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ATE: “A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA NÃO É SÓ RENOVÁVEIS, É UM ENERGY MIX, É UM CONJUNTO DE INFRAESTRUTURAS”

Ambiente Magazine Online

2026-05-19 21:06:06

A transição energética em Portugal não passa apenas pela instalação de painéis solares ou pela substituição de carros a combustão por veículos elétricos. Para Andreia Fernandes, diretora executiva da Associação Aliança para a Transição Energética (ATE), trata-se de uma transformação estrutural da sociedade, da economia e das cidades, que exige inovação tecnológica, investimento, literacia energética e mudança de comportamentos.Andreia Fernandes Durante uma conversa com a Ambiente Magazine, a responsável apresentou o trabalho desenvolvido pela associação que gere um dos maiores consórcios nacionais ligados à inovação e capacitação para a transição energética. A iniciativa reúne 77 parceiros e está a desenvolver 63 produtos, processos e serviços na área da energia, da mobilidade e da descarbonização, apoiados por um investimento global de 254 milhões de euros, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). A ATE funciona como entidade de coordenação do projeto, assegurando o acompanhamento técnico, administrativo e financeiro de dezenas de iniciativas desenvolvidas em simultâneo por empresas, universidades e centros de investigação. “Existe uma complexidade significativa na gestão de plataformas de reporte e monitorização regulamentar e a ATE assume essa centralização para garantir a conformidade de todo o consórcio, libertando os parceiros para o foco na inovação”, afirmou. Cidades como laboratórios vivos da transição energética Para Andreia Fernandes, as cidades têm um papel central na implementação da transição energética, funcionando como “modelos vivos” para testar soluções tecnológicas e novas formas de gestão urbana. A responsável considera que “a transição energética não é só renováveis, é um energy mix, é um conjunto de infraestruturas”, por isso, na sua perspetiva, o verdadeiro desafio das cidades não é apenas tecnológico, mas humano e social. Andreia Fernandes destacou que as cidades concentram pessoas, hábitos, necessidades energéticas e infraestruturas envelhecidas, tornando inevitável uma mudança de comportamentos. Citou, inclusive, estudos da OCDE que apontam que, até 2050, cerca de 70% da população mundial viverá em cidades, muitas delas megacidades. Esse crescimento urbano, alerta, terá impactos profundos em infraestruturas críticas como redes de energia, saneamento, mobilidade e abastecimento de água. Infraestruturas antigas dificultam modernização “Temos cidades baseadas em infraestruturas que têm de ser reabilitadas para trazer a possibilidade de estas tecnologias serem implementadas”, começou por dizer Andreia Fernandes, exemplificando com a instalação de bombas de calor em apartamentos antigos. Apesar de reconhecer os ganhos de eficiência energética associados à eletrificação, admitiu que muitos edifícios não possuem espaço ou condições adequadas para receber esses equipamentos. Além disso, apontou os novos desafios associados à mobilidade elétrica e à gestão energética dos condomínios. Com o aumento do número de veículos elétricos, os edifícios precisam de gerir de forma inteligente a distribuição da potência disponível. Segundo a responsável, já estão a ser desenvolvidas soluções de balanceamento inteligente de carregamento, capazes de distribuir automaticamente a energia disponível entre vários veículos. A diretora executiva da ATE defendeu também que, nestes casos particulares, os condomínios são atores fundamentais na transição energética urbana e que é inevitável envolver moradores, municípios, operadores energéticos e empresas tecnológicas num esforço conjunto de modernização dos edifícios. Considerando igualmente que as autarquias são parceiros estratégicos de proximidade, capazes de catalisar a transição urbana através do planeamento do território, da facilitação de processos de reabilitação e da promoção de boas práticas de eficiência energética. Questionada sobre a meta portuguesa de atingir a neutralidade carbónica até 2045, Andreia Fernandes sublinhou que mais do que o debate em torno dos prazos absolutos, o foco deve estar na eficácia da execução e na criação de condições reais para atingir esses objetivos. A responsável reconheceu que estas metas têm uma função mobilizadora e política fundamental, sobretudo para alinhar Portugal com os objetivos europeus e atrair investimento internacional .O essencial é “criar um ambiente de estabilidade e previsibilidade que permita atrair capital para projetos ligados à energia, à indústria e à inovação tecnológica”. Todavia, “há indústrias que não são eletrificáveis”, alertou, defendendo que setores industriais pesados continuarão a precisar de soluções alternativas, como gases sustentáveis e novas tecnologias de descarbonização. Literacia energética será decisiva Um dos temas mais enfatizados foi a necessidade de aumentar a literacia energética da população: “conceitos como quilowatt-hora ou megawatt-hora estão distantes do quotidiano das populações”, revelou, acrescentando que “comunicar energia só é efetivo se traduzirmos a complexidade técnica em benefícios tangíveis para o dia a dia do cidadão”. A ATE está ainda a desenvolver programas de capacitação e plataformas digitais destinadas à reconversão profissional de trabalhadores, que poderão ser afetados pela transformação energética, tendo em conta também a falta de talento que poderá “atrasar significativamente o desenvolvimento tecnológico europeu”. Produtos da ATE querem ganhar escala internacional A ATE deverá concluir a fase de desenvolvimento tecnológico dos produtos até este ano e depois disso, começará a etapa de entrada no mercado, escalabilidade e internacionalização. Andreia Fernandes explicou que cada produto está a ser desenvolvido por consórcios específicos compostos por empresas, universidades e centros de investigação. Segundo a responsável, o objetivo passa por transformar Portugal num centro de demonstração tecnológica capaz de exportar soluções energéticas para outros mercados europeus e internacionais. Este artigo foi escrito no âmbito da participação da ATE na Portugal Smart Cities Summit 2026. Diana Fonseca