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“A MAIORIA DAS MULHERES ESTÁ BEM E NÃO SENTE IMPACTO NA SEXUALIDADE [CAUSADO PELA PÍLULA]. MAS ALGUMAS MULHERES PODEM SENTIR ALTERAÇÕES”

SIC Notícias Online

2026-05-19 21:06:07

A contraceção hormonal revolucionou a vida das mulheres, mas a responsabilidade pela prevenção da gravidez continua a recair sobretudo sobre elas. Num novo episódio do podcast O Prazer é Todo Meu, a ginecologista Teresa Bombas desmonta mitos, esclarece os impactos da pílula e do DIU e questiona por que razão a contraceção continua a ser, em grande medida, uma conversa no feminino A contraceção hormonal foi uma das maiores transformações médicas e sociais do século XX. Permitiu às mulheres ter controlo sobre a sua fertilidade, planear a maternidade e tomar decisões sobre o seu percurso académico e profissional. No entanto, apesar dos avanços científicos e da diversidade de métodos atualmente disponíveis, continuam a persistir dúvidas, mitos e desigualdades na forma como a responsabilidade contracetiva é assumida. Em Portugal, o acesso ao Planeamento familiar é universal, e gratuito. Existem diferentes métodos de contraceção disponíveis de forma a assegurar a liberdade, a individualidade e a segurança na escolha contracetiva. Cumpre-se um direito humano. Ao mesmo tempo, cresce o interesse por métodos de longa duração, como o dispositivo intrauterino. Surgem também debates sobre os efeitos da contraceção hormonal na saúde e na sexualidade, o que leva muitas mulheres a optarem por soluções livres de hormonas. E nos dias de hoje, fará sentido que as conversas sobre contraceção girem em torno das mulheres? Fará sentido que os esforços de prevenção de uma gravidez se continuem a focar no ciclo reprodutor feminino? Existem muitos mitos associados à toma da pílulaPeter Dazeley Numa temporada dedicada à educação sexual que nunca tivemos, falar de contraceção é reconhecer que muitas decisões continuam a ser tomadas com informação incompleta e receios desproporcionados. No podcast?O Prazer é Todo Meu, a convidada desta semana é Teresa Bombas, ginecologista-obstetra, membro da Sociedade Portuguesa de Contraceção e Presidente da Sociedade Europeia da Contraceção e Saúde Reprodutiva. Fala sobre os principais métodos contracetivos, o impacto da pílula na sexualidade, os riscos reais da contraceção hormonal e a desigualdade persistente na responsabilidade contracetiva. E deixa uma mensagem clara: “a maioria das mulheres está bem com os contracetivos hormonais”. Nuno Fox “A contraceção permitiu às mulheres planear a vida” Para Teresa Bombas, o impacto da contraceção ultrapassa largamente a dimensão médica. “As mulheres puderam planear as suas gestações”, explica, sublinhando que isso se traduziu em mais tempo para estudar, trabalhar e conquistar independência económica. A ginecologista lembra que a contraceção mudou profundamente o papel social das mulheres nas últimas décadas, permitindo conciliar maternidade, carreira e autonomia individual. Porque continua a contraceção a ser uma “conversa no feminino”? Apesar da evolução social, a responsabilidade contracetiva continua a recair maioritariamente sobre as mulheres. Atualmente, os principais métodos masculinos disponíveis continuam a ser o preservativo e a vasectomia. E ambos permanecem rodeados de resistência. “O preservativo ainda é associado à diminuição do prazer”, admite Teresa Bombas, embora considere que essa ideia tenha vindo a perder força, sobretudo entre os mais jovens. Já a vasectomia continua envolvida em “grandes mitos”. A médica recorda que se trata de um procedimento simples, realizado em ambulatório e sem impacto na performance sexual. Ainda assim, é pouco utilizada em países mediterrânicos como Portugal. Curiosamente, Teresa Bombas observa que muitas mulheres acabam por não incentivar esta opção nos companheiros: “Dizem muitas vezes: e se ele um dia mais tarde quiser ter filhos? ”. Para a ginecologista, esta postura revela como a contraceção continua culturalmente associada à responsabilidade feminina. Boy_Anupong Afinal, como funciona a pílula? A pílula hormonal continua a ser um dos métodos mais utilizados em Portugal. E, segundo Teresa Bombas, isso não representa atraso nem falta de evolução científica, representa sobretudo uma escolha. “Há mulheres para quem essa independência de começar e suspender sem necessidade de recurso médico é importante”, explica. Em termos fisiológicos, a pílula atua sobretudo através do bloqueio da ovulação. Ao mesmo tempo, cria um ambiente hormonal artificial que pode trazer benefícios adicionais, como melhoria da acne, redução das dores menstruais ou controlo do fluxo menstrual. A especialista distingue ainda as pílulas combinadas (com estrogénio e progestativo) das formulações apenas com progestativo, esclarecendo que ambas são igualmente eficazes do ponto de vista contracetivo. Nuno Fox O DIU hormonal e o DIU de cobre são iguais? Durante o episódio, Teresa Bombas explica também as diferenças entre os dispositivos intrauterinos hormonais e não hormonais. O Dispositivo Intra-uterino (DIU) de cobre funciona criando um ambiente inflamatório dentro do útero que interfere com a progressão dos espermatozoides. Já o DIU hormonal atua localmente através da libertação de progesterona. Nenhum dos dois impede a ovulação de forma sistemática. A ginecologista sublinha ainda que muitos dos mitos associados ao DIU, como a ideia de que mulheres sem filhos não podem usar, estão desatualizados. “Isso é mito”, afirma. Qual é o impacto da contraceção hormonal na sexualidade? O impacto da pílula na sexualidade continua a ser um tema difícil de estudar, precisamente porque a resposta sexual é multifatorial. Ainda assim, Teresa Bombas reconhece que algumas mulheres relatam alterações no desejo ou na excitação sexual após iniciarem contraceção hormonal. “A maioria das mulheres está bem e não sente impacto na sexualidade. Mas algumas mulheres podem sentir alterações”, explica. Por isso, defende que os profissionais de saúde devem incluir perguntas sobre sexualidade durante as consultas de contraceção, algo que nem sempre acontecia no passado A solução pode passar simplesmente por mudar a composição da pílula ou trocar de método. “A contraceção não é vinculativa”, reforça. Nuno Fox Pontos altos da conversa: “Qualquer mulher, em qualquer fase, pode mudar a sua escolha. E não é pelo método de contraceção ser gratuito no âmbito do SNS que a vai obrigar a ficar vinculada.” “As mulheres são muito pouco promotoras da vasectomia nos seus companheiros. Se queremos igualdade, paridade e equidade de decisões, devemos também delegar e deixar que os homens tenham opinião própria.” “A maioria das mulheres está bem e não sente impacto na sexualidade [causado pela pílula]. Mas algumas mulheres podem sentir alterações.” “Em Portugal temos uma lei moderna e protetora dos direitos reprodutivos, que fazem parte dos direitos humanos.” O Prazer é Todo Meu é um podcast sobre saúde sexual, relações e intimidade, para promover a literacia em saúde sexual com uma abordagem científica acessível e empática. Objetivo: desmistificar conceitos, quebrar tabus e incentivar a discussão sobre prazer, consentimento, disfunções sexuais e bem-estar emocional. A cada episódio, a médica Mafalda Cruz revela o que nunca se costuma dizer sobre sexo, dor e relacionamentos. O Prazer É Todo Meu conta com convidados especialistas e também histórias reais. Porque todos temos uma sexualidade para explorar sem filtros. Todas as terças-feiras um novo episódio no Expresso e na sua app de podcasts.