PORTO - MARCOLINO FESTEJA CEM ANOS COM NOVA LOJA E CASAS DE LUXO
2026-05-11 06:00:12

Marcolino festeja cem anos com projeto de nova loja e habitações de luxo na Baixa Relojoaria icónica do Porto comprou edifício ao lado do Majestic e abre em 2027 espaço assinado por Siza Vieira COMéRCIO Quando resolveu trocar as voltas ao destino e voar além da vida de ourives que lhe caberia pela herança familiar de quatro gerações de gondomarenses, Paulo Neves não imaginava “chegar até aqui”, à frente da histórica Relojoaria Marcolino, que ampliou, transformando-a numa casa de luxo e condu-zindo-a até ao centenário, comemorado neste ano. Miguel, o filho mais velho de Paulo, já lhe segue as pisadas e ambiciona uma vida de “mais cem anos, pelo menos”, para o negócio que está nas mãos da família Neves há quatro décadas. Ao lado do pai, acerta, aos 31 anos, os ponteiros de nova expansão da Marcolino: no prédio que compraram aos donos do mítico Majestic, contíguo ao café e em frente à loja, na outra esquina das ruas de Santa Catarina e Passos Manuel, onde durante vários anos funcionou um banco, vão abrir, em 2027, um estabelecimento de “alto luxo”, onde terão “até cinco marcas, com mais espaço do que aquele que têm atualmente”. Incluindo, a luxuosa Rolex, de que a relojoaria é distribuidor oficial. Os outros três pisos do edificio serão convertidos em “habitações de gama alta”, de tipologias T2 e T3, naquela que é a estreia da família ono ramo imobiliário.com projetos do arquiteto álvaro Siza Vieira, a loja e os seis apartamentos totalizam um investimen-to de 16 milhões de euros, sendo que a compra do prédio à família Barrias se fez pOr 13 milhões. Os restantes três são para projetos e para a obra de remodelação. A futura loja Marcolino 1926 “vai ter um bar” e oferecerá aos clientes um ambiente ainda mais requintado do que o espaço que os Neves abriram em 2011 com o segmento de luxo, onde durante décadas esteve o pronto a vestir Casa Inglesa, já na Rua de Santa Catarina. “Queremos fazer da venda uma experiência”, antecipa Paulo Neves, contando que esse princípio já é praticado e será ampliado ono novo espaço, que ocupará uma área de 250 metros quadrados. “FáBRICA DE SONHOS” Atrabalhar com o empresário há quase 20 anos, José Oliveira, que soma quatro décadas como comercial de ourivesaria em algumas das melhores lojas da Baixa, passará a atender os clientes no novo espaço, onde continuará a eleger como “importantíssima a relação de confiança” criada entre as duas partes, até porque os artigos ali adqui-ridos atingem preços que podem ascender às centenas de milhares de euros. "é uma fábrica de sonhos. os clientes estão sempre à procura de sonhos, e nós tentamos realizá-los”, diz o comercial de 62 anos, referindo que “o mercado estrangeiro é fundamental”, sendo que “50 a 60% dos clientes são turistas”. Agora sob a designação de Marcolino Link, os artigos de gama média continuarão à venda na loja de Passos Manuel, para onde o fundador do negócio, António Marcolino, mudara, em 1937, o negócio que abrira 11 anos antes na vizinha Rua de Santo Ildefonso. Marcolino ocupou, então, o número 130, menos de metade do espaço para onde a família Neves expandiria o estabelecimento, até ao Restaurante Escondidinho, no início da década de 1990, quando adquiriu uma antiga loja de carimbos e subiu ao primeiro andar, onde se vendiam discos de vinil. Nesse piso onde hoje está a oficina dos relojoeiIOS (ler texto ao lado) =3 montaram uma secção dedicada aos relógios Swatch, que na época faziam um sucesso estrondoso e eram um êxito de vendas. Ao balcão, qual senhora Swatch, estava Anabela, filha de Femando Oliveira, o funcionário que se manteve ao lado de Paulo Neves desde o início da aventura, quando, em 1983, o jovem de Gondomar chega ao Porto para abrir, aos 23 anos, a sua primeira loja , a ourivesaria Opala, no Centro Comercial Stop , e tornar-se “o primeiro da família a vir para o comércio”. Em 1986, compra a Marcolino ao ourives José Moura, e mantéma a “parceria muito boa” com o funcionário de sempre. RELóGIO PARA A CIDADE Com os novos negócios na calha, afinam-se agora os cronómetros para a festa dos cem anos, com várias iniciativas. Entre elas, a edição de um livro sobre a história da loja, uma intervenção artística aérea na rua , as candidaturas dos artistas decorrem até ao próximo dia 28 , e a oferta de um relógio à cidade, que todos os dias tem as horas certas no relógio da Câmara graças à manutenção feita pela Marcolino. “Tenho a sorte de não vir trabalhar: venho fazer o que quero e gosto” António Alves é um dos quatro relojoeiros da Marcolino que fazem manutenção e reparação BASTIDORES Homem alto e encorpado, António Alves senta-se diante da mesa alta, voltada para a janela com vista sobre a Rua de Passos Manuel, e tudo se torna ainda mais pequeno = da tampa de um relógio todo desmontado até à mais ínfíma das cerca de 300 peças que o compõem. As mãos, grandes, articulam-se em gestos minuciosos para poderem tratar componentes mais pequenas do que um grão de açúcar; algumas só decifráveis ao microscópio. E as pinças são, quase sempre, extensões dos dedos, com cada movimento a obedecer a um controlo rigoroso. António é um dos quatro relojoeiros da Marcolino, e assegura que, para trabalhar diariamente nesta escala de minúcia, “é preciso gostar” do oficio, que abraçou por um acaso improvável. Tinha 14 anos quando lhe disseram que “a relojoaria ia ser uma profissão com futuro” e não quis perder tempo. Procurou um relojoeiro em Grenoble, nos Alpes franceses para onde a família de Cabeceiras de Basto havia emigrado, e apaixonou-se pelo trabalho. “o relojoeiro disse-me: António, pega na corda e põe-na dentro do tambor . Era uma fita com 40 centímetros, e consegui pôr”, recorda. Hoje, já não se vê a fazer outra coisa. “Tenho a sorte de não vir trabalhar: levanto-me e venho fazer o que quero e gosto, sempre com entusiasmo”, confessa o relojoeiro, que tem 50 anos e até já acertou relógios de aeronaves de combate. RELóGIOS DOS F-16 A “formação profissional muito exigente” fez na Suíça, onde adquiriu a “disciplina e a metodologia” que o acompanham até hoje, e as certificações que detém permitem-lhe efetuar a “reparação e manutenção” de relógios de várias marcas. O trabalho, feito ónos bastidores da loja, tanto pode demorar horas como dias, conforme a complexidade do artigo. “Já reparei relógios com mais de mil peças, e demorei três dias. é mecânica pura”, diz, sem esconder o orgulho no caminho iniciado em França, e que chegou a pô-lo na rota da Força Aérea, a “reparar os relógios dos [aviões caça) F-16 e a dar formação aos profissionais, na Base de Monte Real”. NACORREIA COSTA SABER MAIS Milhares de eutos os preços dos relógios de luxo vendidos pela Marcolino variam entre os sete mil e os 90 mil euros. Mas já chegaram a vender exemplares de 130 mil eutos. mil é o numero de relógios que a gerência da Marcolino estima que tenham sido vendidos na loja desde a sua fundação. Paulo Neves e o filho Miguel, com a Marcolino há quatro décadas na família Uma cidade cheia de negócios centenários nas mãos de gerações CASA JANUaRIO Mercearia continua na família A mercearia, que fica entre as ruas do Bonjardim e Formosa, também celebra o centenário neste ano e vai na terceira geração da família do fundador, Januário Ferreira. BAZAR PARIS Uma montra de brinquedos desde I902 Fica na Rua de sá da Bandeira, diante da Praça de D. João1 I, e em março soprou as velas dos 123 anos, com Luísa Vilas-Boas, bisneta do fundador, à frente da loja de brinquedos. CASA HORTICOLA Sobrinho continua legado No Mercado do Bolhão, entre as ruas Formosa e sá da Bandeira, António Ferreira continua o legado do tio, António Ferreira de Sousa, que manteve viva a casa fundada em 1921. OURIVESARIA BRILHANTE Loja de joias é a mais antiga da rua Perto da Praça dos Poveiros, é o mais antigo negócio da Rua de Santo Ildefonso. Foi fundado em 1912 e está há três gerações nas mãos da família Pessoa. BENEDITO BARROS Sobreviveu à pressão imobiliária A loja de tecidos fundada pelo emigrante que lhe deu o nome está a fazer cem anos. Em 2024, a pressão imobiliária levou-a para outro espaço: está agora no Beco de Passos Manuel. LIVRARIA MOREIRA DA COSTA Nas mãos da quinta geração Fundada em 1902, POr José Moreira da Costa, vai na quinta geração da família. Mora na Rua de Avis, no edificio do Hotel Infante Sagres, e é a livraria alfarrabista mais antiga do Porto. CONFEITARIA DO BOLHaO Salão de chá encantou gerações Abriu portas em 1896, em frente ao Mercado do Bolhão, e tornou-se conhecida pelo salão de chá requintado, que então era muito frequentado pela burguesia da cidade. BOTóNIA Bisneta continua a vender botões Arnaldo Martins de Sousa criou o negócio de botões em 1908, no início da Rua de Cedofeita. Hoje, já está a bisneta ao balcão da retrosaria. CASA GRANADO Expandiu negócio de ferragens Em Cedofeita, perto da Rua dos Bragas, mora, desde 1913, o negócio de ferragens e utilidades para a casa, que se expandiu e abriu outra loja. Foi aos I4 anos que António decidiu ser relojoeiro Edifício comprado pelos proprietários onde funcionava um banco. O centenário ficará marcado pela entrada no negócio imobiliário Ana Correia Costa