SNS24 - PIRATA USOU DADOS DE MÉDICO PARA ACEDER A FICHAS DE CRIANÇAS
2026-05-23 21:09:14

Acesso indevido a dados de menores foi denunciado por pais nas redes sociais e em diferentes entidades. PJ está a investigar o caso desde quinta-feira, confirmou ao JN Rita Neves Costa SEGURANÇA Um hacker terá acedido às palavras-passes de um médico da Unidade Local de Saúde (ULS) do Alto Minho, incluindo as usadas por motivos profissionais, e utilizou as suas credenciais para consultar indevidamente fichas clínicas de utentes através do SNS24, sabe o JN. De acordo com vários relatos, os acessos ilegais focaram-se sobretudo em dados de crianças. A PJ abriu um inquérito, enquanto os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) referiram não comentar casos concretos. A entidade responsável pela gestão do SNS24 e pela proteção de dados na saúde não esclareceu se o acesso indevido continua ou se já cessou. Daniel Silva foi confrontado no final do dia de quinta-feira com uma mensagem da creche do filho a alertar para “acessos indevidos no SNS24 aos dados de uma série de crianças”. Segundo contou ao JN, terão sido os funcionários da instituição que verificaram que tal tinha acontecido com os próprios filhos. Após o alerta, o pai de um menino de três anos verificou que um médico tinha alegadamente consultado os dados do filho, a partir de Miranda do Corvo, no distrito de Coimbra. O mesmo terá acontecido com um número indeterminado de menores, cujos pais relataram casos semelhantes nas redes sociais. O JN também recebeu algumas denúncias por email. “Percebi mais tarde que o caso não era único na creche [do filho], mas mais generalizado”, aponta Daniel Silva. Ao contrário do filho, os seus dados no SNS24 não foram acedidos alegadamente pelo médico em causa, com o qual nunca tiveram contacto. Ambos são seguidos num centro de saúde em Matosinhos. SUSPEITA DE CRIME Ao final da manhã de ontem, a ULS do Alto Minho apontou que “tudo indica que foram comprometidas” as credenciais de um médico que trabalha na unidade, “não tendo os acessos sido realizados pelo profissional”. O médico em causa terá trabalhado anteriormente em Miranda do Corvo. O JN sabe que terá sido um pirata informático a ter acesso a várias palavras-passes do clínico, pessoais e profissionais, tendo depois acedido ilegalmente a dados de utentes na plataforma do SNS24. Não está assim em causa um ataque informático à unidade de saúde. “O compromisso das credenciais do médico terá resultado no acesso indevido a registos administrativos, não clínicos, de diversos utentes, entre os quais crianças”, disse a ULS do Alto Minho, numa nota enviada às redações. A instituição informou as autoridades e fonte da PJ confirmou ao JN que o caso foi aberto na quinta-feira, por “suspeitas do crime de acesso ilegítimo às credenciais de acesso do médico”. Os SPMS, responsáveis pela aplicação, portal e linha do SNS24, indicaram não comentar “casos concretos relacionados com matérias de segurança ou cibersegurança” e não esclareceram se estão a ser tomadas medidas para conter os danos, nomeadamente se o acesso indevido continua a ser feito ou se já terminou. Ontem, alguns utentes estavam a ter constrangimentos em aceder à informação pessoal na plataforma. FALHA DE SEGURANÇA A entidade assegura que “todas as comunicações de possíveis incidentes de cibersegurança são analisadas e está em permanente articulação com as autoridades competentes”. O JN contactou o Ministério da Saúde e a ULS de Coimbra, um dos locais a partir dos quais foi feita a consulta ilegal dos dados, em Miranda do Corvo, mas todas as explicações foram remetidas para os SPMS. A Ordem dos Médicos confirmou à agência Lusa ter recebido dezenas de queixas sobre o tema. “Tanto quanto é possível perceber, parece que estamos perante uma situação de cibersegurança, de falha em termos de segurança informática”, disse o bastonário Carlos Cortes. A CpC: Cidadãos pela Cibersegurança, organização de defesa dos direitos digitais, pediu explicações à Comissão Nacional de Proteção de Dados pela alegada violação de dados clínicos de menores. DETALHES Noite O acesso aos dados do filho de Daniel Silva, pai ouvido pelo JN, aconteceu no dia 21 de maio, quinta feira, às 00.40 horas. Audição A IL pediu uma audição urgente do presidente do Conselho de Administração dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS). Medidas A associação Criança Segura exigiu ‘‘esclarecimentos imediatos e o reforço urgente das medidas de cibersegurança por parte das entidades responsáveis no Estado”. UTENTES Cuidados a ter no portal do SNS24 A CpC: Cidadãos pela Cibersegurança pede para ativar “a notificação por email sempre que um profissional de saúde credenciado consultar a informação clínica”. Se houver acesso indevido, deve-se contactar a PJ. A CpC pede para não se divulgar o nome do médico, porque o próprio poderá ser uma vítima.