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"ESTE MODELO PERMITE QUE O MÉDICO DEFINA DE FORMA PERSONALIZADA O SEU CAMINHO FORMATIVO"

Jornal Saúde Online

2026-05-12 21:05:58

A edição de 2026 do Update em Medicina, que se realizou de 16 a 18 de abril, apostou num modelo inovador de trilhos formativos personalizados, pensado para responder às necessidades reais da Medicina Geral e Familiar. Em entrevista, o internista António Pedro Machado, coordenador da Comissão Científica do evento, destacou uma formação mais pratica, flexível e articulada com outras especialidades, defendendo os cuidados de saúde primários como base essencial do SNS. Esta edição marcou uma rutura com o formato mais tradicional do Update em Medicina. O que motivou a decisão de avançar para um modelo por trilhos formativos? Que lacuna sentiam que era preciso preencher? Como sabe, temos um formato híbrido. Além das sessões presenciais no Algarve, transmitimos em direto online para aqueles que estão mais longe ou não puderam deslocar-se. O foco prático mantém-se nos cuidados de saúde primários. o programa incluiu sete áreas temáticas principais: saúde mental, saúde cardiovascular, infeciologia, geriatria, saúde da mulher e materno-infantil, nutrição e gestão organizacional, incluindo também questões médico-legais. Todas estas áreas foram abordadas com casos clínicos, debates e cursos práticos, com conteúdos selecionados por um grupo alargado de especialistas em medicina familiar, mas também de especialidades hospitalares, embora com um peso muito menor. Alguns tópicos refletem questões atuais e emergentes, como o burnout, a ges-tão da grávida com comorbilidades ou a epidemia de obesidade, que são temas essenciais nos cuidados de saúde primários. Outro tema que esteve em destaque é o impacto dos ecrãs no neurodesenvolvimento das crianças. Aliás, espero que no Dia Mundial da Criança, no dia 1 junho, este tema venha a debate. Mantemos o formato dinâmico, com casos clínicos interativos, debates de prós e contras e mini palestras. Uma das novidades é a avaliação de conhecimentos através de uma web app. Contudo, o aspeto mais inovador é a introdução dos trilhos formativos. Estes permitem que cada participante escoIha o seu percurso de acordo com os seus interesses ou necessidades formativas. Por exemplo, se uma sessão plenária abordar infeciologia, o médico poderá seguir sessões sequenciais sobre VIH, tuberculose e outros temas da área, constituindo um trilho formativo. Outro trilho poderá começar com insuficiência cardíaca e seguir para cardiomiopatia amiloidótica, fibrilhação auricular, entre outros. Nunca temos mais de dois trilhos em paralelo, de forma a preservar a sequência lógica de cada percurso. Este modelo permite que o médico defina de forma personalizada o seu caminho formativo, o que consideramos fundamental. Este novo modelo parece aproximar-se de uma lógica de formação quase “ à medida”. Até que ponto este poderá ser o futuro dos congressos médicos em Portugal? Exatamente, é isso mesmo! Vamos continuar a desenvolver este modelo no futuro. Estruturámos o Update em torno de grandes áreas nucleares da Medicina Geral e Familiar. Existem sessões plenárias, mas cada médico pode optar pelo seu trilho formativo, de acordo com os interesses ou necessidades, Além disso, também incluímos simpósios que se encaixam nestas grandes áreas temáticas. Considero que a nossa metodologia é inovadora e tem pernas para andar oferecendo um percurso formativo mais personalizado e adaptado à realidade de cada participante. é Nesta fase particularmente desafiante para o sistema de saúde, considera que o diálogo entre as diferentes especialidades, assim como a maior articulação com a Medicina Geral e Familiar promovidos pelo Update em Medicina podem contribuir para meIhorar os cuidados prestados? Sim, acho que sim. Considero a Medicina Geral e Familiar como a especialidade base do nosso sistema de saúde, e é fundamental reforçá-la. Entre as suas várias intervenções, destaca-se a identificação precoce da doença e a prevenção, que são responsaveis por grandes ganhos em saúde. Olhando para a evolução da especialidade nas últimas décadas, houve uma mudança radical. No entanto, é essencial que a Medicina Geral e Familiar não fique isolada. é preciso manter uma ligação forte com as outras especialidades. Aprendi com o professor Nogueira da Costa que só existem três especialidades “nucleares” , a Medicina Interna, a Pediatria e a Medicina Geral e Familiar. Todas as outras “são subespecialidades". O médico de família, tal como o internista, domina grandes áreas do conhecimento sem ser especialista em cada uma delas, mas consegue, igualmente, estabelecer pontes com as várias especialidades. O médico de família faz, no fundo, a Medicina Interna do ambulatório, mas também cobre a saúde infantil, a saúde da mulher, a medicina preventiva e outras áreas que escapam à medicina interna. é devido a este cunho generalista da especialidade que ter uma ampla cultura médica e um raciocínio clínico treinado São requisitos fundamentais ao exercício da arte do diagnóstico diferencial. Só diagnosticamos o que conhecemos, o que temos em mente. Também por isso é tão importante o diálogo entre a Medicina Geral e Familiar e as outras subespecialidades Este tipo de congressos , que integram várias áreas do conhecimento , é crucial para a prática da Medicina Geral e Familiar e, consequentemente, para excelência dos cuidados de saúde prestados. No dia em que deixarmos de investir nos cuidados de saúde primários e nos seus profissionais, o Serviço Nacional de Saúde estará em risco Sílvia Malheiro