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REPORTAGEM - GAIA NA FRENTE NO RASTREIO DO CANCRO DO PULMÃO

Gaiense (O)

2026-05-12 21:06:38

Saúde A prevenção é o melhor caminho para combater o cancro, principalmente o do pulmão. O Hospital de Gaia conseguiu ficar com este projeto posicionando-se à frente da concorrência Combater cancro do pulmão passa por Gaia » Margarida Dias, diretora do Serviço de Pneumologia da ULSGE (Unidade Local de Saúde Gaia-Espinho), e Firmino Machado, diretor da Unidade de Gestão de Planeamento, Inovação e Saúde das Populações, falaram do projeto pioneiro de rastreio do cancro do pulmão a funcionar no hospital. Qual a sua avaliação sobre a escolha da ULS Gaia/Espinho e Santa Maria para os projetos-piloto de rastreio ao cancro do pulmão? à escolha das ULS Gaia/Espinho e Santa Maria parece-me positiva e bem fundamentada. São duas estruturas com grande massa crítica, diferenciação clínica e capacidade para articular todo o percurso do utente, desde a identificação dos utentes elegíveis para o rastreio nos cuidados de saúde primários até à confirmação diagnóstica e ao tratamento em ambiente hospitalar. ê também relevante que uma unidade esteja na região Norte e outra na região de Lisboa e Vale do Tejo, permitindo testar o modelo em contextos populacionais e organizacionais distintos. Esta diversidade é importante para perceber como o rastreio funciona antes de o escalar a nível nacional. Há ainda um outro fator decisivo: ambas já tinham realizado um estudo prévio de implementação e, na ULS Gaia/ Espinho, já tínhamos inclusivamente começado a realizar localmente o rastreio, demonstrando capacidade de execução, equipas altamente preparadas e bons resultados. Ou seja, não se parte do zero; parte-se de unidades com experiência, com circuitos organizados e com condições para gerar evidência robusta sobre a forma de implementar este rastreio no SNS. Em que consistia esse trabalho prévio? à ULS Gaia/Espinho já tinha desenvolvido um programa de rastreio de iniciativa local, com o objetivo de melhorar os nossos indicadores de saúde. As doenças oncológicas são a principal causa de morte da nossa população e, entre elas, o cancro do pulmão continua a ser o que causa mais mortes. Sabemos que o rastreio do cancro do pulmão diminui a mortalidade em cerca de 25%, e conhecer esse impacto positivo foi o que nos motivou a avançar. Começámos simbolicamente no dia 1 de agosto de 2025, Dia Mundial da Luta contra o Cancro do Pulmão, porque acreditamos que este é um pilar fundamental para mudar o desfecho destes doentes. Neste momento, estamos a rastrear os doentes das várias USF, de forma faseada. ?té ao momento, já foram contactados mais de mil utentes, com uma ex-celente adesão, e já diagnosticámos sete casos de cancro do pulmão em fase inicial. Estamos atrasados em relação à Europa neste tipo de rastreio? O Conselho da União Europeia, em 2022, recomendou aos Estados-Membros que implementassem programas-piloto de rastreio do cancro do pulmão. Nos últimos anos, vários países europeus foram implementando os seus programas de rastreio. Em Portugal, havia uma enorme vontade de que o rastreio começasse: doentes, médicos de várias especialidades, associações de doentes, organizações científicas e decisores. é certo que começámos mais tarde do que vários países europeus, mas isso também pode ser visto como uma oportunidade. Podemos aprender com a experiência acumulada, perceber o que funcionou, o que falhou e, sobretudo, como otimizar a implementação desde o início. E é isso que vamos fazer. Em agosto de 2025, O Governo anunciou os projetos-piloto para Cascais e para a ULS Santo António, no Porto. Agora começa com Gaia/Espinho e Santa Maria. Como interpreta esta mudança? O Governo anunciou dois projetos-piloto para 2026, sem identificar formalmente quais seriam as instituições, apesar de ter sido noticiado que poderiam ser Cascais e a ULS Santo António. Acredito que a escolha atual traduza uma opção pragmática: avançar primeiro onde os circuitos estavam mais maduros, permitindo iniciar de imediato o rastreio do cancro do pulmão. Posteriormente, certamente outras instituições se juntarão a este projeto. Quais são os critérios do rastreio? A população a rastrear deve ser aquela com risco mais elevado de desenvolver cancro do pulmão. Os critérios definidos pela Direção-Geral da Saúde são: pessoas entre OS 55 e os 74 anos, fumadores ou ex-fumadores há menos de 10 anos, que tenham fumado pelo menos um maço de tabaco por dia durante 20 anos. Excluem-se os doentes que já têm diagnóstico de cancro do pulmão e os doentes com diagnóstico de outro cancro nos últimos três anos, uma vez que já dispõem de seguimento e vigilância próprios. ? rastreio consiste na realização de uma TAC torácica de baixa dose de radiação, uma vez por ano. Paralelamente, é oferecido apoio profissional para deixar de fumar a todos os utentes que manifestem essa vontade. Podemos dizer que o rastreio permite detetar a doença numa fase inicial, mas é deixar de fumar que reduz efetivamente o risco de desenvolver cancro do pulmão. Têm sentido que há adesão da população? A adesão entre as pessoas elegíveis e convidadas é de 96%. Este valor é superior ao verificado em qualquer outro programa de rastreio em Portugal e também quando comparado com programas de rastreio do cancro do pulmão a nível mundial. Este elevado valor justifica-se pela divulgação ativa junto da população, utilizando mensagens personalizadas e cocriadas com os utentes, garantindo a sua motivação para participar. Criámos também uma linha telefónica de apoio ao utente, dedicada ao programa de rastreio, que permite esclarecer qualquer questão em qualquer momento, antes, durante ou após O rastreio. Pelo facto de o programa estar a ser implementado pela primeira vez em Portugal, é fundamental investir numa divulgação contínua, de forma a manter a elevada participação da população. Para esse efeito, pretende-se manter a divulgação através de cartazes e outdoors, mas também através da comunicação social. Quantas pessoas já foram rastreadas? Qual o universo total de potenciais pessoas a rastrear? Estimamos que existam 7.122 utentes elegíveis para rastreio na ULS Gaia/ Espinho. Esta identificação é realizada com base no centro de saúde de inscrição do utente, abrangendo, neste caso, os utentes inscritos nos centros de saúde dos municípios de Gaia e Espinho. Neste momento, já foram contactados 1.037 utentes, dos quais 795 são elegíveis e, destes, 759 aceitaram realizar o rastreio. Dos 759 utentes, 457 já realizaram efetivamente o exame, estando os restantes calendarizados para execução nos próximos dois meses. Qual o número de cancros detetados? Em que faixa etária? Foram identificados, até ao momento, 75 utentes com teste de rastreio positivo, os quais se encontram ainda em avaliação. Destes, já foi possível diagnosticar um total de sete casos de cancro do pulmão. Todos os utentes identificados encontram-se no grupo etário elegível para rastreio, ou seja, entre os 55 e OS 74 anos. Qual a origem do financiamento para que o rastreio funcione? ? financiamento do programa é assegurado pelo orçamento-programa anual da ULS Gaia/Espinho, mas também por uma fonte de financiamento competitivo externo, que suporta a implementação do rastreio para os primeiros 2.000 utentes. Espera-se que a tutela assuma uma parte do financiamento do programa de rastreio do cancro do pulmão na ULS Gaia/Espinho ainda durante o ano de 2026, o que permitirá alargar o programa a todos os utentes elegíveis. Prevenção "é importante que este exame seja feito" » "Cheguei ao hospital depois de ter feito a rotina habitual de exames anuais. Depois disso, o meu médico mandou-me fazer este rastreio contra o cancro do pulmão, principalmente porque sou fumador há muitos anos, mas não em grande quantidade. Sei que isso faz muito mal e quero deixar de fumar”. Em relação a todo o processo, Manuel Catarino, que chegou ao hospital para fazer o exame, lembrou: “Primeiro respondi a um questionário e só depois é que fiz o rastreio. Entretanto, já tenho uma consulta marcada com o meu médico para me dizer qual o resultado. A partir daí é que vou saber como estão as coisas e se é necessário fazer algo mais, consoante os resultados deste rastreio. Acho muito importante que este exame seja feito para que se previnam situações mais graves no futuro”. CM Hospital de Gaia passa a ter um centro para detetar tumores Margarida Dias e Firmino Machado, os médicos responsáveis do projeto O rastreio do cancro do pulmão diminui a mortalidade em cerca de 25% Esta é a máquina que ajuda a detetar tumores nos pulmões Manuel Catarino, 68 anos Carla Marques