HDES COM MAIS DE 50 CASOS SOCIAIS
2026-05-19 21:06:09

HDES com mais de 50 casos sociais nas suas instalações Mais de 50 idosos com alta médica esperam, no edifício principal do Hospital do Divino Espírito Santo, no Centro de Saúde da Ribeira Grande e mesmo nas Urgências do Hospital Modular, por quem os venham buscar. Conselho de administração do maior hospital da região diz que problema está a agravar-se e é preciso atuar nunomneves@acorianooriental.pt Não é uma situação nova, mas os números espelham um clarO agravamento do problema: o Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), em Ponta Delgada, tem mais de 50 casos sociais internados, desde o edifício principal, passando pelas urgências no Hospital Modular até ao Centro de Saúde da Ribeira Grande. A notícia, dada em primeira mão pela RTP Antena 1 Açores, espelha dimensão dramática da atualidade: casos sociais , ou seja, pessoas, geralmente da terceira idade, que recebem alta médica, mas acabam por ficar internados porque não têm quem os vá buscar ou para onde ir , costumavam ser na ordem de uma enfermaria (cerca de 20 a 25 pessoas). Agora, esse número duplicou. Segundo dados fornecidos pelo Conselho de Administração do HDES, existem 30 casos sociais internados no edifício principal, mais três no Hospital Modular (que, segundo apurou o Açoriano Oriental, estão há mais de um mês no Serviço de Urgências) e 18 no Centro de Saúde da Ribeira Grande. Utentes que ficam, na sua larga maioria várias semanas, com muitos regressos pelo meio. Não é um problema exclusivamente do HDES ou do Serviço Regional de Saúde: dados do Barómetro de Internamentos Sociais apontavam para mais de 2800 casos sociais no Serviço Nacional de Saúde em abril, um número que significa que 13,9% das camas disponíveis, e um aumento de 29% face ao período homólogo. O impacto de tal situação é estimado pelo barómetro na ordem dos 350 milhões de euros no SNS No HDES, o impacto não se mede apenas no custo financeiro , à média de 600 a 800 euros/cama por dia, quando nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas, vulgo lares, este número baixa para perto dos 50 a 60 euros/dia , mas também na atividade assistencial, pois com estas camas ocupadas pOr casos sociais, sobram menos para as cirurgias, como explica Pedro Brazio, enfermeiro-chefe do hospital de Ponta Delgada, em declarações ao Açoriano Oriental. “Se nós temos um doente, sem necessidades clínicas, ape-nas sociais, a ocupar uma vaga de um doente clínico, alguma coisa tem de ficar por fazer. As equipas que se desdobram para cuidar das necessidades agudas clínicas do doente, também o fazem para o caso social. São 50 utentes diariamente, e se estamos a discutir vagas para internamento cirúrgico, há um estrangulamento. Sem camas, não há cirurgias, porque não há internamento”. Uma interferência direta e diária também confirmada pela secretária regional da Saúde e Segurança Social, Mónica Seidi, que na entrevista concedida ontem ao Açoriano Oriental, assinalou que, em casos de picos de afluência à unidade hospitalar, houve necessidade de cancelar cirurgias adicionais. Mas os impactos não são só na atividade assistencial do hospital: também o utente sofre ao ficar dias, semanas, meses numa cama de hospital. “Tem impacto no idoso, ao nível psicológico: o idoso apercebe-se que está esquecido, pois há uma dinâmica de visitas que não o abrange; cria ansiedade e revolta, que pOr sua vez leva a reclamar mais cuidados aos profissionais de saúde; e há uma descompensação social muito grande”, assinala o presidente do Conselho de Administração do HDES, Carlos Pinto Lopes. E nos casos em que os vee idosos ficam internados nas urgências, como acontece com os três casos no Hospital Modular, “maior é a degradação do estado cognitivo, maior o número de intercorrências que vai ter, porque não é o lugar ideal”, acrescenta Pedro Brázio. Abrir enfermarias não é solução Em entrevista ao Açoriano Oriental, tanto o presidente do Conselho de Administração, Carlos Pinto Lopes, como o enfermeiro-chefe do HDES, Pedro Brazio, SãO firmes em afirmar que o problema não se resolve com a abertura de mais camas. Não só porque a abertura de uma enfermaria obedece a critérios apertados , “o rácio de enfermeiros, de técnicos de saúde não muda pelo facto do idoso ser um caso social ou não, é tratado como um doente”, diz o responsável máximo do hospital , mas também porque essa experiência já foi feita no HDES “Antes da Covid, decidimos abrir uma enfermaria apenas para os casos sociais: em vez de esta-rem espalhados por todo o hospital, estavam no mesmo local. Ao fim de uma semana, tínhamos mais 10 casos e demoramos meses para fechar a enfermaria”, explica Pedro Brázio. Com o HDES em reestruturação a pensar no futuro, Carlos Pinto Lopes lança a questão: “Vamos ter um novo hospital e nesse novo hospital, na nossa realidade, fica a pergunta: conta ou não conta com casos sociais? Quando estou a pensar num programa funcional com número de camas para internamento, conto só com doentes ou atendo aos estudos de caracterização e diagnóstico que deram lugar ao programa funcional, que são estudos demográficos e de dados de saúde? Necessariamente, num primeiro momento, têm de estar, pois não conseguimos mudar esta realidade a 10 anos. Mas temos de começar por alguma ponta”. Debate público é preciso Perante a crueza dos números, o presidente do Conselho de Administração do Hospital do Divino Espírito Santo assume que é tempo desta problemática ser colocada na ordem do dia e discutida por toda a sociedade, do Estado aos privados, passando, necessariamente, pelas famílias dos utentes. Reconhecendo que ao Estado cabe uma quota-parte significativa, Carlos Pinto Lopes diz que não é suficiente para resolver o problema. “Estamos com um problema em crescendo: a sociedade está a envelhecer e a mim toca-me especialmente que a sociedade não esteja a debater isto com seriedade. Seriedade é não esperar que o Estado dê todas as respostas: pode dar vários tipos de resposta comparticipando com despesas, hospitalização domiciliária, com OS Novos Idosos, com as IPSS que fazem cuidados básicos de higiene e também fornecem refeições - mas não substituem a residência e a família. Mas [da minha expe-riência] as famílias não estão dispostas! Por isso quero lançar este debate para que todos os que podem contribuir tragam soluções, para que o idoso não sinta um duplo abandono: pela família e pelo Estado”. O presidente do Conselho de Administração assinala que sente o problema com maior incidência nas ilhas maiores: “Nas ilhas de maior densidade populacional este problema existe, mas vai diminuindo nas ilhas com menos população, por uma única razão: a reprovação social. Aqui, cada vez mais somos anónimos numa ilha com a população que temos”. Considerando que a institucionalização de todos os casos sociais não é a solução, seja porque as famílias, muitas vezes, não conseguirem acompanhar os valores exigidos pelas instituições; seja pOr não haver instituições em número suficiente, Carlos Pinto Lopes entende que “temos de encontrar uma solução que dê dignidade aos idosos, retirando-os do hospital e alocando-os com todo o conforto e segurança e não deixando-os ao abandono”. O fortalecimento das redes, como as de cuidados continuados, paliativos, hospitalização domiciliária e unidades de saúde de ilha, entre outros, é defendido por Pedro Brázio como um caminho possível para que se veja luz ao fundo do túnel. “Mas se não tivermos a família na equação, se ela se excluir da solução, será difícil. As necessidades da pessoa humana não terminam com a prestação de cuidados de saúde: há um lado existencial, social, de relacionamento, e isso só a família poderá prestar”, assinala. Carlos Pinto Lopes diz estar de “mente aberta” para a discussão e entende que é necessário que haja um “movimento de cidadania, de consciencialização de que não podemos estar a abandonar os nossos idosos nos hospitais. A velhice perdeu espaço na nossa sociedade, infelizmente”. Saúde. Utentes com alta médica permanecem internados semanas, com impacto na sua saúde e na atividade do hospital. Carlos Pinto Lopes pede debate sério sobre problema que se agrava PÁGINAS 263 Senóstemos um doente, sem necessidades clínicas, apenas sociais, a ocupar uma vaga de um doente clínico, alguma coisa tem de ficar por fazer Pedro Brázio Enfermeiro-chefe do HDES No edifício principal, estão trinta casos sociais, com impacto na saúde do utente e na atividade assistencial do hospital, reconhece o conselho de administração do HDES Nas ilhas de maior densidade populacional este problema existe, mas vai diminuindo nas ilhas com menos população, por uma única razão: areprovação social Carlos Pinto Lopes Presidente Conselho de Administração HDES Quero lançar este debate para que todosos que podem contribuir tragam soluções, para que o idoso não sinta um duplo abandono: pelafamília epelo Estado” Carlos Pinto Lopes Presidente Conselho de Administração HDES Carlos Pinto Lopes quer um debate sério sobre o problema que reconhece estar a agravar-se Nas urgências do Hospital Modular estão três utentes nesta situação ARQUIVO AO/EDUARDO RESENDES No Centro de Saúde da Ribeira Grande estão internados 18 casos sociais Nuno Martins Neves