HIPERTRIGLICERIDE???
2026-05-11 21:01:40

O LUGAR DOS ÁCIDOS GORDOS ÓMEGA-3 NA ESTRATÉGIA TERAPÊUTICA ?s triglicéridos plasmáticos elevados (hipertrigliceridemia, HTG) são resultado do excesso de lipoproteínas ricas em triglicéridos (TG) de diferentes tipos, mais frequentemente lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDLs). A HTG pode estar associada a variantes genéticas, casos em que pode ser fator causal para aumento de risco de doenças cardiovasculares (DCV) ateroscleróticas (enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral). BENEFíCIOS CARDIOVASCULARES SIGNIFICATIVOS A aterosclerose é uma doença crónica, silenciosa e progressiva. Alterações iniciais da parede arterial, como estrias gordurosas, podem ser identificadas já na primeira década de vida em estudos histopatológicos. Assim, a DCV aterosclerótica não deve ser encarada como doença exclusiva do adulto ou idoso, mas como um processo contínuo ao longo do ciclo de vida. Este carácter contínuo abre múltiplas janelas de oportunidade para intervenção e prevenção em diferentes fases da vida. Os ácidos gordos ómega-3 (AG n-3) demonstram benefícios cardiovasculares significativos, sobretudo em populações de alto risco. Dentre os principais mecanismos envolvidos está a estabilização de placas ateroscleróticas, que pode reduzir a incidência de eventos cardiovasculares e mortalidade associada. Os AG n-3 também têm papel preventivo no desenvolvimento da HTG, pois reduzem a lipogénese “de novo", reduzindo a secreção hepática de lipoproteínas ricas em TG. Adicionalmente, promovem a degradação da apolipoproteína B e modulam a expressão de genes e a atividade de enzimas envolvidas na regulação dos lípidos plasmáticos. Outro mecanismo já descrito envolve a ativação dos recetores ativados por proliferadores de peroxissomas (PPAR), que aumentam a beta-oxidação mitocondrial de AG e reduzem a lipogénese hepática, reduzindo a síntese endógena de TG. RECOMENDAçôES DAS SOCIEDADES MéDICAS A American Heart Association (AHA) recomenda, para todos os graus de HTG, modificações dietéticas e no estilo de vida antes do início da farmacoterapia. Tais recomendações são endossadas pela Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo. As intervenções indicadas incluem perda de peso, atividade física, limitar ingestão de álcool, reduzir consumo de hidratos de carbono refinados, substituir gorduras saturadas e trans por gorduras insaturadas e aumentar o consumo de fontes de AG n-3. Neste sentido, a AHA recomenda que a ingestão de AG n-3, totalizando fontes dietéticas e suplementação, atinja 2 a 4g/dia. Esta quantidade equivale à soma de ácidos eicosapentaenoico (EPA) e docosahexaenoico (DHA). SUPLEMENTOS: OPçaO SEGURA E EFICAZ Embora Portugal seja o país da União Europeia com maior consumo de pescado, a prevalência de HTG, quando se consideram valores limítrofes e moderadamente elevados, atinge de 13 a 30% da população adulta. Segundo dados da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) e do Sistema Nacional de Saúde (SNS), as DCV ateroscleróticas são a maior causa de morbilidade e mortalidade em Portugal, sendo responsáveis por cerca de 25% dos óbitos. A ingestão de 4g/dia de AG n-3 demonstra eficácia na redução dos TG em 20-30%, sem promover aumento significativo do LDL-colesterol. Este consumo também está associado à redução de eventos cardiovasculares graves, como morte cardiovascular, enfarte agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral não fatais. Deste modo, a prescrição de suplementos com AG n-3, nomeadamente EPA e DHA, é considerada pela AHA uma opção segura e eficaz para redução do TG, seja como monoterapia ou como terapia adjunta a outros agentes hipolipemiantes. O profissional de saúde deve considerar a prescrição nesta dose ou ajustada às necessidades individuais do doente, após avaliar sua ingestão dietética. DRA. NATALIA CASANOVA