pressmedia logo

ENTREVISTA - "A MINHA OBRIGAÇÃO É ESCOLHER OS MELHORES PARA TRABALHAREM A BEM DE CASCAIS”

Diário de Notícias

2026-05-11 06:00:08

Nuno Piteira Lopes "A minha obrigação é escolher os melhores para trabalharem a bem de Cascais” ENTREVISTA Primeiros seis meses do democrata na presidência da autarquia ficam marcados pela saída do PS e pela entrada do Chega. FOTO PAULO SPRANGER Em que é que os objetivos que apresentoua aocandidatar-4 à Câmara de Cascais ficaram mais fáceis com a entrada do Chegar e asaída do PS no executivo? Sempre disse, antes, durante e depois das eleições, que fosse qual fosse o resultado, com ou sem maioria absoluta, era meu objetivo convidar todos os eleitos para terem pelouros. Assim fiz. Convidei João Maria Jonet para a pasta do Urbanismo, o que ele recusou liminarmente, o PS para as Atividades Económicas e Fundos Comunitários, O que foi aceite de imediato, e o vereador eleito João Rodrigues dos Santos para assumir as áreas da Transparência, Combate à Corrupção e Canais de Denúncia, áreas que são bandeiras do Chega. O PS sabia desde o início, pois nunca lhe escondi, nem aos eleitores. Aceitou os pelouros e, três meses depois, quando o Chega entendeu ter condições para assumir, decidiu rasgar o acordo que estava assinado, devolver as responsabilidades que tinha assumido e continuar a ter o papel dos últimos 20 anos em Cascais, que se resume apenas a fazer oposição. O )vereador e líder concelhio socialista, João Ruivo, disse quea gestão dos entendimentos visa desestruturar o PS eo Chega em Cascais. Algo maquiavélico, já apensar nas eleições de 2029. vê isso como elogio ou insulto? Nem elogio, nem insulto. Considero que o líder do PS não interpretou bem os tempos atuais da política, em que já não existem dois blocos que podem dividir a liderança do executivo. Atualmente, há três forças políticas capazes de disputar eleições e a minha obrigação, como presidente de todos os cascalenses, é escolher os melhores para trabalharem a bem de Cascais. é o que tenho feito e os vereadores que estão comigo também. Tendo sido decisão do Chega não aceitar de imediato pelouros, ao contrário do que sucedeu em Sintra, onde teve vereadores com Marco Almeida des-de o início, o que terá mudado para o convite acabar por ser aceite? Não sei o que mudou ou se algo mudou. Sei que não sou eu quem define os timings dos outros partidos para aceitarem ou não aceitarem partilhar responsabilidades. Mantenho o que disse antes das eleições: todos os que foram eleitos, e estão disponíveis para trabalhar a bem de Cascais, são bem-vindos, incluindo os vereadores independentes, que até agora não quiseram pelouros. No dia em que queiram aceitar, estou disponível, pois essa diversidade faz-nos sempre melhores, mais ambiciosos e com mais impacto na vida dos cascalenses. O que lhes importa é se o executivo está atrabalhar bem oumal, se está ou não a ter impacto positivo. A abertura aos eleitos de outros partidos não Ihe trouxe reparos de órgãos nacionais do PSD? Não vejo o porquê de reparos. Estou na Câmara de Cascais desde 2005 e lembro-me de vereadores do PCP que faziam parte do executivo de António Capucho, e de vereadores do PS em mais do que um mandato de Carlos Carreiras. Vejo com toda a naturalidade que possa existir vereadores de vários partidos no executivo municipal. Não vê nenhum risco em incluir nasua equipa o membro de um partido que tem como ambição substituir o PSD como principal força política à direita? Não. Aquilo que os eleitores vão avaliar daqui a quatro anos é se este executivo cumpriu ou não com a promessa quie fez. Não para um mandato, pois apresentei um compromisso para uma década: colocar Cascais no topda qualidade de vida em Portugal. Na campanha eleitoral avançou oobjetivo de construir 3600 fogos habitacionais no primeiro mandato. Passados seis meses, qual é o seu grau de confiança nessa meta? Total. Não só estamos a executar o plano delineado como tivemos a oportunidade de o reforçar. Tinha dito que a estratégia local de habitação era criar 3600 novas soluções. Neste momento, a requalificação de todo o património de habitação pública municipal está concluída. Quanto à construção de novos fogos, já entregámos cerca de 200 habitações nestes primeiros seis meses. Tivemos a capacidade de reforçar o compromisso com mil novas soluções de habitação e mais 150 milhões de euros. De 350 milhões de euros para mais de 500 milhões. En-quanto outros municípios discutem quantos fogos vão construir, como os vão financiar e onde os vão fazer, o debate em Cascais é quantas chaves já entregámos e quantas vamos entregar nos próximos tempos. Para isso foi essencial assegurar amaioria absoluta que os votos não deram à vossa coligação? Tenho uma convicção muito firme de que, como a habitação pública era a prioridade das prioridades para todos os partidos, não é necessário haver maioria absoluta para cumprir esse desígnio. Uma ideia feita sobre Cascais é que é uma terra de ricos e de pobres. O que se pode fazer para consolidar a classe média? é uma ideia completamente errada e de quem não vive cá. Cascais é uma terra de pessoas que todos os dias se levantam, trabalham e contribuem para desenvolver o concelho e o país. é um concelho diversificado, mas inclusivo, onde todos têm possibilidade de subir noe yelevador social, que não ficano primeiro ou no segundo andar. Quem nasce, cresce e trabalha em Cascais sabe que o elevador social funciona e que se pode atingir o topo da felicidade ou do projeto de vida que querem implementar. Há questões de mobilidade que têm a ver com outras entidades, como a criação do corredor de autocarros BRT na A5 e a concessão da linha ferroviária. Que avanços houve nesses projetos? Muitos. Aliás, Cascais, no que diz respeito à mobilidade, abriu caminhoVic presidente da Câmara do Porto dizer que a partir de janeiro de 2027 também iria ter transportes gratuitos. é com orgulho que vemos as nossas políticas copiadas por outros municípios. é sinal de que estamos a fazer coisas bem feitas. Para mim, a mobilidade é um direito de todos os cascalenses, e por isso é gratuita. Mas tenho perfeita noção de que ainda temos desafios pela frente. Nomeadamente, dois desafios pelos quais tenho batalhado: a linha de caminho de ferro e o corredor BRT. Existe, neste momento, uma das coisas mais difíceis de conseguir em política, que é o alinhamento entre os presidentes da câ- mara de Cascais, da Câmara de Oeiras e da Câmara de Lisboa, e o ministro das Infraestruturas. Todos com o mesmo objetivo, que é a possibilidade de concessionar a operação da linha de caminho de ferro de Cascais. Através de uma empresa intermunicipal ou da TML, que tem gerido bem transportes na ârea Metropolitana de Lisboa. Isto iria permitir que as estações estivessem cuidadas. Não podemos querer atrair mais pessoasi e tê-las degradadas. Os elevadores não funcionam, as casas de banho estão sujas, as bilheteiras estão fechadas, a iluminação não existe e não é apelativo utilizar a linha. O Ministério das Infraestruturas está a concluir a requalificação da infraestrutura. As carruagens estão encomendadas e vão começar a chegar até ao final do ano. Depois, é preciso cuidar das pessoas que usam o transporte e das estações. Estou convencido de que uma gestão mais próxima, de quem conhece os utilizadores da linha, pode ser mais eficaz. e com a vantagem de cada município poder ter a sua própria política. Se Cascais quiser oferecer mobilidade completa, com bicicletas, trotinetes, estacionamento junto às estações e transportes gratuitos, pode fazê-lo. Se Oeiras ou Lisboa quiserem uma política diferente, podem tê-la. Cada um é livre de fazer o que entender, de acordo com os compromissos para com Os eleitores. A segurança é um tema em que há vantagens em ter o Chega na sua equipa, em vez do PS? Não há nenhum partido contra a aposta na segurança. Nenhum munícipe pode viver com tranquilidade e em liberdade, pode viver feliz, se não se sentir em seguirança. Por isso, fizemos já o investimento que tinha de ser feito nas esquadras, equipamentos e meios de transporte da PSP e da GNR. Estamos na segunda fase, a terminar a implementação do maior sistema de videovigilância de Portugal. São cerca de 440 câmaras no espaço público. permitindo que Cascais continue a ser o concelho seguro que é. Na estratégia para a saúde tem dado ênfase à prevenção, numa ideia de vida saudável. Basta ou é preciso investir em meios? Mais uma vez, o município substituiu-se auma responsabilidade da Administração Central: construímos e requalificámos todos os centros de saúde do concelho. E concorremos, em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Cascais, a Cruz Vermelha Portuguesa er :o Hospital de Cascais, ao concurso público para a Unidade de Saúde Familiar Tipo C. Por outro lado, em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Cascais, os cascalenses sem médico de família atribuído pelo Serviço Nacional de Saúde têm médico de saúde familiar garantido pelo município. Mas temos de passar para a terceira fase, que é ligar tudo o que diz respeito à saúde com atividade fisica e prevenção. Vamos oferecer a todos os cascalenses medicina preventiva, de acordo com idade e género, pois acredito que pouparemos muitos milhões de euros ao Ministério da Saúde com o que investirmos na prevenção e deteção precoce de certas doenças. Tendo apontado a meta de ultrapassar Coimbra em número de estudantes universitários, tem seguido as polémicas em torno da Universidade Nova de Lisboa, nomeadamente da Nova SBE? é assunto que não diz respeito ao município. O quenos dizrespeito é o objetivo que estava traçado, e se mantém, de atingir 20 mil estu-dantes universitários no concelho. Temos, há bastantes anos, a Escola Superior de Saúde de Alcoitão e a Escola Superior de Turismo e de Hotelaria do Estoril, conseguimos captar para Carcavelos a Nova SBE, já deu entrada o projeto de construção da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e estamos a fechar o projeto para trazer a Medical School. é muito real que, no ano letivo de 2029-2030, certamente teremos 20 mil estudantes universitários em Cascais. Ter sido eleito vice-presidente da Associação Nacional de Municípios é um reconhecimento do peso de Cascais nas autarquias do PSD ou um convite para outros voos na política? Para outros voos não é de certeza. o meu objetivo sempre foi fazer política autárquica em Cascais, onde nasci, cresci, trabalhei desde sempre e nasceram os meus filhos. é aqui que quero ficar. é a sua cadeira de sonho? é o sonho de criança que, felizmente, com muito trabalho, foi atingido em outubro de 2025. Apesar de a coligação liderada por Luís Montenegro ter saído reforçada nas últimas legislativas, alguns ministros são muito criticados. é capaz de defender Ana Paula Martins, ou Rosário Palma Ramalho, com a convicção com que defende Pinto Luz? Consigo. A ministra da Saúde tem feito um bom trabalho na grande reforma que é preciso fazer no Serviço Nacional de Saúde. Não fosse o corporativismo que existe em Portugal em determinadas classes e o seu trabalho seria muito mais reconhecido.com a ministra do Trabalho é a mesma coisa. Andamos a falar do pacote la-boral há demasiado tempo e determinadas corporações que representam uma percentagem baixa do que são hoje os trabalhadores portugueses... Refere-se aos sindicatos. Claro. E parece que o trabalho da ministra não consegue avançar. Acho que tanto uma como outra têm feito um bom trabalho, que é reconhecido pelos portugueses. Ao contrário do que sucede em Cascais, o primeiro-ministro tem dúvidas sobre a integração de outros partidos na coligação. Deve ser um dogma a AD ser formada pelo PSD e pelo CDS? Não tenho coligação com O Chega. A coligação em Cascais é entre PSD e CDS. Existe desde 2001, está bem e recomenda-se. O que existe é uma forma de ver, de estar e de trabalhar deste presidente, que acha que todos os eleitos devem ter a possibilidade de ter responsabilidades no executivo. Não fui eu iquiee elegi os vereadores do Chega, nem os do PS, nem os independentes. Foram os eleitores. Se algo tem de mudar, então mude-se a Lei Eleitoral Autárquica para as câmaras terem governos de maioria simples e reforçar o poder de iAssembleia Municipal fiscalizar o executivo. Suponho que terá esperanças de que em 2029 tenha maioria absoluta e não precise da oposição. Volto a reforçar que não se trata de precisar ou não da oposição. Terei em 2029, se tudo corter como previsto, se o meu partido voltar a confiar em mim, como espero, o resultado que os eleitores de Cascais entenderem quie sou merecedor. Claro que trabalho todos os dias, e continuarei a trabalhar, para que o PSD e a coligação Viva Cascais possam recuperar o número de vereadores que era tradição terem. O que falhou para na segunda volta das presidenciais o candidato apoiado pelo PS ter enfrentado o líder do Chega não ocandidato apoiado pela AD? Só os portugueses poderão fazer esse julgamento , e fizeram-no. A dispersão de candidaturasle levoua que o resultado fosse este. Já teve António José Seguro em Cascais? Ainda não o tive aqui enquanto Presidente, mas já enviei um oficio para visitarmos as instalações da Presidência da República em Cascais, no Palácio da Cidadela. Que avaliação faz do início do domandato presidencial? Ainda é muito cedo para fazer uma avaliação séria. Nuno Piteira Lopes “Lembro-me de vereadores do PCP que faziam parte do executivo de António Capucho, e de vereadores do PS em mais do que um mandato de Carlos Carreiras. Vejo com toda a naturalidade que possa existir vereadores de vários partidos.” “Não tenho coligação com o Chega. A coligação é entre PSD e CDS. Existe desde 2001, está bem erecomenda-se. O que existe é uma forma de ver, estar e trabalhar deste presidente, que acha que todos os eleitos devem ter a possibilidade de ter responsabilidades.” Nuno Piteira Lopes foi eleito presidente da Câmara de Cascais em 2025, após ser vice-presidente do também social-democrata Carlos Carreiras. LEONARDO RALHA