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ULS SÃO JOÃO INSTALA BOTÕES DE PÂNICO VIRTUAIS NOS COMPUTADORES PARA PROTEGER PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Verdade Online (A)

2026-05-22 21:08:57

A ULS São João, no Porto, está a alargar aos centros de saúde o sistema "StoPanic", que instala botões de pânico virtuais para combater a violência. O arranque da implementação de soluções digitais destinadas a mitigar a criminalidade e a violência nos serviços públicos estende-se agora aos cuidados de proximidade. Os profissionais da Unidade Local de Saúde (ULS) de São João, no Porto, que se sintam ameaçados no exercício das suas funções, podem passar a “pedir ajuda rápida e discreta a partir do computador”, num projeto pioneiro testado no polo hospitalar que está atualmente “a ser alargado aos centros de saúde”. Como funciona o sistema StoPanic contra a violência no SNS O dispositivo informático de segurança rápida foi desenhado para contornar os entraves logísticos dos antigos sistemas analógicos. A ferramenta intitula-se “StoPanic e é uma medida destinada a reforçar a segurança dos profissionais, através da instalação de botões de pânico virtuais nos postos de trabalho”. A solução permite que qualquer trabalhador, perante um cenário de risco, coação ou comportamento agressivo por parte de utentes, “possa solicitar ajuda de forma rápida e discreta diretamente a partir do computador”. O mecanismo assenta numa lógica de solidariedade e intervenção imediata das equipas adjacentes. “Na prática, imagine-se um corredor de consultas, com 20 ou 30 gabinetes, nos quais foi montado um mecanismo que permite que um profissional acione o botão e seja gerado um alerta nos gabinetes que estão ao lado”. Desta forma, se um profissional se sentir sob ameaça ou perigo no gabinete 3, por exemplo, aciona o botão de alerta que “toca nos gabinetes 2 e 4 e, em paralelo, na central de segurança”. Carlos Ribeiro, diretor dos Serviços de Tecnologias de Informação e Comunicação (STIC) da ULS São João, explicitou o impacto psicológico e o efeito dissuasor da medida: “O objetivo é que as pessoas que estão no gabinete 4 e no gabinete 2 vão ao encontro do colega. Às vezes basta entrar para fazer uma pergunta para que a tensão baixe. A lógica é alguém que está na proximidade aparecer e com isso esvaziar o insuflar da tensão. Há um efeito dissuasor”. Alargamento aos cuidados de saúde primários e polo de Valongo A validação prática da ferramenta decorreu ao longo dos últimos meses em ambiente hospitalar de grande pressão. O StoPanic foi testado desde o segundo semestre do ano passado no Centro de Ambulatório (Consultas Externas), no Serviço de Imunohemoterapia (Banco de Sangue), nas Admissões e Altas, na Unidade de Colheitas (Análises Clínicas), no Hospital de Dia e no Serviço de Urgência Pediátrica. Após o sucesso dos testes, a aplicação “foi este mês estendida aos cuidados de saúde primários, começando pelo Bonfim”. O diretor do STIC contextualizou a evolução tecnológica face aos antigos métodos: “Há muito tempo que existem nas urgências botões físicos espalhados por vários sítios ( ). Não é fácil implementar de forma massiva em todos os gabinetes médicos e áreas onde existe circulação de pessoas. Daí, ter-se pensado criar um botão virtual, que está nos computadores dos gabinetes de consulta”. O responsável esclareceu que a expansão planeada esbarrava em entraves de infraestrutura: “Sempre quisemos alargá-lo também aos cuidados de saúde primários, mas existiam umas dificuldades tecnológicas das redes que só foram resolvidas agora”. Desde o início de 2026, a ULS São João contabilizou já cinco “situações reais, nas quais os profissionais se sentiram ameaçados e pressionaram o botão de pânico virtual”. Carlos Ribeiro assegurou que nenhuma destas ocorrências escalou para gravidade maior: “Mas acreditamos que a situação esvaziou-se graças a esta estratégia. Do ponto de vista dos profissionais, isto gera um sentimento de segurança, de conforto, de que estão protegidos”. O engenheiro vincou ainda que o perigo se acentua nos horários periféricos, referindo que se de manhã circulam milhares de pessoas, “ao final da tarde, há só algumas consultas e os corredores são desertos”. Impacto das agressões no absentismo e saúde mental dos médicos A exposição continuada a ambientes de conflitualidade acarreta pesados custos para a estabilidade das carreiras clínicas e para a sustentabilidade do próprio ecossistema público. Miguel Ornelas, especialista em medicina familiar desde 2011 e médico na USF da Arca DÁgua, testemunhou em primeira mão os efeitos desta realidade, lembrando que “os episódios de violência levam ao absentismo, têm impacto na saúde mental, geram insatisfação profissional e contribuem para o burnout e abandono do Serviço Nacional de Saúde (SNS)”. O profissional de saúde reforçou que “todas as matérias que possam melhorar as condições de trabalho os profissionais são muito importantes. Já vi situações tensas e tive colegas que depois faltaram e precisaram de apoio”. Os indicadores estatísticos agregados a nível nacional justificam o investimento nestes sistemas de alarmística digital. Dados partilhados pela Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) e pela Direção-Geral da Saúde (DGS) revelam que, no ano passado, “foram contabilizados 3.429 episódios de violência contra profissionais do SNS, mais 848 do que em 2024 (2.581)”. Em termos de impacto operacional direto nas escalas de serviço, os episódios de violência resultaram em “2.012 dias de ausência ao trabalho dos profissionais do SNS afetados, mais 827 do que em 2024 (1.185)”. Atualmente, a ULS São João já procedeu à instalação de 386 botões de pânico digitais nos computadores clínicos da sua rede. Carlos Ribeiro estima que o projeto ganhe uma dimensão massiva a curto prazo, evoluindo “facilmente para 1.000 até ao verão”. A administração hospitalar garantiu ainda que estão em curso diligências para o alargamento progressivo a mais centros de saúde da sua área de influência, bem como ao polo hospitalar de Valongo. Redação