AS ARMAS DA AIRBUS PARA VENDER CAÇAS A PORTUGAL: SOBERANIA E PRESENÇA REFORÇADA NO ECOSSISTEMA INDUSTRIAL
2026-05-22 06:31:04

As armas da Airbus para vender caças a Portugal: soberania e presença reforçada no ecossistema industrial A Airbus realizou a sua “cimeira” anual de Defesa num momento em que Portugal debate a compra dos caças que vão substituir OS F-16. O DN falou com os responsáveis da gigante europeia de Defesa e ouviu o "pitch" que está a ser feito ao Governo português. Com Portugal prestes a lançar o concurso para a compra de quase 30 caças para substituir OS F-16, a Airbus aposta forte em três grandes argumentos para convencer as autoridades políticas portuguesas de que há vantagens em optar pelo Eurofighter Typhoon. O DN esteve na Airbus Defence Summit 2026, que decorreu esta semana em Manching, na Alemanha, e as conversas com vários responsáveis da empresa permitiu sintetizar os pontos fortes da proposta: “soberania” de Portugal na deciSáO; O reforço das parcerias industriais já existentes e acesso a outro equipamento militar e espacial avançado. Vamos por partes. “o nosso principal argumento é dizer que vamos permitir a Portugal e à ForçaAérea Portuguesa (FAP) operar o caça de uma forma soberana. Não vamos colocar limitações. Não vamos controlar a forma como vão planear as missões. Vão ser livres para operar o aparelho da forma que quiserem. Sem limitações, de forma transparente e partilhando completamente a tecnologia do Eurofighter, diz, ao DN, Ivan Gonzálex, o diretor de vendas do Eurofighter. Ou seja, a Airbus quer capitalizar a principal crítica que é feita ao caça preferido da FAP, o americano F-35 Lightning II, a de que a Lockheed Martin não transfere tecnologia para os países que o adotam. A mensagem é clarae e foi reiterada ao DN , e à imprensa portuguesa presente no evento pelo CEOr do Grupo Airbus. “A Airbus é uma empresa que coopera à escala europeia. Garantimos a soberania da solução que desenvolvemos. E gostamos de acreditar que a Europa precisa mesmo de crescer e progredir na área da Defesa, não só comprando equipamento, mas também comprando equipamento europeu”, disse Guillaume Faury. O responsável máximo do grupo , amaior empresa de Defesa europeia tocou, assim, num aspeto repisado até à exaustão no decorrer do evento. O setor da Defesa europeia só se fortalece com inovação e mais e melhores equipamentos, se OS Estados-mem bros da UE comprarem material europetu. Aliás, os países europeus só compram às empresas europeias de Defesa cerca de 10% do que o Governo dos EUA compra às empresas de Defesa americanas. e, portanto, o argumento do “ajudem-nos a ajudar-vos”. A viver há mais de um ano em Portugal, precisamente para trabalhar na potencial venda de Eurofighters à FAP, Ivan González tem vindo a reunir-se, todos os meses, com empresas portuguesas com quem pode fazer parcerias para participarem no projeto. Muitas já estão estão assinaladas. e aqui reside o segundo grande argumento: a. Airbus já tem uma forte presença em Portugal. “o memorando de entendimento (MoU) entre a Airbus e o AED Cluster Portugal, no contexto do Eurofighter, é um exemplo perfeito desta abordagem, porque cria um quadro estruturado para interagir com o ecossistema industrial português, para mapear as capacidadesi e identificar áreas potenciais de cooperação”, salienta Ivan González. O MoU em causa permitiu à Airbus identificar novos parceiros industriais para a Defesa, diz ao DN. Além dos 13 acordos já assinados, há contactos com 10 empresas industriais: Aernnova, EEA, CEiiA, Mecachrome, Critical SW, Tekever, ETI, OGMA, Lauak e a Orion Technik. Objetivo: avaliar o potencial papel de cada uma delas na cadeia de abastecimentos global do Eurofighter. Nada, no entanto, que se aproxime à ideia de Portugal poder vir a aacolher montagem de quaisquer partes do aparelho que comprar. Essa ideia foi admitida por outro concorrente, os suecos da SAAB, que querem vender a Portugal o seu JAS--39 Gripen E. “Isso é muito fácil de dizer, mas muito difícil de implementar. Quando se compra uma pequena quantidade de aviões, a matemática do negócio tem de bater certo. Quando falamos de 20, 24 ou 28 aparelhos, uma linha de montagem final não é comercialmente viável. Normalmente, se alguém vos diz o contrário, talvez não esteja a ser completamente honesto convosco. Mas a realidade é esta: a montagem final só se justifica com um número sufiente de caças, e falamos de 50 a 70 caças”, sublinha Iván González. “Esta é a resposta honesta que estamos a dar ao país. Não podemos vender fumo ou ar quente ou prometer coisas e depois não as cumprir. Não, a realidade é que vemos potencial para o fabrico de peças e componentes para o caça, o fabrico de peças para o motor, equipamento que pode ir a bordo do Eurofighter. e também poten-cial para manutenção e para treino. Mas a montagem final, isso é diferente”, conclui. O terceiro argumento surgiu sob a forma de um catálogo extenso de equipamento que a imprensa vinda de todo o Mundo mas sobretudo europeia analisou, observou em demonstrações ao vivo e questionou na Defence Summit. Apesar de não ter sido dito explicitamente pelos responsáveis da Airbus, aideia está presente: uma compra de Eurofighters abre o caminho a melhores negócios noutro equipamento. Para a Airbus, que tem nos helicópterose os seus produtos mais vendidos, é claro: Portugal pode ser comprador e utilizador dos helicópteros de última geração do grupo, como o Eurocopter Tiger (aparelho de ataque), ouo NH-90, considerado um dos melhores helicópteros multiusos do mundo. Mas também dronesi e tecnologia espacial em que a Airbus tem apostado. “A Airbus está pronta para apoiar Portugal nos seus programa de Defesa. As decisões acerca do quadro de compras, janelas temporais ou financiamento seja através do SAFE, da Lei de Programação Militar ou outro instrumento ficam inteiramente do lado do Estado português. O nosso papel é oferecer capacidade de alto valor e transparente do nosso extenso portfolio, que vai dos aviões militares aos sistemas espaciais, passando por comunicações seguras e soluções ciberresilientes”, completa o responsável. Por último , e não sendo um argumento ainda em cima da mesa, porque está embrionário e com problemas de desenvolvimento = aAirbus tem mais um ponto a fazer: Portugal pode colocar um pé na porta para o programa do caça de 6. geração. “Ao invés de ser uma compra única, esta parceria permitiria assegurar fabrico de alto valor acrescentado e transferência de tecnologia para os fornecedores nacionais, o que serviria como uma ponte para os futuros sistemas de combate de6.a geração”. Não é um quarto argumento, mas poderá dar que pensar ao ministro da Defesa Nacional, no momento de decidir. Um Eurofighter Typhoon da Luftwaffe (Força Aérea Alemã) a demonstrar a potência dos seus dois motores, na Airbus Defence Summit 2026 Se alguém vos diz o contrário, talvez não esteja a ser completamente honesto convosco. Mas a realidade é esta: a montagem final só se justifica com um número sufiente de caças, e falamos de 50 a 70 caças NUNO VINHA