pressmedia logo

AIR INVICTUS JÁ GARANTIU 5,39 MILHÕES DE APOIOS, MAS AINDA AGUARDA AUTORIZAÇÃO

Público

2026-05-19 06:00:06

Turismo de Portugal e quatro autarquias aprovaram apoios antes de autorização ser pedida. Evento que quer levar aviões às margens do Douro é organizado por empresa unipessoal criada em 2023 O Air Invictus, evento que promete levar de novo os aviões às margens do Douro nos dias 19 e 20 de Junho, já garantiu 5,39 milhões de euros de apoios públicos, embora ainda não tenha a autorização oficial da Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC) para acontecer. O pedido para a realização do evento foi entregue após os municípios aprovarem os apoios financeiros em reuniões dos executivos e muito depois de os anunciarem publicamente: as câmaras do Porto e Gaia darão 425 mil euros, as de Matosinhos e Maia entregarão 325 mil. O Turismo de Portugal concederá um apoio de 3,89 milhões. Há dias, após uma reunião com os organizadores do evento e a Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo (APDL), a Associação das Actividades Marítimo-Turísticas do Douro (AAMTD), presidida pelo empresário Mário Ferreira, sublinhou em comunicado uma posição “firme e inequívoca” face ao evento. Para os empresários do sector, o Air Invictus “não pode avançar sem que os seus operadores disponham de respostas concretas, formais e escritas sobre os impactos na navegação nas infra-estruturas e na actividade económica de quem trabalha no Douro todos os dias do ano”. Ao PÚBLICO, Mário Ferreira nega uma oposição directa ao festival ou qualquer pedido de compensação financeira. Sobre os impactos do Air Invictus e a existência de um contacto prévio dos organizadores com as suas empresas do sector do turismo fluvial, afirma que lhes foi dito que o evento “não teria nenhum impacto directo na actividade dos cruzeiros” e que “só muito recentemente foram as empresas de navegação no Douro chamadas a reunir na APDL, e perceberam o que se estaria a passar”. A associação sublinhou o facto de ainda não haver uma “autorização definitiva” da ANAC, considerando que o calendário definido para que seja concedida é “simplesmente incompatível com a realidade operacional dos seus associados”. “Os operadores marítimo-turísticos planeiam a sua actividade com dois a três anos de antecedência.” A ANAC confirmou ao PÚBLICO que o Air Invictus lhes foi apresentado a 3 de Março, mas que o pedido de autorização foi recebido apenas a 3 de Maio. A decisão ainda não foi tomada, estando a ANAC a “analisar o requerimento apresentado” e tendo “30 dias” para responder. Ou seja, a confirmação de que o evento pode mesmo avançar pode chegar já no mês para o qual está programado. O Air Invictus, espécie de sucessor da Red Bull Air Race, é organizado pela Bravimaginação, uma empresa unipessoal, criada em Setembro de 2023, e que tem apenas um trabalhador associado, o próprio sóciogerente, Luís Castro. O empresário, que já foi jornalista, preside a Casa do Pessoal da RTP e é apresentador de televisão, nomeadamente do programa Sociedade Civil. Em 2017, já havia fundado a Happiness Condition, também organizadora de eventos desportivos. Ao PÚBLICO, Luís Castro diz que o festival aéreo Air Invictus está a ser pensado desde Janeiro de 2025 “com verbas próprias”. A maior fatia do orçamento, porém, vem de apoios públicos, já que o evento está orçamentado em 7,5 milhões e 5,3 são concedidos pelo Turismo de Portugal e autarquias já referidas. A última edição da Red Bull Air Race custou seis milhões de euros, tendo os municípios do Porto e de Gaia concedido apoios de 225 mil euros, pouco mais de metade do que dão agora. Os apoios municipais não ficaram isentos de contestação. No Porto, o vereador Miguel Corte Real votou contra a proposta, alegando que a mesma não assegurava uma série de requisitos, como a credibilidade da entidade promotora, a segurança e a compensação financeira do município. Além disso, não identificava os “custos indirectos” que deverão acrescer aos 425 mil euros de apoio. Numa declaração de voto, o representante do Chega sublinhou também que “70% dessa verba [do investimento público total], ou seja, mais de 3,7 milhões de euros, serão entregues meses antes da realização do evento a uma empresa unipessoal constituída em 2023, com apenas cinco mil euros de capital social”. Os vereadores do autarca Pedro Duarte e o PS aprovaram a proposta. Em Gaia, os socialistas tiveram outra opinião. João Paulo Correia votou contra o apoio anunciado por Luís Filipe Menezes ainda na campanha eleitoral, argumentando que os apoios indirectos poderão chegar a um milhão de euros. Em Matosinhos, a proposta passou com abstenções do PSD e do Chega. Na Maia, o Chega votou contra. Sobre os timings dos apoios, aprovados antes de haver garantia de que o evento pode acontecer, Luís Castro diz estar a cumprir os prazos exigidos pelas autoridades que regulam o sector e mostra-se optimista: “A equipa que elaborou esse pedido de autorização é a mesma que tem liderado mais de 80% dos processos análogos referentes a todos os outros festivais aéreos efectuados em Portugal nas últimas duas décadas”, aponta. Acrescenta que “nunca qualquer pedido feito pelas equipas e empresas contratadas pela Bravimaginação foi negado” e que os eventos por si organizados não registaram, até hoje, “qualquer acidente ou incidente”. No comunicado emitido há dias, a AAMTD exigia saber quais os impactes objectivos deste evento no turismo fluvial do Douro. Sobre isso, Luís Castro limita-se a dizer que os mesmos “estão a ser avaliados pelas entidades competentes”. O empresário refere que a Bravimaginação “tem experiência em grandes eventos”. Segundo dados públicos, a empresa organizou dois eventos com contratos públicos. Em 2024, geriu a passagem da Volta a Espanha por Lisboa com um contrato de 69 mil euros com o município; em 2025, a Câmara da Covilhã pagou 74.950 euros por serviços para o evento “Pedala Portugal Covilhã City Bike Tour”; a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária também contratualizou a promoção de mensagens de segurança rodoviária por 35 mil euros. O Air Invictus, “com compensação carbónica a 100%”, espera atrair um milhão de pessoas (300 mil estrangeiros) e ter um retorno económico de um milhão de euros, valor com o qual o ministro da economia, Castro Almeida, já se congratulou, considerando a iniciativa “relevante” para o “crescimento económico”. Na resposta enviada ao PÚBLICO, Luís Castro sublinha o facto de o evento ser de livre acesso (excepto nas áreas reservadas), envolver empresas portuguesas e gerar impostos que, garante, “ficam em Portugal”. No site , é possível comprar entradas paras as áreas VIP com custos que variam entre os 180 e os 3500 euros. Os bilhetes estão praticamente esgotados. O festival tem 15 eventos associados, estando previstas demonstrações de corridas de aviões, acrobacias aéreas nas margens do rio, uma exposição de trinta aeronaves na Maia, uma exposição e passagens de aviões militares, baptismos de voo para crianças e concertos. Associação de empresas do sector do turismo uvial exige saber impactos reais do evento FOTOGRAFIAS: ADRIANO MIRANDA Mariana Correia Pinto