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ONZE PAÍSES EUROPEUS APROVAM PLANO CONJUNTO PARA TRAVAR QUEBRA DA FERTILIDADE

Atlântico Expresso

2026-05-12 21:06:38

Europa chamada a tratar a fertilidade como prioridade pública, social e económica, com medidas coordenadas entre países: educação reprodutiva nas escolas, licença parental universal, apoio às famílias e acesso a tratamentos de fertilidade entre as prioridades definidas em Lisboa. Representantes de 11 países europeus aprovaram em Lisboa um conjunto de medidas prioritárias para responder à queda da natalidade e reforçar a necessidade de condições favoráveis à parentalidade, no âmbito da cimeira europeia Tackling Infertility, promovida pela Merck, com o apoio da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, da Sub-especialidade de Medicina da Reprodução da Ordem dos Médicos e da Associação Portuguesa de Fertilidade. Especialistas e decisores defenderam que a Europa precisa de deixar de olhar para a fertilidade como um tema marginal e passar a encará-la como uma prioridade pública, social e económica, perante uma das mais profundas transformações demográficas da sua história. A cimeira ficou ainda marcada por uma sessão conjunta de trabalho que reuniu representantes de países europeus, com o objectivo de identificar medidas prioritárias para responder à quebra da fertilidade e criar condições mais favoráveis à parentalidade. Após um processo colaborativo e votação estruturada, os participantes definiram prioridades comuns em três eixos estratégicos: literacia, trabalho e acesso. Na área da literacia, as principais recomendações passam por reforçar a educação sobre fertilidade e saúde reprodutiva nas escolas e plataformas digitais, garantir programas gratuitos de rastreio da fertilidade e aumentar a vontade política para colocar a fertilidade e as políticas familiares no centro da agenda pública. No eixo laboral e do acesso, os países defenderam medidas estruturais nas empresas para compatibilizar carreira e parentalidade, licenças licença parental universal e totalmente remuneradas para ambos os progenitores, cobertura dos tratamentos de fertilidade pelos seguros de saúde em condições idênticas a outras patologias e criação de incentivos financeiros que reconheçam o impacto económico das decisões familiares. As conclusões refletem um consenso europeu crescente de que a resposta à crise demográfica exige políticas integradas e de longo prazo. Painel europeu | Especialistas pedem coordenação e resposta estrutural No debate principal do encontro, Luca Gianaroli, diretor global de programas de educação da Federação Internacional de Sociedades de Fertilidade, Mónica Ferro, directora do Fundo das Nações Unidas para a População, e Marta Temido, deputada ao Parlamento Europeu e ex-ministra da Saúde, defenderam que o desafio exige respostas estruturais e maior coordenação europeia. Luca Gianaroli descreveu a Europa como “um mosaico”, com países em fases muito distintas de resposta, mas confrontados com problemas comuns. O especialista defendeu uma estratégia baseada em prevenção, preservação da fertilidade e modernização dos modelos de parentalidade, sublinhando que “sem investigação, não há evolução” e que os tratamentos de fertilidade devem ser encarados com a mesma prioridade de outras áreas da saúde. Mónica Ferro apresentou conclusões de um inquérito realizado em 14 países, que confirma que a maioria das pessoas quer ter filhos, mas enfrenta obstáculos significativos. Quase metade dos inquiridos apontou razões económicas, como custo de vida, habitação e despesas com crianças, enquanto cerca de um quarto referiu barreiras ligadas à saúde, incluindo falta de acesso a cuidados e desconhecimento sobre fertilidade. A responsável sublinhou que “a pergunta certa não é quantos filhos a sociedade precisa, mas quantos filhos as pessoas querem ter e o que as impede de o concretizar”. Já Marta Temido reconheceu que a resposta europeia continua fragmentada, uma vez que a saúde permanece sobretudo na esfera dos Estados-membros. Ainda assim, defendeu que a União Europeia pode mobilizar financiamento, investigação e instrumentos políticos para acelerar respostas comuns, salientando que a fertilidade “deve ser entendida como parte do acesso universal e equitativo aos cuidados de saúde”. No painel dedicado à realidade portuguesa, Luís Ferreira Vicente, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, Rita Sá Machado, directora-geral da Saúde, e Luís Goes Pinheiro, presidente do Conse-lho de Administração dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, defenderam que Portugal precisa de actuar em simultâneo na prevenção, no acesso a cuidados e nas condições dadas às famílias. Rita Sá Machado destacou o papel da literacia em saúde e da educação sexual e reprodutiva ao longo da vida, defendendo que “as pessoas precisam de informação credível para decidir em liberdade”. A responsável revelou ainda que Portugal prepara um Programa Nacional para a Saúde Sexual e Reprodutiva e assinalou uma mudança estrutural no sistema assistencial: a tradicional consulta de planeamento familiar evolui para consulta de saúde sexual e reprodutiva, cinquenta anos depois da implementação desta resposta no país. A responsável sublinhou também a importância dos cuidados de saúde primários na detecção precoce de riscos e no encaminhamento atempado. Luís Ferreira Vicente alertou para o impacto do adiamento da parentalidade e para a falta de conhecimento generalizado sobre fertilidade feminina e masculina. O especialista defendeu que “temos de falar mais cedo sobre fertilidade e não apenas quando surgem dificuldades”, sublinhando ainda a necessidade de dar maior visibilidade à infertilidade masculina, ainda pouco presente no debate público. Já Luís Goes Pinheiro destacou o contributo da transformação digital e da integração de dados para melhorar respostas clínicas e reduzir atrasos no sistema, sublinhando que a interoperabilidade entre sistemas de informação é fundamental para garantir continuidade assistencial, acelerar referenciações e disponibilizar aos profissionais uma visão mais completa do percurso do utente. O responsável defendeu que “melhor informação permite melhores decisões e respostas mais rápidas”, através de sistemas mais interoperáveis e centrados no cidadão.