SNS: CIRURGIAS CARDÍACAS E ONCOLÓGICAS DIMINUÍRAM E AS LISTAS DE ESPERA DISPARARAM NO FINAL DE 2025
2026-05-11 21:09:08

Actividade cirúrgica teve quebra no segundo semestre de 2025, enquanto as primeiras consultas aumentaram, revela reguladora da saúde. Mais de dois terços dos vales para cirurgia ficaram por usar. Os hospitais do SNS realizaram menos 1870 cirurgias no último semestre de 2025 face ao período homólogo de 2024, mas a diminuição mais significativa aconteceu nas cirurgias cardíacas e oncológicas, especialidades críticas onde estão a engrossar as listas de espera. Os dados constam do relatório de monitorização dos tempos de espera no SNS no segundo semestre de 2025, divulgado nesta segunda-feira pela Entidade Reguladora da Saúde (ERS). A ministra da Saúde já reagiu aos números, admitindo que é preciso um "cuidado especial" com a cardiologia e a oncologia. A análise indica que as cirurgias oncológicas realizadas diminuíram 3%, atingindo as 34.771 no segundo semestre de 2025. Já a actividade cirúrgica de cardiologia diminuiu 4,9%, totalizando 4508 cirurgias. Excluindo estas duas especialidades, foram realizadas 283.878 cirurgias programadas nos hospitais públicos, menos 0,7% do que no mesmo período do ano anterior. Olhando para a lista de espera de cardiologia e oncologia, os resultados não são animadores. No final do ano passado, 2703 doentes estavam a aguardar cirurgia de cardiologia, mais 39,5% do que no mesmo período de 2024. Desses, 58,6% já tinham ultrapassado os tempos máximos previstos legalmente, mas ainda assim verificou-se uma ligeira melhoria (0,3 pontos percentuais) face ao período homólogo. Na cirurgia oncológica, área prioritária para o Governo, tudo se agravou. No final do ano passado, havia 8215 doentes à espera de serem operados, mais 9% do que no mesmo período de 2024 Na cirurgia oncológica, área prioritária para o Governo no âmbito do Plano de Emergência e Transformação da Saúde, tudo se agravou. No final do ano passado, havia 8215 doentes à espera de serem operados, mais 9% do que no mesmo período de 2024. Os tempos máximos de resposta garantidos (TMRG) foram ultrapassados por 21,2% destes doentes, um agravamento de quatro pontos percentuais face a igual período do ano anterior. No total, excluindo cardiologia e oncologia, havia 189.444 utentes a aguardar cirurgia no final de 2025, menos 0,6% do que no segundo semestre de 2024. Dos doentes em espera, 16,3% já tinham ultrapassado o TMRG (mais 1,5 pontos percentuais face a 2024). Em entrevista ao podcast "Política com Assinatura", da Antena 1, divulgada nesta segunda-feira à tarde, a ministra da Saúde admitiu a necessidade de uma maior atenção a estas especialidades cirúrgicas. "Reconheço que na cardiologia precisamos de ter um cuidado especial, como precisamos de ter na oncologia", disse Ana Paula Martins. De resto, a ministra considerou que a redução da actividade cirúrgica no SNS "não é uma falência, é uma dificuldade". Que associa à falta de eficiência do actual sistema de gestão de listas de espera, que será substituído por um novo, com entrada em funcionamento para as cirurgias prevista para 1 de Agosto. O primeiro alerta para a redução abrupta da cirurgia oncológica no SNS no final de 2025 foi dado no final de Novembro pelo Relatório de Avaliação de Desempenho e Impacto do Sistema de Saúde 2025 (RADIS), publicado pela Convenção Nacional de Saúde. Na altura, a ministra da Saúde justificou o agravamento com o aumento dos rastreios e com o facto de a maioria dos doentes estar nos institutos de oncologia e não aceitar a cirurgia noutras instituições. A redução da actividade do SNS é um tema que tem gerado preocupação e não se limita ao final do ano passado. Na semana passada, o PÚBLICO noticiou que, nos primeiros dois meses do ano, o SNS realizou menos consultas nos cuidados primários e nos hospitais e fez menos intervenções cirúrgicas programadas. Inicialmente, a ministra da Saúde considerou a quebra da actividade, no início de 2026, uma “redução pontual” justificada pelo impacto da gripe, que obrigou à suspensão da actividade programada. Mas, na passada quinta-feira, no Parlamento, Ana Paula Martins admitiu que a capacidade de resposta do SNS está “muito diminuída” devido aos internamentos inapropriados, ou seja, pessoas que ocupam camas nos hospitais depois de terem alta clínica, por falta de respostas sociais e de cuidados continuados. Os problemas na cirurgia cardíaca também têm dominado a agenda da saúde. No início deste ano, o Hospital de Santo António posicionou-se para abrir um centro de cirurgia cardíaca que dê resposta à lista de espera, mas a proposta está a causar apreensão nos centros de referência que já existem no Grande Porto - no Hospital de São João e no hospital de Gaia. Estas unidades temem a saída de profissionais altamente diferenciados para o Santo António, aliciados por remunerações mais elevadas por via de contratos de prestação de serviços. A lista de espera para cirurgia cardíaca já tinha sido avançada no final de Abril pelo presidente da Entidade Reguladora da Saúde, na Comissão Parlamentar de Saúde. Na audição, Pimenta Marinho adiantou que, nos últimos três anos, a actividade cirúrgica cardíaca manteve-se “relativamente estável”, embora se tenha registado uma “redução acentuada” no segundo semestre de 2025. Primeiras consultas de especialidade aumentaram De acordo com o relatório divulgado nesta segunda-feira, a par da diminuição da actividade cirúrgica, “assistiu-se a um aumento generalizado no número de primeiras consultas realizadas”. Na oncologia, as primeiras consultas aumentaram 2,8% (totalizando 20.977 no segundo semestre de 2025), tendo a percentagem de incumprimento diminuído 4,3 pontos percentuais face ao segundo semestre de 2024, fixando-se nos 57,5%. Na cardiologia, o número de consultas realizadas aumentou 2,4% (fixando-se nas 23.838 consultas). Segundo a reguladora, os tempos de espera melhoraram ligeiramente, mas ainda estão críticos: em 86,4% destas consultas o TMRG foi ultrapassado, uma melhoria de 1,4 pontos percentuais face ao segundo semestre de 2024. Nas restantes especialidades, excluindo oncologia e cardiologia, “observou-se um aumento de 1,4% no número de consultas realizadas (totalizando 662.383 consultas) face ao segundo semestre de 2024”, indica o relatório. Os tempos máximos previstos legalmente foram ultrapassados em 51,4% das consultas, uma redução de 1,7 pontos percentuais face ao período homólogo. A monitorização da ERS olha ainda para a actividade dos hospitais dos sectores privado e social que têm acordos de cooperação com o SNS (hospitais protocolados) e convenções no âmbito do Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC) para darem resposta à lista de espera. Mais de dois terços dos vales-cirurgia ficam sem efeito Recorde-se que, quando os hospitais de origem não conseguem garantir a realização da cirurgia dentro dos TMRG estabelecidos por prioridade clínica, os doentes recebem um vale-cirurgia (para um hospital do sector social ou privado) ou uma nota de transferência (para outro hospital do SNS). Mas, ao longo dos anos, estas alternativas têm mostrado baixa aceitação por parte dos doentes que preferem aguardar nos hospitais de origem, por questões de proximidade geográfica ou porque querem ser operados pelas equipas que já conhecem. No segundo semestre de 2025, o SNS emitiu 47.032 vales-cirurgia e notas de transferência, mas só foram cativados 13.312 (28,3%). Na entrevista à Antena 1, a ministra da Saúde adiantou que dentro em breve serão actualizados os preços contratualizados com o sector privado e social. "Não é uma promessa. É uma coisa que vai acontecer nos próximos dias", disse Ana Paula Martins. Relativamente aos cuidados de saúde primários, a ERS refere que continua a monitorizar a actividade, mas não apresenta informação devido a constrangimentos relacionados com a disponibilidade dos dados em 27 das 39 unidades locais de saúde, que não permitem a verificação integral do cumprimento dos TMRG nos cuidados de saúde primários. A reguladora destaca ainda que a monitorização não inclui a análise dos meios complementares de diagnóstico e terapêutica porque “continua a não ser possível a avaliação dos tempos de espera para a sua realização, por dificuldades relacionadas com os sistemas de informação utilizados pela maioria dos hospitais do SNS”. Liga apela ao Ministério da Saúde que tome medidas para travar estes números O presidente da LPCC, Vítor Veloso, afirmou que estes "são dados negativos" para os quais a instituição olha "com admiração, mas uma admiração negativa e com uma preocupação muito grande". "Estes dados demonstram que, em relação aos doentes oncológicos, a situação não é brilhante", disse, destacando o aumento de 9% na espera para a cirurgia oncológica. Para o oncologista, ainda mais preocupante é o facto de 21,2% dos doentes em espera já terem ultrapassado o tempo máximo de resposta garantido, assim como o aumento dos tempos de espera para a primeira consulta de especialidade. "Todos estes dados são negativos e a Liga solicita ao Ministério da Saúde que se debruce sobre eles e que lance uma iniciativa que considere e faça com que esta situação seja recuperada", defendeu. "Os doentes estão a ser altamente prejudicados e portanto veementemente nós pedimos ao Ministério de Saúde que tome as devidas medidas", reforçou o oncologista. Questionado sobre as medidas que devem ser tomadas para reverter estes indicadores, o presidente da Liga afirmou que "todo o Serviço Nacional de Saúde precisa de uma restruturação muito grande", incluindo na área da oncologia. Para Vítor Veloso, os doentes estão a ser "duplamente prejudicados", quer pelos atrasos nas primeiras consultas de especialidade, "que são determinantes" para o diagnóstico e tratamento, quer pelos atrasos nas cirurgias. Questionado sobre se esta realidade já se reflecte no dia-a-dia da instituição, Vítor Veloso respondeu "obviamente que sim", referindo que muitos doentes recorrem à Liga por ainda não terem sido operados. "Há muitos doentes que nos procuram no sentido de tomarmos medidas, mas a Liga não tem possibilidade de as tomar. Isso é a nível central, a nível do Ministério da Saúde, que tem de ser tomado", afirmou. Como razões para o agravamento da situação, Vítor Veloso apontou a falta de profissionais de saúde "e, provavelmente, a estrutura não estar devidamente montada". "Este agravamento não é um agravamento mínimo. É um agravamento já altamente preocupante", concluiu Vítor Veloso. Lusa Texto actualizado às 16h28 com as declarações da ministra da Saúde à Antena 1 sobre os resultados da monitorização da Entidade Reguladora da Saúde. tp.ocilbup@kcerhcs.seni Cirurgias diminuíram em geral, mas queda foi mais significativa na cardiologia e na oncologia Manuel Roberto (arquivo) Inês Schreck