo português para colocar alguns desses projetos em prática? Já temos projetos em diferentes estágios, como cooperações com a Fundação da Ciência e da Tecnologia (FCT) para oferecer bolsas e financiar projetos de forma integral, além do desenvolvimento tecnológico de iniciativas, como a produção de medicamentos que são de interesse da África, por exemplo. No sentido inverso, tecnologias desenvolvidas em Portugal também são de interesse para o sistema de saúde brasileiro. Não é só o que a gente ganha, mas como a gente se posiciona, como a nossa experiência é aprendida e ensinada. São as duas coisas: buscar tecnologias, recursos e o que há de inovador e relevante em Portugal, mas também ensinar e divulgar as experiências do Brasil e ampliar isso para outras colaborações. LEIA MAIS: Vai viajar? Saiba como ter acesso a cuidados de saúde gratuitos na Europa Já há algo em estágio mais avançado e com previsão de chegar ao mercado? Temos esses projetos de medicamentos contra a malária e de vacinas são acordos de cooperação para desenvolvimento técnico de produtos. Temos produtos desenvolvidos no Brasil que serão licenciados para a Europa e que podem receber o selo europeu para serem disponibilizados e vendidos aqui, o que favorece o posicionamento em outros mercados. Esse é o lado do caráter comercial, de levar ao mercado europeu os produtos desenvolvidos no Brasil. Estão em processo de licenciamentos. Ainda não há uma previsão porque envolvem processos burocráticos que são lentos. Que outras ações são desenvolvidas em relação aos medicamentos? A outra ação são os acordos de cooperação técnica para trazer tecnologias para o Brasil, como para a área de diagnóstico ou de determinados medicamentos. Hoje a Fiocruz, por exemplo, vem sendo demandada na área de oncologia. Já passamos dos quimioterápicos tradicionais e estamos nos posicionando para produzir medicamentos biológicos ou de terapias avançadas. Mas eles são caros e isso envolve a questão de transferências tecnológicas. Em relação à pesquisa, investigação, capacitação e ensino, temos uma ampla gama de possibilidades e oportunidades em parceria com pesquisadores da Nova. Um deles é o projeto para um doutoramento em saúde global proposto entre a Fiocruz e a Nova que daria um diploma válido no Brasil e em Portugal. Esse projeto está em avaliação pelo Ministério da Saúde português e estamos aguardando essa aprovação. E como está o trabalho em relação ao desenvolvimento de vacinas? O grande desafio tecnológico da Fiocruz é o desenvolvimento de vacinas de RNA, aquelas desenvolvidas para COVID-19. Essa tecnologia é muito poderosa não só para as doenças infecciosas, mas para outras doenças como o câncer. A Fiocruz e o Governo estão fazendo grandes investimentos no desenvolvimento dessa tecnologia. O Brasil quer ser autossuficiente em vacinas de RNA e isso envolve não só a questão do investimento financeiro mas uma aquisição de diferentes tecnologias. Nesse sentido, a Fiocruz vem buscando uma série de parcerias, inclusive em Portugal. Por outro lado, o Brasil já produz algumas vacinas, como contra a febre amarela que praticamente só a Fiocruz produz hoje no mundo e que desperta grande interesse na África. Há vacinas contra arboviroses como dengue, chikungunya, e a Zika que a Fiocruz desenvolveu e tem uma expertise muito grande. Em Portugal, já estamos preocupados com possíveis surtos de dengue e chikungunya porque o Aedes está presente e aqui não há experiência com isso. A gente pode ajudar a capacitar pessoas e a fortalecer o diagnóstico em relação a doenças que a gente domina. Temos a nossa expertise no desenvolvimento de produtos, mas a gente também tem a necessidade de desenvolvimentos tecnológicos mais avançados e que dependem de parcerias internacionais. A Fiocruz está criando uma nova sede na Embaixada? E como fica a sede da instituição localizada no mesmo prédio da Apex e do Sebrae? O que deve acontecer é manter os dois locais. A sede no prédio da Apex já funciona e recebe atividades mais voltadas para a representação comercial. Além disso, a Embaixada ofereceu um escritório para a representação diplomática, para contatos com governos, interação com empresas e parceiros. LEIA MAIS: Como é usar o sistema de saúde em Portugal sendo imigrante Existe a previsão de se criar uma instalação fabril para a produção de medicamentos e vacinas? Já foi oferecido um prédio para uma instalação fabril para a Fiocruz em Portugal mas não há a previsão para esse lançamento. A Fiocruz está fazendo uma expansão grande do seu parque fabril para essa área de biotecnologia e de produtos biológicos que está ocorrendo no Rio de Janeiro, mas existe a possibilidade de instalação disso em Portugal no futuro. O presidente (Mario Moreira) já falou que o projeto principal é se posicionar internacionalmente começando por Portugal. O parceiro natural é Portugal e isso abre uma oportunidade mais ampla para a Europa como um todo. E como estão as parcerias com outros países da União Europeia e da própria CPLP? Em abril, o presidente Mario Moreira esteve aqui acompanhando o presidente Lula em sua comitiva e ele teve um encontro com representantes da CPLP, cuja sede é em Lisboa. Nesse sentido, a Fiocruz já tem uma grande atuação, está presente na Angola, Cabo Verde e especialmente em Moçambique, onde já formou muitos médicos, pesquisadores e gestores na área de saúde pública. Por lá também foi instalada uma fábrica de produção de retroviral. Quando pensamos na atuação em Portugal não nos restringimos apenas ao país, mas também é uma ponte com a própria Europa e com a CPLP. Portugal é muito estratégico para a atuação da Fiocruz porque abre essas duas portas. renan@revistaentrerios.pt Por Renan Araújo