EXPOSIÇÕES
2026-05-15 07:03:03

Sejamos realistas, esta não foi a melhor aposta A mostra inaugural do Muzeu não cumpre com todas as expectativas que gerou. Luísa Soares de Oliveira Sejamos Realistas, Exijamos o Impossível Vários artistas BRAGA. Muzeu , Pensamento e Arte Contemporânea dst. Praça do Município, 62. De. 3a a domingo, das 11h às 19h. 54, das 11h às 23h. Encerra aos feriados. Exposição de longa duração. Comecemos por indicar desde já aquilo que este novo museu ou Muzeu, o nome que lhe foi dado , tem de muito bom: a nítida vocação filantrópica do seu proprietário, o empresário José Teixeira, da empresa dstgroup, que leva-o a querer partilhar a sua colecção não apenas na própria empresa, como já vinha a fazer há anos, mas na comunidade urbana; em segundo lugar, o próprio edifício, uma obra arquitectónica marcante, com boas áreas, bem adaptada para uma instituição museológica; e, em terceiro lugar, a sua nítida adopção pela cidade e pelos seus habitantes. No dia em que o visitámos, uma quinta-feira em que não se pagava bilhete ,, as salas estavam cheias de jovens que tiravam selfies e grupos de reformados que ali tinham ido passear. ã partida, esta é uma boa aposta em Braga. A comparação com outras instituições relativamente próximas não colhe: tanto em Guimarães como em Bragança, os dois centros de arte aí existentes dedicam-se à obra dos artistas que os fundaram, José de Guimarães e Graça Morais, com programações interessantes que os colocam em relação com outros artistas. Quanto aos museus e centros de arte que abrigam colecções privadas, como sucede em são João da Madeira, debatem-se com estrangulamentos orçamentais e municipais que não existirão aqui à partida. Logo, o Muzeu tem tudo para se transformar num pólo importante da arte contemporânea no Norte do país. Não conhecemos a colecção de José Teixeira. Diz-se que terá cerca de 1500 obras, com alguns núcleos mais sólidos de artistas que intervieram no próprio campus empresarial do coleccionador. Por agora, só podemos avaliar o que está neste Muzeu, inaugurado com pompa presidencial em Abril, e com cerca de 100 obras com uma contabilidade bem enunciada pela directora, Helena Mendes Pereira: "84 artistas, 44 nacionais e 40 internacionais, representativos de 16 países, 57 homens, 27 mulheres” , ou seja, nada nos diz da qualidade das obras, da relação que estabelecem umas com as outras, da possibilidade que õnos dão, a nós, visitantes, de as compreender e apreciar como elas merecem. Mendes Pereira escolheu um dos vários slogans do Maio de 68 = “Sejamos realistas, exijamos o impossível” para montar uma exposição geral que obedece a este propósito muito meritório de realizar uma revolução, se não na arte, pelo menos no modo de ver e apresentar a arte. Fala correctamente do fim de uma narrativa da história da arte que tem lugar nos anos 60, mencionando uma mudança que substituía “a morte da arte” e “uma arte sem obra de arte” por “um desdobramento de linguagens”, e por uma arte que “deixou de depender de qualquer autoridade ou tradição”, o que na verdade já sucedia desde finais do século XIX. Isto justifica uma montagem confusa, sem qualquer critério qualitativo, e onde obras importantes e maiores coabitam lado a lado com outras menores. Cveto Marsic ao lado de Candida Hõfer, a sério? o critério passou a ser, não a passagem da arte modernista para a arte contemporânea (que é o que verdadeiramente sucede a partir do pós-Segunda Guerra Mundial), mas o colocar o máximo de obras em exposição, em paredes monótonas repletas de pinturas e/ou fotografias, equidistantes umas das outras, sem que se perceba o porquê de cada escolha. Em suma, o único critério que aqui se parece honrar é o do gosto do coleccionador: como chegou ao coleccionismc (via Alberto Péssimo, um artista local com obras próximas demais de uma das “estrelas” da colecção, Picasso), quais os artistas que levou para o campus da sua empresa (a geração surgida nas décadas de 80 e 90, com a qual tem afinidades geracionais), aqui expostos no piso inferior, e depois os felizes acasos ditados pelo seu gosto e pelas possibilidades do mercado, como sempre sucede com os grandes coleccionadores privados. Há, de facto, coisas muito boas, e surpreendentemente boas destaque para a pintura de Paula Rego, maravilhosa, a escultura de Rui Chafes, as portas do Muzeu, por José Pedro Croft, e o grande núcleo dedicado a Helena Almeida. Há também coisas que nos deixam perplexos. Uma parede inteira dedicada à imagem do papa pintada por Velázquez, depois por Bacon, e aqui por Cabrita Reis, que cola, no canto da sala, com obras menores de ãngelo de Sousa, imediatamente seguidas por um Manuel Casimiro... porquê, porque cabia? O Picasso já mencionado (uma gravura) abre um pequeno corredor onde está um trabalho em vídeo de ãngela Ferreira e outras peças que parecem estar aqui porque não havia outro lugar onde as mostrar... E depois há o famoso Olimpo, a sala dedicada a Anselm Kiefer, introduzida por uma frase da directora que diz tudo: “Se OS artistas são os seres humanos que mais se aproximam da eternidade dos deuses, então chegámos ao Olimpo”. Kiefer, de facto, se não se considera a si próprio como um deus, anda lá perto , basta lembrarmos o filme Anselm, que Wim Wenders lhe dedicou em 2023, onde surgia, qual grande homem, passeando de bicicleta por entre as obras gigantescas no seu atelier. Acontece que o Romantismo, o último movimento que considerou os artistas seres excepcionais, já acabou há muito tempo. Não são seres excepcionais, são pessoas com talento que trabalham muito, muitíssimo, para chegar onde chegam. Kiefer, que sempre foi um artista politicamente ambíguo, está hoie orientado para as grandes colecções museológicas. Trabalha em grande escala, um truque conhecido (e usado também por alguns portugueses e portuguesas) para impor uma presença esmagadora no espaço sem grande esforço do pintor. As peças que vemos neste Olimpo são todas recentes, já integradas nesta fase mais comercial do artista, e exigiriam mais espaço para serem realmente eficazes. Ou então, como sucede em todo o museu, menos peças na parede. O Maio de 68 não é o começo da “democratização da arte”, como diz a directora do Muzeu. E, como a nossa revolução e as outras suas contemporâneas (Grécia, Espanha), o fim de um processo de democratização da vida começado dois séculos antes e que chega aqui à sua conclusão. A arte da segunda metade do século xx (há muito poucos artistas revelados mais recentemente) faz parte dessa democratização, e é a materialização de linguagens individuais e exigentes, de onde o espírito de vanguarda desapareceu por completo. Estamos curiosos com o que a próxima montagem deste Muzeu trará. O Muzeu tem tudo para ser um pólo importante da arte contemporânea, mas a exposição inaugural deixa a desejar