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SARA BARROS (LUNDBECK): A CIÊNCIA NÃO ESQUECEU ESTES DOENTES

HealthNews Online

2026-05-11 21:09:10

05/11/2026 HN , A Lundbeck, com um forte legado na saúde mental, está a evoluir para uma organização com um foco reforçado em neurociência, com a estratégia “Focused Innovator”. O que motivou esta mudança e como é que ela se traduz, na prática, para os doentes em Portugal, nomeadamente para os cerca de 800 mil portugueses que vivem com uma doença neurológica rara? SB , Durante décadas, a Lundbeck foi construindo um conhecimento profundo sobre o cérebro: a sua biologia, as suas doenças, a forma como responde a tratamentos. Esse conhecimento é a base que nos permite hoje avançar para áreas onde existe necessidades médicas não satisfeitas. Para os doentes portugueses, o impacto é muito concreto. Há cerca de 800 mil pessoas em Portugal a viver com uma doença rara e estima-se que cerca de metade dessas doenças tem origem neurológica. São pessoas que, na maioria dos casos, nunca tiveram acesso a um tratamento específico para a sua condição. É precisamente para essas pessoas que a Lundbeck está a orientar a sua investigação e o seu pipeline. Em Portugal, temos hoje mais de dez centros envolvidos em ensaios clínicos de fase III e IV, um verdadeiro sinal de compromisso da companhia com os doentes portugueses e com a capacidade científica e de investigação do nosso país. HN , Em Portugal, persistem desafios significativos no diagnóstico precoce e no acesso a tratamentos inovadores em áreas como a neuropsiquiatria e as neuroespecialidades. Quais são, na sua perspetiva, os principais desafios neste domínio e como pode a Lundbeck atuar como parceira estratégica para ajudar a ultrapassá-los? SB , Os desafios são estruturais. O primeiro é o diagnóstico. Em doenças neurológicas complexas, especialmente nas raras, o tempo entre o aparecimento dos primeiros sintomas e o diagnóstico correto pode ser de anos. Isso tem consequências devastadoras para os doentes e para as famílias. O segundo desafio é o acesso. Portugal tem um sistema de saúde que demonstrou abertura à inovação, mas o processo de avaliação e financiamento de novas tecnologias é exigente. O que precisamos é que esse processo seja ágil o suficiente para que a inovação chegue aos doentes em tempo útil. O papel da Lundbeck é afirmar-se como um parceiro ativo neste ecossistema: investir na formação dos profissionais de saúde, apoiar as associações de doentes, contribuir para o debate em política de saúde e demonstrar o valor real das nossas terapêuticas para o sistema - não só em termos clínicos, mas também ao nível dos outcomes em saúde, da eficiência e da sustentabilidade do SNS. HN , O novo posicionamento da Lundbeck implica um alargamento do portfólio para lá das áreas tradicionais. Que necessidades não satisfeitas estão hoje no centro da vossa estratégia de portfólio e de que forma os vossos atuais tratamentos respondem a essas lacunas? SB , A nossa estratégia de portfólio é construída em torno de uma pergunta fundamental: onde estão os doentes que não têm resposta terapêutica adequada? E a resposta aponta para três grandes áreas. Na Neuropsiquiatria, que é a nossa herança e onde continuamos a investir, há doentes com esquizofrenia que não aderem ao tratamento oral. O nosso dispositivo injetável bimestral, único na União Europeia com este perfil, é uma resposta concreta a esse problema. Melhora a adesão e, com ela, a qualidade de vida do doente e das suas famílias. Nas Neuroespecialidades, a enxaqueca refratária representa uma necessidade clínica real que a nossa terapêutica preventiva intravenosa já está a responder, com resultados muito positivos em Portugal. E depois temos as doenças neuro-raras, o nosso próximo grande capítulo - áreas onde o pipeline que estamos a construir poderá fazer uma diferença significativa, porque hoje simplesmente não há alternativas para esses doentes. HN , A empresa prevê lançamentos até 2029, incluindo terapêuticas first-in-class para doenças neuro-raras do cérebro que se encontram em fase III de ensaios clínicos. Pode partilhar, de forma geral, a que áreas terapêuticas se destinam estes candidatos e qual o impacto potencial que antecipam para doentes com necessidades ainda não satisfeitas? SB , Temos dois candidatos em fase III que representam o nosso compromisso mais concreto com as doenças neuro-raras: um para epilepsias pouco frequentes e outro para a atrofia multisistémica. Ambos estão previstos para lançamento em Portugal e Espanha no início de 2029. O que torna estes lançamentos verdadeiramente distintos é que serão tratamentos first-in-class. Para os doentes que hoje recebem um diagnóstico de atrofia multisistémica, por exemplo, não há nenhum tratamento específico. A ciência não esqueceu estes doentes - e Portugal está a assumir um papel ativo neste avanço, com mais de dez centros envolvidos nos ensaios clínicos de fase III que poderão finalmente trazer estas opções terapêuticas até aos doentes. HN , A integração entre a saúde mental e as doenças neurológicas nem sempre é refletida na prática clínica. Como é que a abordagem da Lundbeck em neurociências pode ajudar a quebrar estas barreiras e promover um cuidado mais holístico, nomeadamente em condições que têm expressão cerebral e comportamental? SB , Esta é uma das questões mais importantes e negligenciadas na saúde do cérebro. O cérebro não funciona em silos, mas o sistema de saúde frequentemente organiza-se dessa forma. Para muitos doentes, isso significa percorrer um labirinto de especialidades sem uma visão integrada da sua condição. A posição da Lundbeck é que somos, provavelmente, a única empresa farmacêutica que atua com profundidade em ambos os lados desta fronteira artificial: Neuropsiquiatria e Neurologia. Isso dá-nos uma perspetiva que nos permite trabalhar com médicos de diferentes especialidades e promover uma linguagem comum em torno das doenças do cérebro. HN , O estigma associado às doenças mentais e neurológicas continua a ser um obstáculo ao acesso aos cuidados em Portugal. Que papel entende que a indústria farmacêutica, e em particular a Lundbeck, deve desempenhar na literacia em saúde e na desconstrução desse estigma, para além da disponibilização de medicamentos? SB , O estigma é um problema de saúde pública que não está apenas no doente - está enraizado em toda a sociedade, incluindo profissionais de saúde, decisores políticos, empregadores e a comunidade em geral. Este estigma continua a ser uma barreira real ao diagnóstico atempado, ao acesso aos cuidados e à integração social e profissional das pessoas que vivem com estas doenças. Uma pessoa que sente vergonha da sua condição pode não procurar ajuda, mas também sabemos que o sistema nem sempre está preparado para responder sem preconceito ou atraso. Por isso, o desafio é coletivo. O papel da indústria farmacêutica, neste contexto, tem de ser responsável, consistente e genuíno. O que podemos e devemos fazer é apoiar associações de doentes, investir em iniciativas de literacia em saúde, promover a formação dos profissionais de saúde e contribuir para um diálogo mais informado junto dos decisores. Além disso, é fundamental participarmos em campanhas e iniciativas lideradas por entidades com credibilidade junto da sociedade. Um doente que não se sente seguro para falar da sua doença, ou que não encontra um sistema preparado para o acolher, não vai beneficiar plenamente da inovação terapêutica. Por isso, para nós, promover a literacia e contribuir para a redução do estigma não é acessório - é parte integrante da nossa missão. HN , A concretização da estratégia “Focused Innovator” exige investimento, regulação previsível e capacidade de incorporação de inovação no Serviço Nacional de Saúde. Que fatores considera mais relevantes em Portugal - ao nível da avaliação de tecnologias de saúde, financiamento ou organização dos cuidados - para que estes futuros tratamentos cheguem efetivamente aos doentes que deles necessitam? SB , Portugal tem feito progressos reais nos últimos anos no acesso à inovação farmacêutica e isso merece ser reconhecido. O Infarmed tem desenvolvido capacidade de avaliação de tecnologias de saúde cada vez mais sofisticada, e o SNS tem demonstrado abertura a incorporar inovação quando o valor clínico está demonstrado. Dito isto, há áreas onde o sistema pode evoluir. A primeira é a velocidade; entre a aprovação europeia de um medicamento e a sua efetiva disponibilidade para um doente português, pode decorrer um tempo considerável. Para doenças crónicas isso é difícil e para doenças raras e progressivas, pode ser determinante para o prognóstico. A segunda área é a equidade de acesso. Portugal tem diferenças regionais significativas no acesso a cuidados de saúde especializados e isso afeta também o acesso à inovação. Um doente com atrofia multissistémica no interior do país não pode ter acesso diferente de um doente em Lisboa. O que pedimos ao sistema não é tratamento preferencial. Pedimos previsibilidade, diálogo precoce e um processo que reconheça que, nas doenças raras, esperar tem um custo que não é só Entrevista de Miguel Múrias Mauritti Em entrevista exclusiva ao HealthNews, Sara Barros, Country Manager da Lundbeck em Portugal, revela como a estratégia “Focused Innovator” está a redirecionar a investigação da farmacêutica para doenças neurológicas raras - com mais de dez centros nacionais em ensaios clínicos de fase III - e alerta para o custo (que não é só financeiro) da espera no acesso à inovação