PORTO - MARCOLINO FIEL À ARTE DA PACIÊNCIA
2026-05-14 06:31:03

A celebrar 100 anos de história, a joalharia e relojoaria continua a acertar o relógio mecânico da torre dos Paços do Concelho do Porto, enquanto prepara uma nova loja com arquitetura de Siza Vieira No coração do Porto, na Rua de Santa Catarina, na emblemática esquina com a Rua de Passos Manuel, ergue-se muito mais do que uma joalharia e relojoaria vive ali uma casa onde o tempo se guarda, se honra e se transmite de geração em geração. Essa casa chama-se Marcolino. A história da Marcolino começa em 1926, quando António Marcolino, apaixonado pela arte da relojoaria, abriu a sua primeira loja na Rua de Santo Ildefonso. Numa época em que possuir um relógio significava progresso, distinção e precisão, António não fundou apenas um negócio, lançou as bases de uma referência que se tornaria parte da própria identidade da cidade. Onze anos mais tarde, em 1937, a Marcolino mudou-se para a Rua de Santa Catarina, onde permanece. Esta localização, numa das zonas mais vibrantes do Porto, transformou rapidamente a loja num marco urbano. Ao longo dos anos, a Marcolino soube evoluir sem nunca perder a sua essência. Em 1962, sob a liderança de Adriano Magalhães, preservou o prestígio e a especialização técnica. Em 1970, José Moura, oriundo de uma família de ourives, trouxe renovação estética e funcional, reforçando o carácter distinto da casa. Mas foi a partir de 1980, com a entrada da família Neves, que a Marcolino iniciou uma nova era.com raízes profundas na tradição da ourivesaria, os Neves apostaram na expansão para a alta relojoaria e joalharia de luxo, elevando a casa a um patamar internacional. Paulo Neves, representante da quarta geração, recorda com orgulho um dos momentos mais simbólicos dessa afirmação: “Foi a própria Rolex que nos escolheu. Havia concorrentes dispostos a pagar para a representar, mas nós fomos escolhidos sem pagar. Isso diz tudo.” Essa escolha tornou-se um selo de excelência. A Marcolino consolidou-se como representante da marca suíça (apesar de fundada em Londres) no Porto, ao lado de outras de prestígio como Omega, Tudor, Zenith, IWC, Hermés, Montblanc, Messika e Blancpain. Hoje, ao lado de Miguel Neves, quinta geração da família, Paulo continua a unir herança artesanal e visão contemporânea. Para celebrar o centenário, adquiriram o emblemático edifício em frente à loja histórica, onde se encontra o célebre Café Majestic, também centenário (1921), e preparam uma nova loja de luxo, com arquitetura assinada por Siza Vieira, projetando a Marcolino para o futuro sem romper com o passado. MâOS PACIENTES Atualmente, a Marcolino divide-se em dois conceitos complementares: Marcolino 1926, a principal e histórica, permanece como templo da alta relojoaria e da joalharia, atraindo clientes portugueses e internacionais, sobretudo dos EUA, do Reino Unido, do Brasil e da China. Marcolino Link, mais jovem e irreverente, apresenta uma linguagem contemporânea, pensada para novas gerações, sem abdicar da exigência e da sofisticação que definem a marca. Mas o verdadeiro coração da Marcolino não está apenas nas montras brilhantes ou nas grandes marcas internacionais Está na oficina, discretamente instalada ao lado da loja histórica. Entre ferramentas antigas, engrenagens minúsculas e mãos pacientes, sobrevive uma arte rara: a da relojoaria tradicional. Num mundo onde quase tudo se substitui, ali ainda se repara, restaura e preserva. A oficina é mais do que um espaço técnico, é uma escola de conhecimento vivo, onde jovens aprendizes recebem formação especializada e convivem com mestres que transformam precisão em legado. Entre esses mestres destaca-se Adérito Rio Fernandes, há mais de três décadas ligado à Marcolino. Tornou-se uma figura essencial, ainda que muitas vezes discreta, na preservação do património mecânico da cidade. Há 26 anos que é responsável pela manutenção do relógio mecânico da torre dos Paços do Concelho do Porto, na Avenida dos Aliados. Filho de relojoeiro, herdou do pai o fascínio pelos mecanismos complexos. Quando assumiu a manutenção da centenária máquina inglesa da Câmara Municipal, sem peças de substituição e com quatro mostradores, encontrou um desafio que muitos considerariam impossível. Onde outros viam um problema sem solução, Adérito viu uma missão. Estudou cada detalhe, desmontou a máquina, descobriu-lhe os segredos e, com engenho artesanal, fabricou manualmente peças inexistentes. Corrigiu falhas, afinou sistemas e devolveu ao relógio da cidade unidade e precisão. Duas vezes por ano, em março e em outubro, quando a hora muda, Adérito sobe à torre para ajustar manualmente o mecanismo. Um gesto aparentemente simples, mas profundamente simbólico. “Modernizá-lo seria perder a sua história”, afirma. Esta frase resume não apenas a sua filosofia, mas também a essência da própria Marcolino. Ao longo de quase um século, a Marcolino foi muito mais do que uma relojoaria ou joalharia. Foi guardiã de saberes e testemunha das mudanças sociais, culturais e comerciais do Porto. Foi a casa onde colecionadores procuraram Swatch raros, onde apaixonados pela alta relojoaria encontraram peças únicas, onde alianças marcaram casamentos e relógios atravessaram gerações. Mas, acima de tudo, foi sempre um lugar onde o tempo não é apenas medido, é respeitado. Num mundo cada vez mais acelerado, a Marcolino permanece fiel à arte da paciência, do detalhe e da continuidade. Tal como o relógio da torre dos Paços do Concelho, continua a funcionar não porque não foi substituída pela modernidade, mas porque houve e há quem saiba cuidar dela. E, enquanto existirem mestres como Adérito, famílias como a Neves e uma cidade que honra a sua memória, a Marcolino continuará a marcar com elegância, precisão e alma o tempo do Porto. NV visao@visao.pt A Precisão Duas vezes por ano, Adérito Rio Fernandes sobe à torre dos Paços do Concelho do Porto para ajustar manualmente o relógio mecânico 66 Entre ferramentas antigas, engrenagens minúsculas e mãos pacientes, sobrevive uma arte rara: a da relojoaria tradicional a Família Paulo Neves (à direita) e Miguel Neves mantêm a herança artesanal e a visão contemporânea do negócio LUCÍLIA MONTEIRO