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FORMAÇÃO EM TURISMO - FORMAR TALENTO PARA O TURISMO QUE JÁ MUDOU

Ambitur

2026-05-23 21:09:14

A formação em turismo está a atravessar uma mudança silenciosa, mas profunda. A procura mantém-se, cresce ou consolida-se, consoante as instituições, mas há um traço comum nas respostas recolhidas: os alunos já não procuram apenas “um curso de turismo”. Procuram percursos com empregabilidade, ligação ao mercado, dimensão internacional, ferramentas digitais, sustentabilidade e uma visão mais estratégica de um setor que se transformou e continua a transformar-se. Sérgio Leandro, diretor da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar do Politécnico de Leiria, sintetiza essa evolução de forma clara: “A grande mudança não é tanto quantitativa, é qualitativa.” Hoje, afirma, os estudantes procuram “formações com forte componente prática, ligação direta ao mercado de trabalho, dimensão internacional e competências digitais diferenciadoras”, sendo “mais exigentes, mais informados e mais orientados para a empregabilidade”. Na Universidade Lusófona, Mafalda Patuleia, Associate Professor e Head of Tourism Department, identifica uma procura “mais informada e mais crítica”. Para a responsável, os estudantes e as famílias valorizam cada vez mais uma formação que demonstre que o turismo “não se resume apenas à hotelaria operacional nem à restauração”. O setor, sublinha, precisa hoje de perfis capazes de trabalhar em “gestão, análise de dados, marketing digital, distribuição, planeamento de destinos, eventos, inovação, património, experiência do cliente, entre outras” áreas. Também no Instituto Politécnico de Setúbal, Teresa Costa, coordenadora da Pós-Graduação em SMART Transition in Tourism & Hospitality Management, ministrada na Escola Superior de Ciências Empresariais do IPS, nota uma evolução consistente da procura. No IPS, essa evolução reflete-se tanto na estabilidade da formação inicial, como o CTeSP em Gestão de Turismo, como na valorização crescente de percursos de especialização, requalificação e formação pós-graduada. A procura, diz, está hoje “mais orientada para o desenvolvimento de competências específicas, alinhadas com as transformações do setor”. Na Porto Business School, Rita Marques, diretora do Tourism Futures Center, descreve uma procura que “tem vindo a crescer de forma consistente, mas sobretudo a sofisticar-se”. Os participantes procuram não apenas conhecimento técnico, mas “uma compreensão mais estratégica do setor”, incluindo sustentabilidade, inovação, inteligência e posicionamento internacional, ao mesmo tempo que aumenta a procura por formatos “mais flexíveis e modulares”. A Universidade Portucalense aponta igualmente para uma evolução positiva e consistente da procura em turismo e hospitalidade. O turismo é descrito por Isabel Vaz Freitas, diretora do Departamento de Turismo, Património e Cultura da instituição, como “uma atividade atrativa, impulsionadora de projetos e de dinâmicas com grande amplitude temática” e profissional. A instituição tem insistido no conhecimento que alia teoria e prática, dando crescente importância às competências digitais e sustentáveis, o que se reflete na escolha de cursos mais especializados e alinhados com as novas tendências do mercado. Na Les Roches, Carlos Diez de La Lastra, CEO da instituição, identifica uma procura “muito forte e sustentada” pelos programas principais de licenciatura, em particular os BSc em Hospitality Management & Sports Business Management, valorizados pela combinação entre “rigor académico, aprendizagem experiencial e fortes resultados em termos de empregabilidade”. Mas também aqui a procura se está a alargar: estudantes e profissionais procuram formatos complementares, como formação executiva, programas especializados de curta duração e oportunidades de requalificação. “O grau académico continua a ser central, mas faz agora parte de um percurso mais amplo de aprendizagem ao longo da vida”, resume. Na Universidade Europeia, Sofia Almeida, Tourism and Hospitality Coordinator, fala de uma procura que “tem vindo a consolidarse”, mas com uma evolução clara no seu foco. “Hoje, não se trata apenas de quantidade, mas sobretudo de qualidade e de intenção”, afirma. Os estudantes procuram programas com forte ligação ao mercado, componente internacional e tecnológica e competências transversais. Em paralelo, cresce a formação ao longo da vida, com profissionais que regressam à academia para atualizar competências num setor em rápida transformação. Um novo perfil de aluno: digital, exigente, diverso e orientado para a prática Se a procura mudou, também o perfil dos alunos se alterou. A transformação não é apenas tecnológica; é geracional, cultural e profissional. Há mais estudantes internacionais, mais profissionais em requalificação, mais perfis vindos de áreas adjacentes e uma exigência crescente em relação à utilidade prática da formação. Na Universidade Europeia, Sofia Almeida confirma esta leitura: os estudantes são hoje “mais digitais, mais informados e mais exigentes”, com uma visão mais global do setor e maior sensibilidade para sustentabilidade, propósito e impacto. A diversidade também aumentou, desde estudantes internacionais a profissionais em requalificação, enriquecendo as dinâmicas em sala de aula, mas colocando novos desafios aos docentes. Também na Les Roches, Carlos Diez de La Lastra nota uma mudança significativa no perfil dos estudantes. São hoje “mais internacionais, mais fluentes digitalmente e mais intencionais nas suas escolhas de carreira”, chegando com expectativas mais claras em relação à empregabilidade, cultura de liderança e mobilidade global. A instituição observa ainda um número crescente de estudantes com experiência profissional prévia, bem como profissionais que regressam à formação para se requalificarem ou reposicionarem as suas carreiras. No geral, sublinha, são estudantes “mais proativos” e esperam que a formação esteja diretamente ligada a resultados concretos na carreira profissional. Na Portucalense, o novo perfil é descrito por Isabel Vaz Freitas como “mais internacional, culturalmente mais rico e muito alinhado com a importância da internacionalização e da inovação no turismo”. Mas esta diversidade traz desafios. Os estudantes têm maior acesso à informação, embora, como é sublinhado, “nem sempre o acesso à informação significa mais aprendizagem”. A inteligência artificial é vista como uma oportunidade, mas também como uma competência que todos incluindo as gerações mais novas terão de aprender a usar “convenientemente e num sentido positivo”. Rita Marques, na Porto Business School, identifica um perfil “mais diverso e mais exigente”. Além de profissionais do setor, a instituição recebe cada vez mais participantes de áreas adjacentes, como tecnologia, saúde, imobiliário e consultoria, sinal da transversalidade do turismo. São alunos “mais orientados para impacto e para progressão rápida na carreira”. Também no IPS, Teresa Costa sublinha a diversificação do perfil dos estudantes. Para além dos alunos em início de percurso académico, há uma presença crescente de profissionais no ativo, pessoas em reconversão profissional e candidatos que procuram atualização de competências. A PósGraduação em SMART Transition in Tourism & Hospitality Management reflete precisamente essa diversidade, dirigindo-se a quadros técnicos, gestores, profissionais do setor, empreendedores e licenciados de diferentes áreas. Na Universidade Lusófona, Mafalda Patuleia introduz uma nuance importante: não considera que os alunos tenham mudado “no essencial”, mas sim no perfil geracional. São “mais digitais, mais rápidos no acesso à informação e mais exigentes quanto à utilidade prática da formação”. Ao mesmo tempo, nota maior dificuldade em pensamento autónomo, análise crítica e construção de raciocínio próprio, o que exige “maior acompanhamento, orientação estruturada e feedback mais frequente”. Para a responsável, este é um dos desafios mais relevantes do ensino superior: “manter o rigor académico e, simultaneamente, reforçar competências fundamentais de reflexão, interpretação e pensamento crítico”. Por fim, Sérgio Leandro considera que o perfil mudou “claramente”. Os estudantes são hoje “mais estratégicos nas suas escolhas”, procuram experiências internacionais, contacto com empresas desde cedo e percursos com empregabilidade. São também “nativos digitais, com forte interesse em inovação, tecnologia e sustentabilidade, e maior consciência do impacto do turismo”. Modelos formativos em transição permanente A questão do alinhamento entre academia e indústria atravessa todas as respostas. Há consenso quanto à aproximação crescente entre formação e necessidades reais do setor, mas também a consciência de que esse alinhamento nunca está concluído. O turismo muda depressa, e a formação tem de acompanhar esse ritmo. Para Sérgio Leandro, existe “um esforço real de alinhamento”, mas trata-se de “um processo permanente”. Na ESTM, esse esforço traduz-se em atualização curricular contínua, metodologias ativas e forte ligação às empresas. O futuro do turismo, afirma, exige “perfis híbridos, assentes em tecnologia, pensamento crítico e sustentabilidade”. Mafalda Patuleia defende que os modelos estão alinhados quando são construídos em proximidade com o mercado de trabalho. Na Universidade Lusófona, esse alinhamento não resulta apenas da atualização de conteúdos curriculares, mas de uma relação contínua com o setor, através de investigação aplicada, projetos com parceiros, visitas de estudo, conferências, seminários e contacto regular com profissionais e organizações do turismo. Teresa Costa afirma que os modelos estão, “de forma crescente”, alinhados com a indústria. O setor exige modelos mais flexíveis, aplicados e orientados para a resolução de problemas concretos. Neste contexto, o ensino superior politécnico apresenta uma forte capacidade de resposta, precisamente pela proximidade ao tecido empresarial, pela componente prática e pela adaptação contínua dos conteúdos às necessidades do mercado, defende. Rita Marques é mais cautelosa: os modelos estão “em transição”. Ainda existe desalinhamento, sobretudo quando a formação é excessivamente teórica ou pouco conectada com a realidade empresarial. Mas há uma evolução positiva, com maior foco em aprendizagem aplicada, casos reais e interação com o setor. Carlos Diez de La Lastra, da Les Roches, é igualmente claro ao defender que os modelos educativos só estão alinhados com a indústria quando são experienciados na prática e mantêm uma ligação próxima com a realidade do setor. “Modelos excessivamente teóricos têm dificuldade em acompanhar um setor que opera sob constante pressão e mudança”, afirma. Para o responsável, a indústria precisa de graduados capazes de tomar decisões, gerir pessoas, interpretar dados e adaptar-se rapidamente, o que obriga a combinar rigor académico, aprendizagem prática e diálogo contínuo com a indústria. Na Portucalense, o compromisso com o alinhamento passa por revisões e atualizações periódicas dos planos de estudo, contacto próximo com empresas e profissionais e metodologias centradas no estudante. A instituição valoriza projetos práticos, estudos de caso e simulações próximas da realidade do setor, defendendo uma aprendizagem “muito real” e próxima das competências necessárias para a entrada no mercado de trabalho. Na Universidade Europeia, Sofia Almeida considera que os modelos estão “mais alinhados do que nunca”, embora sublinhe que este é um processo contínuo. A instituição trabalha com modelos flexíveis, que combinam conhecimento teórico sólido com forte componente prática, projetos aplicados e contacto direto com empresas. A “escuta ativa do setor” é, para a responsável, essencial para garantir relevância. Competências para a próxima década: digital, dados, sustentabilidade e humanidade Quando questionados sobre as competências mais críticas para os próximos cinco a 10 anos, os responsáveis convergem em torno de quatro grandes eixos: tecnologia, dados, sustentabilidade e competências humanas. O profissional do futuro terá de ser tecnicamente preparado, mas também adaptável, crítico, criativo e capaz de trabalhar em contextos multiculturais e incertos. Mafalda Patuleia fala de perfis híbridos. O turismo vai exigir profissionais que saibam usar tecnologia, interpretar dados, comunicar bem, trabalhar com pessoas e compreender os impactos económicos, sociais e territoriais da atividade. “Mais do que executar, será cada vez mais importante saber analisar, antecipar e agir em contextos de mudança”, afirma, atribuindo ao ensino superior um papel decisivo no desenvolvimento de pensamento crítico, capacidade de análise, visão estratégica e competências transferíveis. Teresa Costa organiza as competências críticas em três dimensões: digitais, sustentabilidade e sociais/ relacionais. Na primeira, inclui literacia digital, análise de dados, inteligência artificial, marketing digital e uso de plataformas tecnológicas. Na segunda, economia circular, governação responsável e gestão de impactos ambientais e sociais. Na terceira, comunicação intercultural, inclusão, acessibilidade e gestão da experiência do cliente. A estas somam-se inovação, pensamento crítico e capacidade de adaptação. Rita Marques destaca cinco dimensões: capacidade analítica e utilização de dados; pensamento estratégico e visão de longo prazo; competências digitais, incluindo inteligência artificial; adaptação e aprendizagem contínua; e sensibilidade para sustentabilidade e impacto social. Na Les Roches, Carlos Diez de La Lastra acrescenta à discussão uma forte dimensão de liderança e julgamento. Para além das competências técnicas, considera que as mais críticas serão “cada vez mais humanas, estratégicas e orientadas para a sustentabilidade”. Entre elas destaca liderança e gestão de pessoas em ambientes diversos e intensivos em serviço, capacidade de julgamento e pensamento crítico, literacia de dados, inteligência cultural, adaptabilidade e uma compreensão sólida de práticas sustentáveis. O turismo, afirma, valorizará cada vez mais profissionais que combinem “excelência operacional com consciência ética” e sejam capazes de transformar compromissos de sustentabilidade em ações concretas e mensuráveis. Sofia Almeida resume esta visão em três dimensões: competências digitais e analíticas, competências humanas e literacia em sustentabilidade. As primeiras vão do uso de dados à compreensão de tecnologias emergentes. As segundas incluem pensamento crítico, adaptabilidade, comunicação e inteligência emocional. A sustentabilidade deve ser entendida nas suas dimensões ambiental, social, cultural e económica. “O profissional do futuro terá de equilibrar os desafios da transformação tecnológica com os desafios da humanidade”, afirma. Na Portucalense, as competências são descritas por Isabel Vaz Freitas como cada vez mais “transversais e adaptativas”. Destacamse as competências digitais, essenciais para trabalhar com plataformas tecnológicas, análise de dados e ferramentas de gestão e comunicação com o cliente, mas também a sustentabilidade enquanto prática integrada na tomada de decisões e na criação de produtos turísticos responsáveis. Comunicação, empatia, trabalho em contextos multiculturais, adaptação, resolução de problemas, criatividade e inovação surgem como competências decisivas. Por fim, Sérgio Leandro é direto: “Literacia digital, análise de dados e inteligência artificial serão centrais. Mas não chegam.” A estas competências junta pensamento crítico, criatividade, comunicação intercultural e capacidade de adaptação. A sustentabilidade, acrescenta, “deixa de ser um diferencial, e passa a ser um requisito”. Para o diretor da ESTM, “o digital e a sustentabilidade já não são tendências nesta área: são estruturais”. Inteligência artificial e sustentabilidade deixam de ser temas acessórios A inteligência artificial, a análise de dados e a sustentabilidade já não são conteúdos periféricos. Estão a entrar nos programas como dimensões estruturantes da formação, quer de forma explícita em unidades curriculares, quer de forma transversal em projetos, metodologias e parcerias. Na ESTM, a integração é descrita como transversal. A escola criou novas formações e atualizou conteúdos, metodologias e ambientes de aprendizagem, alinhando-os com digitalização, sustentabilidade, inovação, internacionalização e ligação às empresas. Sérgio Leandro destaca ainda que a sustentabilidade está ancorada institucionalmente, com reconhecimento externo, através da certificação Biosphere Portugal e da integração no Programa ECOESCOLAS, enquanto a digitalização é assumida como prioridade estratégica. Na Universidade Lusófona, Mafalda Patuleia considera que inteligência artificial, análise de dados e sustentabilidade “já não são áreas acessórias”. O objetivo, explica, não é apenas dar ferramentas, mas desenvolver capacidade crítica, leitura do setor e competências para tomar decisões mais informadas e responsáveis. No IPS, a Pós-Graduação em SMART Transition in Tourism & Hospitality Management foi desenhada precisamente em torno das transições green, digital e social, integrando unidades como Tourism and Hospitality Data Analytics, Smart Tourism and Hospitality, Digital Marketing e Sustainability and Governance. Esta abordagem é reforçada pelo projeto SHIFT, que propõe um novo enquadramento para o turismo baseado na sustentabilidade, inovação, digitalização e colaboração entre stakeholders. Na Porto Business School, Rita Marques afirma que estes temas são “estruturantes” na oferta formativa. A inteligência artificial e a análise de dados são integradas em várias unidades curriculares, não apenas numa lógica técnica, mas na sua aplicação à decisão. A sustentabilidade é tratada como eixo transversal, ligada à estratégia, ao território e à criação de valor. Na Les Roches, a integração de inteligência artificial, análise de dados e sustentabilidade faz-se igualmente de forma transversal. Carlos Diez de La Lastra explica que a IA e os dados são ensinados como ferramentas de apoio à decisão, “ajudando a melhorar o julgamento humano em vez de o substituir”. Já a sustentabilidade é abordada como uma questão empresarial e operacional, centrada na criação de valor a longo prazo, na gestão de recursos e no impacto. O objetivo é formar profissionais capazes de aplicar estas ferramentas de forma responsável e estratégica. A Universidade Portucalense afirma estar a integrar estes temas de forma progressiva e intencional, garantindo que os conteúdos refletem tendências emergentes e necessidades reais do mercado. Inteligência artificial, transformação digital, análise de dados e práticas sustentáveis são hoje transversais a vários programas, permitindo aos participantes desenvolver competências aplicáveis no seu contexto profissional, explica Marta Ferreira, Coordenadora Executiva da instituição de ensino.” Estas áreas deixaram de ser complementares para se tornarem estruturantes nos modelos de negócio atuais, influenciando a forma como as organizações operam, tomam decisões e criam valor”, sublinha. Na Universidade Europeia, Sofia Almeida sublinha que a IA e a análise de dados são integradas não apenas numa perspetiva técnica, mas também crítica, considerando implicações éticas e estratégicas. A sustentabilidade, por sua vez, é transversal aos currículos, através de conteúdos, projetos, parcerias e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O objetivo é que os estudantes compreendam estes temas, mas sobretudo que os saibam aplicar em contextos reais. Novas ofertas: microcredenciais, cursos curtos e especialização A resposta das instituições passa também pela diversificação da oferta formativa. Cursos curtos, microcredenciais, pós-graduações, programas executivos e experiências internacionais surgem como formatos cada vez mais relevantes, especialmente para profissionais que precisam de atualização rápida e aplicada. No IPS, a ESCE tem reforçado a diversificação da oferta, com destaque para cursos curtos, microcredenciais e pós-graduações. A nova Pós-Graduação em SMART Transition in Tourism & Hospitality Management é apresentada como uma mudança estratégica, alinhada com tendências internacionais nas áreas da digitalização, sustentabilidade e inovação. A Universidade Europeia também tem reforçado a flexibilidade da oferta, desenvolvendo cursos curtos e microcredenciais orientadas para áreas como transformação digital, experiência do cliente ou sustentabilidade aplicada à hotelaria. A par disso, atualizou conteúdos e metodologias pedagógicas, incorporando mais aprendizagem baseada em projetos, casos reais e desafios lançados por empresas. Na Universidade Portucalense, a atualização passa por revisões anuais dos programas, modelos de aprendizagem mais práticos, semanas imersivas, programas de curta duração e novas microcredenciais, mais flexíveis e ajustadas às necessidades dos profissionais e das organizações. Marta Ferreira adianta ainda que tem havido uma valorização cada vez maior da “componente prática e do contacto direto com a realidade empresarial, através de estudos de caso, projetos aplicados e interação com profissionais e empresas”. A Porto Business School tem reforçado programas executivos e cursos curtos, “mais ágeis e orientados para necessidades específicas do mercado”, incorporando projetos aplicados, interação com empresas e exposição a contextos internacionais. A Les Roches também tem vindo a expandir a sua oferta para além dos programas principais de licenciatura e mestrado, que continuam a ser a base do seu modelo educativo. Carlos Diez de La Lastra destaca o reforço da formação executiva e dos programas de pós-graduação em estreita colaboração com parceiros da indústria, incluindo programas de liderança e desenvolvimento feitos à medida, como iniciativas de “Future Leaders”. A instituição ampliou ainda o portefólio de formação executiva e certificados especializados online, formatos que permitem aos profissionais adquirir competências de forma direcionada e flexível, mantendo uma forte ligação à realidade operacional do setor. Já na Universidade Lusófona, uma das apostas mais claras tem sido a internacionalização. Mafalda Patuleia refere o crescimento do número de alunos estrangeiros, a mobilidade internacional através do Erasmus+, o desenvolvimento anual de BIP Blended Intensive Programmes e estágios em empresas na Europa e na China. Nos últimos anos, vários alunos têm escolhido realizar estágio fora de Portugal, o que demonstra a valorização de experiências profissionais e culturais distintas. No Politécnico de Leiria, a grande novidade é a nova licenciatura em Tecnologias Digitais Aplicadas ao Turismo, prevista para entrar em funcionamento no ano letivo 2026/2027. O curso pretende formar profissionais capazes de integrar inteligência artificial, análise de dados e experiências digitais no setor. A ESTM reforçou ainda microcredenciais, em alinhamento com os projetos Skills4Future e Skills4Digital do Politécnico de Leiria, e conteúdos transversais em inovação e sustentabilidade nos diferentes ciclos de estudo. Academia e empresas: uma relação mais próxima, mas ainda em construção A ligação entre academia e empresas é hoje central na formação em turismo. Estágios, projetos aplicados, seminários, visitas de estudo, guest speakers, investigação aplicada, desafios reais e cocriação de conteúdos são algumas das formas usadas pelas instituições para aproximar os estudantes da realidade do setor. Na ESTM, Sérgio Leandro descreve essa ligação como “uma marca” da escola. A formação assenta numa forte componente prática e na proximidade às empresas e instituições do setor, proporcionando contacto direto com contextos reais de trabalho. Estágios, projetos em cocriação, participação de profissionais em aulas e investigação aplicada são alguns exemplos. O responsável destaca ainda as elevadas taxas de empregabilidade e a certificação TedQual da Organização Mundial do Turismo atribuída às licenciaturas na área do Turismo. Na Les Roches, a colaboração com a indústria está integrada em todo o ecossistema educativo, desde o desenho curricular e os estágios até à investigação aplicada, projetos de consultoria, formação executiva e iniciativas de inovação. Carlos Diez de La Lastra sublinha que os parceiros da indústria contribuem diretamente para as experiências de aprendizagem, enquanto as equipas académicas trabalham com empresas em desafios reais. Esta dinâmica, defende, garante relevância e promove inovação “em ambas as direções”. Na Universidade Lusófona, a ligação ao setor faz-se através de projetos, estágios, visitas de estudo, conferências, seminários e colaboração regular com profissionais e organizações. As Jornadas de Turismo e as visitas de estudo no Norte e no Sul de Portugal reforçam essa proximidade, valorizada pelos estudantes por permitir compreender melhor empresas, destinos e desafios concretos do turismo. No IPS, Teresa Costa considera a ligação ao tecido empresarial e institucional uma dimensão central da atuação da ESCE. Essa articulação concretiza-se através de estágios, projetos aplicados, seminários, workshops, visitas de estudo e participação em eventos do setor. A instituição reforça ainda colaborações com entidades de referência, como a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril e a Universidade do Algarve, promovendo uma abordagem interdisciplinar e interinstitucional à formação em turismo e hospitalidade. Na Porto Business School, Rita Marques fala de uma ligação “muito próxima e contínua”. A escola trabalha com empresas em projetos aplicados, convida profissionais para partilhar experiência em sala e envolve o setor na definição de temas e desafios. “Esta proximidade é essencial para garantir relevância”, afirma. Na Portucalense Business School, a aproximação ao setor empresarial é assumida como uma prioridade. Marta Ferreira defende que a participação das empresas na construção dos cursos e na identificação de problemas concretos é essencial para garantir Sofia Almeida, Universidade Europeia resultados aplicáveis ao contexto empresarial. Os Experience Seminars, com apresentação de casos reais e visitas, reforçam a ligação entre aprendizagem, prática e networking empresarial. “É fundamental que as formações tenham impacto direto nas carreiras dos participantes e no desenvolvimento das organizações”, diz. Na Universidade Europeia, a ligação é descrita como “muito próxima e estruturada”. As empresas participam em estágios, projetos aplicados, sessões com guest speakers e cocriação de conteúdos, trazendo para a sala de aula desafios concretos e atuais. Empresas mais envolvidas, mas com margem para aprofundar a cocriação Apesar da aproximação crescente entre ensino e empresas, vários responsáveis admitem que ainda há espaço para aprofundar o envolvimento empresarial na definição dos conteúdos formativos. Na Universidade Europeia, Sofia Almeida fala em progresso significativo, mas também em necessidade de estruturar a participação das empresas de forma contínua e estratégica. A cocriação de programas e conteúdos será, no futuro, “um fator crítico para garantir a relevância da formação”. Rita Marques, da Porto Business School, partilha a mesma leitura: há margem para reforçar o envolvimento, mas a tendência é positiva. O setor tem vindo a assumir um papel mais ativo, reconhecendo que a formação é um elemento crítico para a sua competitividade. Teresa Costa considera que o envolvimento empresarial tem aumentado e é reconhecido como essencial para a qualidade da formação. Ainda assim, sublinha que é fundamental aprofundar a cocriação entre academia e empresas, garantindo que os programas respondem eficazmente às necessidades reais do setor. Na Universidade Lusófona, Mafalda Patuleia afirma que o setor empresarial faz há muito parte deste processo. O seu contributo tem sido importante nas alterações aos planos curriculares, ajudando a aproximar a formação das necessidades do mercado. Esta ligação permite ajustar conteúdos, identificar competências emergentes e manter uma oferta mais atual e relevante. Na Les Roches, Carlos Diez de La Lastra considera que o envolvimento empresarial “aumentou claramente” e que essa evolução é essencial. A diferença, afirma, é que os parceiros já não são apenas consultados no final do processo: participam desde o início na definição de competências e resultados de aprendizagem, especialmente em áreas como liderança, transformação digital e desenvolvimento de talento. Esta colaboração é visível na atualização dos currículos e em programas co-desenhados com empresas, permitindo responder a desafios reais do mercado de trabalho. Sérgio Leandro reconhece que o envolvimento das empresas tem aumentado e é hoje essencial, mas defende que deve evoluir para modelos “mais estruturados e sistemáticos de co-construção da formação”. As empresas já influenciam a formação, mas “ainda há margem para aprofundar”. Formar para o presente ou para um turismo que já mudou? A pergunta final talvez seja a mais decisiva: estão as escolas a formar profissionais para o presente ou para um modelo de turismo que já está a mudar? As respostas apontam para uma conclusão comum: é necessário responder às necessidades atuais, mas sobretudo preparar talento para liderar a transformação. Sérgio Leandro resume: “Para ambos.” A ESTM responde às necessidades atuais, mas antecipa tendências, garante. “O objetivo não é apenas formar profissionais, é formar agentes de mudança, capazes de transformar o turismo num setor mais sustentável, digital e competitivo.” Para o responsável, a escola forma para o presente, “mas sobretudo para liderar a mudança”. Mafalda Patuleia é igualmente clara: “Temos de formar para um setor que já está a mudar.” O maior erro, afirma, seria continuar a olhar para o turismo como espaço de profissões repetitivas, pouco qualificadas e de baixo valor acrescentado. Num país como Portugal, onde o turismo tem peso estratégico, é necessário reconhecer que o setor exige competências de gestão, análise, inovação, sustentabilidade e decisão. Teresa Costa defende que o objetivo é formar profissionais para um setor em plena transformação. A oferta da ESCE/IPS procura acompanhar mudanças nos segmentos turísticos, digitalização, sustentabilidade, saúde e bem-estar, inclusão e inovação. Mais do que responder ao presente imediato, trata-se de preparar profissionais para um turismo “mais inteligente, mais sustentável e mais especializado”. Rita Marques considera que este é “o grande desafio”. O turismo transforma-se rapidamente e a formação tem de antecipar essa mudança. Mais do que preparar para funções específicas, importa preparar pessoas para contextos em constante evolução, com capacidade de pensar, adaptar-se e liderar a transformação. Sofia Almeida, da Universidade Europeia, coloca a tónica no futuro: “O nosso objetivo é formar profissionais para o futuro um futuro que continua a ser desenhado.” Isso implica desenvolver não apenas conhecimentos técnicos, mas a capacidade de questionar, adaptar e inovar. O turismo está a atravessar uma transformação profunda, e a formação tem de preparar profissionais capazes de liderar essa evolução, não apenas de a acompanhar. Carlos Diez de La Lastra é inequívoco: a formação deve preparar profissionais para “um modelo de turismo que já está em transformação”. Embora seja essencial que os graduados estejam operacionais desde o primeiro momento, a educação não pode limitar-se às estruturas atuais. O turismo evolui rapidamente, impulsionado pela transformação digital, sustentabilidade, novas expectativas dos consumidores e mudanças no mercado de trabalho. Por isso, a responsabilidade das escolas é preparar profissionais capazes de atuar no presente, mas também de se adaptarem, refletirem e liderarem a mudança. Isso implica desenvolver “julgamento, liderança, pensamento crítico e consciência ética”, para que possam não apenas seguir modelos existentes, mas contribuir ativamente para o futuro do setor. Um setor em transformação exige talento capaz de transformar Das respostas emerge uma ideia forte: a formação em turismo já não pode ser pensada como uma preparação linear para funções estáveis e previsíveis. O setor pede profissionais híbridos, tecnicamente preparados, digitalmente literatos, conscientes dos impactos ambientais e sociais, capazes de comunicar, adaptar-se, interpretar dados, usar inteligência artificial, inovar e decidir em contextos de incerteza. As instituições de ensino superior estão a responder com currículos mais flexíveis, novos cursos, microcredenciais, internacionalização, maior contacto com empresas, metodologias aplicadas e reforço da sustentabilidade e da tecnologia. Mas também reconhecem que o desafio é contínuo. A velocidade da transformação do turismo obriga a uma formação em permanente atualização. No fundo, a questão já não é apenas formar para o turismo. É formar para um turismo que exige mais qualificação, mais pensamento crítico, mais responsabilidade e mais capacidade de antecipação. Como fica claro nas respostas dos responsáveis ouvidos, preparar talento para o setor significa hoje preparar pessoas para decidir, inovar e liderar num ecossistema em mudança. Les Roches Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar do Politécnico de Leiria Os estudantes procuram formações com forte componente prática, ligação direta ao mercado de trabalho, dimensão internacional e competências digitais diferenciadoras... (um dos desafios mais relevantes é) “manter o rigor académico e, simultaneamente, reforçar competências fundamentais de reflexão, interpretação e pensamento crítico” Sérgio Leandro, Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar do Politécnico de Leiria Mafalda Patuleia, Universidade Lusófona Universidade Lusófona A procura está hoje mais orientada para o desenvolvimento de competências específicas, alinhadas com as transformações do setor... Teresa Costa, Instituto Politécnico de Setúbal Instituto Politécnico de Setúbal A Porto Business School tem reforçado programas executivos e cursos curtos, mais ágeis e orientados para necessidades específicas do mercado... Rita Marques, Porto Business School Porto Business School O turismo é uma atividade atrativa, impulsionadora de projetos e de dinâmicas com grande amplitude temática e profissional. Isabel Vaz Freitas, Universidade Portucalense Universidade Portucalense A formação deve preparar profissionais para um modelo de turismo que já está em transformação... Les Roches Carlos Diez de La Lastra, Les Roches A cocriação de programas e conteúdos será, no futuro, um fator crítico para garantir a relevância da formação... Universidade Europeia É fundamental que as formações tenham impacto direto nas carreiras dos participantes e no desenvolvimento das organizações... Marta Ferreira, Universidade Portucalense Universidade Portucalense