CRÓNICA - CARRO FEDORENTO
2026-05-12 21:06:02

Há dias, um amigo meu comprou um carro novo. Aliás, novo para si, mas em segunda mão. Ainda assim, é fixe e muito novinho até. Ainda não fez dois anos e tem apenas 20 mil quilómetros. Tem pinta e... diz que faz “seis segundos”. Contudo neste automóvel há um busílis. E... mesmo que tão bonito e racing , por fora, quando se entra nele faz-nos “Buuu”. ? como é que nos faz “Buuu” e assusta? Ora bem, através do seu odor entranhado. Sim, é um carro tão completo que até nos conta uma história olfativa do seu passado. "Mas, e o que é que nos conta tal conto?” Conta que... O seu anterior dono deveria ser um(a) jovem hipster . E, desde já, para o nosso “eleitorado” mais conservador ou sénior, relembramos que um hipster são aqueles novos jovens-adultos, ou adultos a fingir serem jovens, que (no caso dos homens) deixam crescer uma barbaçana gigante à lenhador, ou então mesmo em dias de 40 graus não hesitam em andar com um gorrito na cabeça (à pescador), e que... no fundo querem apenas, muito, ser aceites como “fixes”, fazendo tudo por tudo, e dando o seu máximo, para poderem ser incluídos no grupo de pessoal que vive para as novas tendências urbanas da moda e da cultura. Impõe-se, por isso, que este grupo hipsteriano ande sempre o dia todo, impunemente, com uma maquininha a pilhas de pôr na boca. ê... um cigarro eletrónico. Chamam-Ihe vape . Deviam chamar “vapeador", acho eu. Este dispositivo tão hipster é alimentado por uma bateria que permite aquecer um líquido aromatizado, criando um vapor inalável. Contém nicotina e mil e umas outras substâncias químicas, sendo que nos países civilizados já é proibido. Mas resumindo, uma pessoa pá... (e estou tão solidário), compra o carro mais apetecível do mercado, estimado e quase novo, e depois pimba-catrapimba: no seu interior abunda um fantasma passado e um espectro que ainda é pior que o antigo cheiro a tabaco. ê uma espécie de tabaco em calda de pêssego, ou outra coisa igualmente... parva. ê a definição mais agoniante de “carro fedorento” e até nos faz exclamar, logo ali na hora: “hippies, voltem que estão perdoados!!” e que perante esta pegada hipster insuportável, e que se entranha na roupa, os hippies = com a sua ervinha são quase bem-vindos (têm é que tomar banho!) Mas os "cheiros irregulares” nos automóveis são algo de já bem conhecido e até documentado na História. Veja-se, por exemplo, o bom exemplo exemplificativo , e exemplarmente dado por Jerry Seinfeld , no episódio 21 da quarta temporada de “Seinfeld”. Jerry vai jantar fora com Elaine. ã boa moda americana (e nem é preciso ser um restaurante finório), o carro é levado por um arrumador à porta do estabelecimento, trazendo-o de volta no fnal da refeição. Ora, neste relato (autobiográfico de Seinfeld), quando o BMW 525i (E34) é devolvido a Jerry, tanto ele como Elaine, já dentro do carro, não param de perguntar/exclamar “What s this smell?”, fazendo-o com uma expressão facial de agoniamento que vale por... mil adjetivos de mau cheiro. Rapidamente chegam à conclusão de que aquela imensidão de fragrância é “B.O.” ou seja: “Body Odor”. Entre si dissecam a impossibilidade de tal intensidade de aroma poder vir de um ser humano e até extrapolam que um odor corporal assim fica colado ao corpo e não alojado no carro. Prosseguem a viagem... tipo cãozinho, isto é: de janela aberta e cabeça de fora. No dia seguinte, Jerry vai à garagem com a esperança de que as moléculas aromáticas estivessem apenas de passagem pelo carro e já tivessem esvanecido ou ido à sua vida. Mas diz que não e desabafa a Elaine, explicando que ao abrir a porta do carro como que levou um soco gigante na cara e que o cheiro parece ter ganho até uma nova vida e potência durante a noite. Elaine diz que consegue mesmo apontar seis cheiros horríveis que preferia inalar, face a voltar a entrar no 525i, referindo: estrume e flatulência de texugo. De seguida, Jerry leva o carro a uma garagem de limpeza e detalhe. ? especialista promete-lhe uma deionização com vapor de água de alta pureza e um toque de jasmim. Dá-se esperança. Mas, depois de tudo vaporizado, o carro ainda exala a arrumador. Jerry decide vender o carro. Diz ao seu bff George que.. não há outra hipótese, que está a lutar contra uma pujança de fedor maior do que é possível à espécie humana aguentar. Que até mesmo o Super Homem ficaria indefeso perante esta potência odorífera. Elaine surge na conversa e, chorosa, dias depois, diz que o cheiro não Ihe sai do cabelo e que não consegue dormir com este odor que não sai de si, mesmo depois de dez banhos.. Jerry tenta deixar o carro num stand de usados daqueles ao ar livre, à beira da estrada. Aceita qualquer valor que Ihe pudessem dar. Mas, ainda que manhoso, o vendedor de tal stand entra no carro e logo o assinala como contaminado e invendável. Quase um salvado, portanto. Jerry.. decide abandonar o carro. Numa noite... vai até uma viela, encosta o carro e deixa-o aberto com as chaves lá dentro, à vista. Um amigo do alheio, logo entra no carro e prepara-se para arrancar, quando.. esbugalha os olhos à Roger Rabbit com tal empestação pestilenta, fugindo do carro a sete pés. Em suma, o mítico episódio de 1993 de “Seinfeld”, acima relatado, assenta no exagero, e no empolar do ridículo que é o cheiro de um carro deixar o seu dono num: pranto desesperado de mal-estar incontornável... perdendo-se até o apetite e o foco no resto do dia em si. Mas... num momento em que o que não faltam são carros ex-TVDE à venda na internet, quando se vai ver um carro usado, mais importante do que verificar se a carroçaria tem riscos ou se as revisões estão em dia é... levar o nosso nariz bem desentupido e até, se possível, um cão inspetor, testando-se se este consegue ficar dentro do carro mais do que um minuto, ou se logo ladra: “Tirem-me daqui, salvem-me!” // (PS Não perca na próxima edição #89, a crónica: “Carro perfumado”) 14 CRONICA “CARRO FEDORENTO” POR: JoAO SANTOS MATOS João Santos Matos