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O QUE ACONTECE NA SAÚDE QUANDO NADA PARECE ESTAR A ACONTECER

Público Online

2026-05-12 21:06:03

Num tempo em que o SNS enfrenta a pressão sem precedentes do envelhecimento populacional e da escassez de recursos, a Enfermagem surge como a resposta mais estratégica e inteligente. Director da Escola de Enfermagem (Porto), ICS-UCP Há uma estranha tranquilidade no bom funcionamento de um hospital ou de uma unidade de saúde. Quando um doente recupera sem sobressaltos, quando uma cirurgia não resulta em infeção ou quando uma pessoa idosa consegue gerir a sua doença crónica em casa, a sociedade tende a acreditar que esse é o curso natural das coisas. No entanto, essa aparente normalidade não é fruto do acaso. É o resultado direto de uma força invisível, técnica e constante que opera nos bastidores de cada diagnóstico e de cada alta: a Enfermagem. O que acontece quando "nada parece estar a acontecer" é, na verdade, um dos processos mais complexos de vigilância e decisão científica da saúde moderna. Durante demasiado tempo, o olhar público sobre o cuidar foi toldado por uma visão romântica de caridade ou de mero apoio logístico. É necessário romper com esse mito. Cuidar não é apenas um gesto humano; é ciência aplicada, método rigoroso e responsabilidade clínica. Um enfermeiro não se limita a observar um monitor ou a cumprir uma prescrição; ele interpreta sinais subtis de deterioração que passariam despercebidos ao olho comum. Ele não executa apenas um procedimento; ele avalia o risco, antecipa a complicação e decide a intervenção. Essa capacidade de antecipação é o que impede que o erro ocorra e que o sistema colapse sob o peso da ineficiência. Esta vigilância é particularmente crítica no combate silencioso às infeções associadas aos cuidados de saúde e à crescente ameaça da resistência aos antibióticos. Para o senso comum, evitar uma infeção pode parecer uma simples questão de higiene, mas na realidade é uma das áreas mais determinantes para a segurança nacional. Cada protocolo cumprido, cada vigilância de um cateter e cada estratégia de isolamento implementada por enfermeiros representam menos dias de internamento, menos custos para o Estado e, acima de tudo, menos vidas perdidas para ameaças invisíveis. Quando a infeção não aparece, é a Enfermagem que ganhou a batalha. Num tempo em que o Sistema Nacional de Saúde enfrenta a pressão sem precedentes do envelhecimento populacional e da escassez de recursos, a Enfermagem surge como a resposta mais estratégica e inteligente. Valorizar esta profissão não é, por isso, uma questão de cortesia corporativa ou de reconhecimento simbólico. É uma questão de inteligência social e política. Um país que investe em enfermeiros autónomos, valorizados e integrados nos centros de decisão é um país que escolhe ter cuidados mais seguros e recursos mais sustentáveis. O enfermeiro é o elo que garante que a transição entre o hospital e a casa não seja um salto no vazio, promovendo a literacia e a autonomia que evitam o reinternamento desnecessário. O futuro da saúde em Portugal não pode ser construído apenas sobre paredes de betão ou equipamentos de alta tecnologia. O verdadeiro pilar de segurança é o conhecimento vivo e a sensibilidade de quem cuida, capaz de exercer um pensamento crítico sobre o sofrimento e a doença. Sempre que um enfermeiro educa, previne ou identifica um risco antes de ele se tornar um problema, está a proteger muito mais do que um indivíduo; está a salvaguardar famílias, comunidades e a própria viabilidade do sistema de saúde. Precisamos de compreender que, na saúde, o silêncio de uma crise evitada é o som do trabalho de enfermagem bem feito. E é aí, nessa zona onde nada parece estar a acontecer, que a nossa segurança está mais garantida. O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990 Director da Escola de Enfermagem (Porto), ICS-UCP Paulo Alves