O FIM DO TRABALHO COMO O CONHECEMOS
2026-05-12 21:06:44

A transformação em curso, provocada pela inteligência artificial, pela automação e pelos humanoides, não é intrinsecamente boa nem má. O que determinará o seu impacto é a capacidade de chegarmos a ela com um modelo económico e social preparado para a absorver. A inteligência artificial, a automação e os humanoides não estão a criar mais uma revolução industrial. Estão a redefinir o que significa trabalhar - em todas as indústrias, ao mesmo tempo. O modelo económico actual não sobrevive a essa transição sem mudanças estruturais profundas. Sou pai de dois filhos. É a minha maior responsabilidade, alegria, e, também, o que me faz olhar para o que está a acontecer à economia global com uma urgência diferente. Que sociedade vão herdar? Que trabalhos vão existir? De que competências vão precisar? Que modelo económico os vai acolher ou marginalizar? Em 1988, a Kodak tinha 145.000 funcionários e dominava 90% do mercado fotográfico mundial. Em Abril de 2012, o Instagram foi vendido ao Facebook por mil milhões de dólares, com 13 funcionários, dois anos de existência e zero receitas. Uma equipa que cabia numa carrinha substituiu um império que levara décadas a construir. Não foi uma disrupção súbita, foi uma transição que durou décadas e que a maioria ignorou até ser tarde demais. O padrão repete-se hoje, em maior escala e em maior velocidade, em todos os sectores em simultâneo. A diferença é que desta vez não é uma indústria que está a ser substituída, é o próprio conceito de trabalho. Antes confinados a laboratórios, os humanoides já são uma realidade no espaço de trabalho. A Tesla Optimus está em linhas de produção activas. O Figure 02 já operou durante 10 meses nas linhas de produção BMW, contribuindo para o fabrico de 30.000 automóveis, entretanto substituído pelo Figure 03. A projecção conservadora do Goldman Sachs coloca entre 300 e 400 milhões de postos de trabalho globais expostos à substituição nas próximas duas décadas, e a projecção não conservadora fala da maioria da força laboral actual. Pela primeira vez, nenhum sector permanece imune: o trabalho cognitivo, criativo e relacional está tão exposto quanto o físico e repetitivo. O director-adjunto da CIA, Michael Ellis, revelou recentemente que, dentro de uma década, a Agência prevê que a IA passe de ferramenta a “colega de trabalho” autónomo, integrado nas plataformas analíticas, a trabalhar lado a lado com os analistas humanos. Não para substituir o raciocínio, mas para o amplificar. As empresas e os governos que ainda tratam a IA como experiência tecnológica estão a gerir o presente com a mentalidade do passado. A questão não é se vai acontecer. É quando. E o “quando” é mais próximo do que os modelos económicos convencionais admitem. Os governos têm respondido a estas vagas com requalificação profissional. É necessária, mas nunca ocorre à velocidade da transformação. Desta vez, a distância entre as duas velocidades é maior do que alguma vez foi. A lógica do problema é simples, o que torna o diagnóstico ainda mais perturbador. Quando a tecnologia substitui o trabalho em escala suficiente, a cadeia parte: sem rendimento, não há consumo; sem consumo, a economia contrai. O modelo fiscal actual foi desenhado para uma realidade em que o trabalho humano gerava a maior parte do valor e pagava a maior parte dos impostos. Esta realidade está a mudar rapidamente e o modelo não está a acompanhar. Cada sistema de IA, ou automação, que substitui um trabalhador, retira receita fiscal ao Estado, contribuições à segurança social e poder de compra ao mercado, sem que nada no modelo actual capture esse custo. Uma concentração de riqueza sem redistribuição não interessa a ninguém. Nem às próprias empresas. A IA precisa de clientes. Uma economia onde a riqueza se concentra num número cada vez mais restrito de mãos não é capitalismo a funcionar bem. É capitalismo a destruir as condições da sua própria sustentabilidade. As empresas que adoptam a automação e a IA precisam de mercado. Mercado pressupõe consumidores com rendimento. E este rendimento, numa economia em transição, não se produz sozinho. Há três mudanças estruturais que se impõem, e que precisam de ser pensadas em conjunto. Isoladas, nenhuma resolve o problema. A primeira é o Rendimento Básico Universal (RBU), entendido não como medida assistencial, mas como infraestrutura económica. Se os ganhos de produtividade gerados pela inteligência artificial e pelos humanoides não chegarem às pessoas, o mercado implode por falta de procura. O RBU é o mecanismo que garante a circulação da riqueza criada pela tecnologia e preserva a coesão social de que o próprio capitalismo necessita para funcionar. A crítica mais comum ao RBU é que um valor fixo nunca acompanhará os preços e a assimetria crescente entre quem detém a tecnologia e quem trabalha para ela. É uma crítica válida, se o RBU for pensado como um cheque mensal numa economia de preços estáticos. Mas não é essa a economia que se aproxima. Quando Elon Musk prevê humanoides a $20.000-$25.000 produzidos em massa até 2040, está a descrever uma força de trabalho disponível ao custo de um carro. Uma fábrica que hoje emprega mil pessoas passa a operar com robôs que se pagam em meses. O impacto é estrutural, uma vez que a tecnologia comprime os custos de produção, logística e serviços repetitivos de forma permanente. O que hoje custa 100 pode custar 20. Neste cenário, um RBU generoso - não simbólico, mas suficiente para garantir qualidade de vida superior à actual - torna-se financeiramente sustentável, precisamente porque a tecnologia que o financia também reduz o custo dos bens que as pessoas adquirem com ele. Não é redistribuição de escassez, é, pelo contrário, distribuição de abundância produzida por máquinas. O modelo tem limites: há bens, habitação, saúde, cuidados, que nenhuma automação torna abundantes, e que exigem políticas próprias. Mas esse é outro debate. O novo modelo económico não é socialismo nem capitalismo puro. É algo que ainda não tem nome; uma economia de abundância tecnológica com redistribuição inteligente. Quem o construir primeiro define as regras para todos os outros. A segunda é a revisão do modelo fiscal, de forma que seja a tecnologia a suportar os custos da transição que ela própria provoca. A IA e a automação que substituem trabalho humano devem contribuir para o financiamento do Estado e do RBU. Isto não significa travar a inovação: I&D deve continuar a beneficiar de incentivos fiscais agressivos. A distinção relevante é entre tributar a substituição de trabalho existente e tributar a criação de tecnologia nova. Uma financia a transição; a outra construiria um obstáculo ao progresso. Em paralelo, os rendimentos do trabalho têm de ser aliviados fiscalmente para preservar o poder de compra das famílias. A IA precisa de clientes. A terceira mudança diz respeito ao papel do Estado. Não se trata de um Estado mais pequeno por princípio ideológico, mas de um Estado mais focado naquilo que só ele pode garantir: saúde como direito universal e não como mercadoria, educação profundamente reformulada, justiça, defesa e segurança, e supervisão efectiva de mercados cada vez mais concentrados e tecnologicamente complexos. Um Estado que renuncia ao que o mercado faz melhor, liberta recursos, reduz a carga fiscal sobre pessoas e empresas e cria as condições para que a inovação se desenvolva sem depender de subsídios públicos mal direccionados. Contudo, cortar despesa sem aliviar impostos não liberta liquidez, apenas a transfere para os credores. E investir em tecnologia sem assegurar controlo sobre a infraestrutura crítica, não constrói soberania, financia dependência. Um Estado que faz menos, mas faz bem, cria as condições para que pessoas e empresas façam mais. A transformação em curso, provocada pela inteligência artificial, pela automação e pelos humanoides, não é intrinsecamente boa nem má. O que determinará o seu impacto é a capacidade de chegarmos a ela com um modelo económico e social preparado para a absorver. Se não o fizermos, o mercado produzirá, sem regulação e sem redistribuição, uma concentração de riqueza e de poder sem paralelo na história recente, com consequências previsíveis para a paz social e para a coesão das nossas sociedades. O caso da Kodak e do Instagram não é apenas uma história sobre tecnologia. É uma história sobre a capacidade, ou incapacidade, de adaptação. A Kodak sabia que o digital estava a chegar - tinha, aliás, inventado a câmara digital em 1975, mas optou por proteger o modelo antigo em vez de liderar a construção do novo. Não foi a concorrência que os destruiu, foi a incapacidade de agir sobre aquilo que todos já sabiam. Países e sociedades estão hoje perante uma escolha semelhante. O problema não é a falta de tempo. É a ilusão de que ainda há tempo para não agir. Um dia, se os meus filhos me perguntarem o que pensávamos enquanto ocorria esta transformação, gostaria de lhes poder dizer que, pelo menos, tentámos pensar o tema com seriedade. A Kodak não foi destruída pela tecnologia. Foi destruída pela ilusão de que tinha tempo. Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico CEO da LinkGlobal, e com investimentos em cibersegurança e inteligência artificial Reinaldo Martins Teixeira - CEO da LinkGlobal 18:04 Seguir Seguir autor: Reinaldo Martins Teixeira Irá começar a seguir os autores e receber alertas no seu email. Gerir o que já está a seguir Receba um alerta no seu email de registo, a cada novo artigo publicado. Fique atento ao seu email de registo. Deixou de seguir Reinaldo Martins Teixeira - CEO da LinkGlobal