ENFERMEIROS: FALTAM 14 MIL NO PAÍS E COMPETÊNCIAS ESTÃO AQUÉM DO QUE DESEJAM
2026-05-12 21:06:17

Profissionais estão “exaustos, desmotivados e sujeitos a um enorme desgaste”, diz bastonário da Ordem dos Enfermeiros. E, sem eles, SNS entra “em risco de colapso”. Apesar de serem os profissionais da área da Saúde em maior número a nível mundial, os enfermeiros ainda continuam a ser poucos para as necessidades. Faltam 5,8 milhões em todo o mundo, dos quais 14 mil só em Portugal. E os que existem não conseguem exercer o seu potencial, porque não lhes é permitido assumir todas as competências que podem ter. Esta terça-feira assinala-se o Dia Internacional dos Enfermeiros. Os dados constam do relatório anual do Conselho Internacional de Enfermagem (ICN, na sigla inglesa) e da avaliação que a Ordem dos Enfermeiros (OE) faz do documento à luz da realidade nacional. E o resultado não é animador: há escassez de profissionais e os que existem estão sobrecarregados, são mal pagos e limitados no seu potencial , razões que têm levado a várias greves nacionais ao longo dos anos, incluindo a que foi convocada para esta terça-feira. O relatório do ICN indica que, apesar de serem quase 30 milhões em todo o mundo, ainda há uma escassez de 5,8 milhões de enfermeiros a nível global. Reverter esta situação, traria ganhos elevados, já que de acordo com as contas do ICN, “reduzir as lacunas de mão-de-obra no sector da saúde poderia poupar 189 milhões de anos de vida perdidos por morte prematura e incapacidade”. Além disso, refere-se, os enfermeiros estão entre os profissionais em que as pessoas mais confiam , o que é vital para o sucesso de intervenções em saúde pública, como campanhas de vacinação, salienta-se , e o aumento do número de profissionais tem uma relação directa com a diminuição das mortes: “Por cada aumento de 10% na proporção de enfermeiros com licenciatura nos hospitais há uma redução de 7% no número de mortes em doentes.” E, quando “trabalham em todo o seu âmbito, incluindo a prática avançada, o acesso a cuidados de elevada qualidade melhora drasticamente”, conclui-se ainda no relatório citado pela OE. “Até 77% dos cuidados preventivos e 47% dos cuidados crónicos poderiam ser prestados por enfermeiros”, alerta-se. Mais competências Este tem sido um dos aspectos pelos quais a Ordem mais se tem batido, sem grandes resultados práticos, sobretudo pela oposição da classe médica. No comunicado que acompanha a divulgação do relatório, o bastonário da OE, Luís Filipe Barreira, relembra as diferentes áreas que beneficiariam do alargamento das responsabilidades dos enfermeiros. Entre elas, a atribuição de um enfermeiro de família, aos mais de 1,5 milhões de utentes que no final de 2025 continuavam sem médico de família, a prescrição por enfermeiros em algumas situações ou o acompanhamento da gravidez de baixo risco por enfermeiros especialistas em Saúde Materna e Obstétrica nos cuidados de saúde primários. Esta medida, relembra a OE, consta mesmo de um despacho já publicado em Diário da República em Fevereiro, mas o projecto “continua parado” e terá mesmo sido alvo de uma proposta “contrária àquela que consta no despacho” por parte de um membro da direcção executiva do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Luís Filipe Barreira acusa assim esta entidade de “subtrair competências aos enfermeiros especialistas”, impedindo-os de realizar todo o seu potencial. Mais um dado, defende a OE, a contribuir para que a descrição geral dos enfermeiros nacionais não seja animadora: “Estão exaustos, desmotivados e sujeitos a um enorme desgaste”. Uma situação que contribui para que muitos profissionais continuem a preferir continuar a carreira fora do país. Emigrar é solução para 40% Luís Filipe Barreira salienta que, apesar de a emigração dos enfermeiros ter diminuído nos últimos dois anos , o que é aferível pela diminuição dos pedidos de declaração para efeitos de emigração ,, ela ainda é uma realidade para “40% dos enfermeiros recém-licenciados”. Os salários são, admite, o principal factor a pesar nesta decisão. “É difícil que o nosso país consiga acompanhar a remuneração que é oferecida por países como a Suíça, a Bélgica ou Espanha, que é três a quatro vezes superior”, diz o bastonário, acrescentando: “Continuamos a oferecer instabilidade aos enfermeiros portugueses, continuamos a oferecer contratos de seis meses, que não garantem estabilidade. Quando emigram, acabam por encontrar condições muito mais estáveis, com progressão mais rápida da carreira e melhores remunerações. Enquanto o nosso país não conseguir ter uma política de recursos humanos que promova esta retenção de enfermeiros em Portugal, com a melhoria das condições de trabalho, será difícil fixarmos os enfermeiros”, assinala. Mudar esta realidade, insiste, é essencial, porque sem enfermeiros suficientes e motivados o SNS fica “em risco de colapso”. “Sem investimento em enfermeiros em Portugal, não conseguiremos garantir a sustentabilidade do SNS”, alerta Luís Filipe Barreira. Num país com elevadas taxas de envelhecimento e em que as doenças crónicas e o seu acompanhamento assumem um peso cada vez maior , dados de um estudo da Nova SBE agora recordados pela OE indicam que entre 2017 e 2025, a prevalência de doença crónica em Portugal aumentou de 28% para 36% e a multimorbilidade (duas ou mais doenças crónicas) atingiu os 19%, após um aumento de 10 pontos percentuais , os enfermeiros terão, ou devem ter, um papel cada vez mais essencial, defende a Ordem. Este apelo reforça o que está contido no relatório do ICN para a generalidade dos países. “As exigências em matéria de cuidados de saúde passaram a centrar-se nas doenças crónicas, na multimorbilidade, no envelhecimento da população e na gestão a longo prazo das doenças. As doenças não transmissíveis, como as doenças cardiovasculares, a diabetes, as doenças respiratórias crónicas e o cancro, são actualmente responsáveis por 74% de todas as mortes a nível mundial e representam um encargo significativo para os sistemas de saúde em todo o mundo. A maioria destas doenças não requer uma única intervenção, mas sim cuidados coordenados e sustentados ao longo de anos ou décadas”, refere o relatório. Sendo os enfermeiros, ainda de acordo com este documento, os profissionais de saúde “que passam mais tempo em contacto directo com os doentes e têm um alcance alargado nas comunidades” e “fundamentais para a prestação de cuidados de saúde primários, preventivos e centrados na pessoa, essenciais para levar a saúde a todos e fazer face ao peso crescente das doenças não transmissíveis”, representam um pilar essencial, argumenta-se. Contudo, esta importância não está a encontrar correspondência nas condições que lhes são oferecidas. “Os enfermeiros abandonam os seus empregos ou a profissão devido ao burnout, a condições de trabalho e dotações inseguras, níveis inaceitáveis de violência no local de trabalho e baixos salários. Estamos também a subaproveitar os enfermeiros que temos, impedindo-os de utilizar plenamente a sua experiência e sobrecarregando-os com tarefas administrativas”, refere o relatório do ICN. tp.ocilbup@ohlavrac.aicirtap Os enfermeiros estão entre os profissionais de saúde em que os utentes mais confiam e são essenciais nos cuidados de proximidade, diz o relatório do ICN José Sérgio (Arquivo) Patrícia Carvalho