DIA INTERNACIONAL DO ENFERMEIRO: VALORIZAR COMPETÊNCIAS PARA FORTALECER O SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE
2026-05-12 21:06:17

Há sistemas que se cansam por falta de meios; outros cansam-se por não saberem usar bem o que já têm e o Serviço Nacional de Saúde vive um pouco dessa segunda forma de cansaço. Assinala-se o Dia Internacional do Enfermeiro numa altura particularmente exigente para o Serviço Nacional de Saúde. Fala-se diariamente de dificuldades no acesso aos cuidados, de serviços sob pressão e da necessidade de encontrar respostas que garantam qualidade e proximidade às populações. Mas talvez ainda se discuta pouco uma questão essencial: estaremos a aproveitar plenamente as competências dos profissionais que já existem dentro do sistema? A recente notícia publicada pelo PÚBLICO “SNS ficaria a ganhar se seguisse modelo inglês, que tem um maior mix de profissionais” trouxe para o debate público uma questão relevante: a necessidade de um maior equilíbrio e complementaridade entre os diferentes profissionais de saúde. O estudo compara o sistema de saúde português com o modelo inglês e conclui que uma maior complementaridade entre diferentes profissionais de saúde pode aumentar a capacidade de resposta dos serviços e melhorar a utilização dos recursos existentes. Não se trata de substituir profissões nem de criar divisões artificiais entre médicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas ou outros técnicos. Pelo contrário. Trata-se de aproveitar melhor as competências existentes e reforçar o trabalho em equipa. Quem trabalha no terreno sabe que os desafios atuais são muito diferentes dos de há algumas décadas. O envelhecimento da população, o aumento das doenças crónicas e a necessidade crescente de cuidados de proximidade exigem equipas multidisciplinares e modelos organizacionais mais modernos. Nesse contexto, os enfermeiros têm vindo a assumir um papel cada vez mais relevante. Seja nos cuidados domiciliários, na vacinação, na saúde escolar, na saúde mental, no acompanhamento da doença crónica, nos cuidados continuados ou na saúde materna, os enfermeiros são hoje um dos pilares da proximidade às populações. Apesar disso, continua muitas vezes a existir um desfasamento entre a responsabilidade efetivamente assumida e o reconhecimento dado à profissão. Importa também lembrar que a Enfermagem continua a ser uma profissão maioritariamente feminina. Durante muitos anos, as profissões ligadas ao cuidar, desempenhadas sobretudo por mulheres, foram sendo menos valorizadas do ponto de vista social e remuneratório. Essa realidade ainda deixa marcas evidentes nos salários, na progressão das carreiras e no reconhecimento atribuído aos profissionais.Valorizar os enfermeiros não deve ser visto apenas como uma questão laboral. É também uma questão de justiça e de visão estratégica para o futuro do sistema de saúde. Um exemplo claro dessa dificuldade em transformar orientações políticas em prática efetiva é o acompanhamento da gravidez de baixo risco por enfermeiras especialistas em saúde materna e obstétrica. Esta medida foi anunciada pelo Governo como uma forma de melhorar o acesso aos cuidados e de utilizar melhor os recursos já existentes no Serviço Nacional de Saúde. No entanto, a sua implementação continua limitada e desigual em várias regiões do país, deixando por concretizar uma resposta que poderia beneficiar grávidas, famílias e também os próprios serviços de saúde. Num sistema de saúde permanentemente pressionado, faz sentido aproveitar plenamente as competências diferenciadas que já existem. Não numa lógica de competição entre profissões, mas numa lógica de complementaridade, respeito mútuo e trabalho em equipa. Os cidadãos esperam cuidados acessíveis, próximos e de qualidade. E o Serviço Nacional de Saúde ganha sempre quando consegue valorizar os seus profissionais e permitir que cada um exerça plenamente as competências para as quais foi preparado. No Dia Internacional do Enfermeiro, mais do que palavras de circunstância, talvez seja este o debate que verdadeiramente importa fazer. Sérgio Sousa Mestre em Enfermagem de Saúde Pública; Enfermeiro Especialista de Enfermagem Comunitária e de Saúde Pública na ULSM; Enfermeiro Responsável do Serviço de Saúde Pública da ULSM; Coordenador Local da Equipa de Saúde Escolar da ULSM