EDITORIAL - SNS: NEM TODOS RECUPERAM POR IGUAL
2026-05-12 21:06:02

Nos últimos meses, muito se tem falado da recuperação da atividade no Serviço Nacional de Saúde. Mais consultas, mais cirurgias, maior capacidade de resposta. Mas há uma pergunta que continua por responder: recuperação para quem? Há áreas do sistema que permanecem fora do radar, sendo a reabilitação um dos exemplos mais claros. Em Portugal, cerca de um terço dos municípios não tem acesso a cuidados de Medicina Física e de Reabilitação. Isto significa que milhares de doentes, sobretudo fora dos grandes centros, não conseguem iniciar ou manter programas essenciais à sua recuperação. O problema não é apenas clínico. E SOcial, económico e estrutural. Um doente que não acede atempadamente à reabilitação tem maior probabilidade de desenvolver sequelas permanentes, perder autonomia e ficar afastado da vida ativa. No limite, o que hoje é falta de resposta transforma-se amanhã em maior despesa para o sistema. Mas o problema não se esgota aqui. Também nos Cuidados Paliativos persis-tem falhas de cobertura e dificuldades de acesso, com equipas insuficientes para dar resposta atempada. Nos Cuidados Continuados, a pressão mantém-se elevada, com listas de espera e internamentos sociais que ocupam camas hospitalares e atrasam a recuperação de outros doentes. Estas áreas têm em comum o facto de serem menos visíveis , e, por isso, frequentemente secundarizadas. No entanto, são determinantes. Um doente sem reabilitação adequada, sem continuidade de cuidados ou sem acesso a paliativos em tempo útil terá mais complicações, menor qualidade de vida e maior dependência. Num momento em que se discutem reformas e eficiência, importa olhar para o sistema como um todo. O verdadeiro teste ao SNS não está apenas na atividade que consegue produzir, mas na capacidade de garantir continuidade, proximidade e dignidade ao longo de todo o percurso do doente. E também ai que se mede, na prática, a resposta real do SNS. Até breve! ® Jornalista do SaúdeOnline Sílvia Malheiro