ANA BÁRBARA PEDROSA: A ESQUERDA PÕE TODOS OS OPRIMIDOS NO MESMO SACO
2026-05-24 21:09:06

Ana Bárbara Pedrosa acha que temos um “debate enviesado” por se estar constantemente “a confundir género com sexo”. Mais ainda: “A autodeterminação do género engaveta as pessoas”. A escritora e colunista do semanário Expresso Ana Bárbara Pedrosa tem 36 anos, milita no Bloco de Esquerda desde os 18, embora actualmente com menor actividade. Admite que “a esquerda vive uma crise de identidade” e que o surgimento do Chega contribuiu para isso. Não gosta do debate à volta da “autodeterminação do género” e diz que o problema dos transexuais “é uma questão do Ministério da Saúde”. O que é que a atraiu no Bloco, no momento em que preencheu uma ficha de inscrição? Tentei entrar com 13 anos e contactei o Bloco através de email. Mas o Bloco não tinha uma “jota” e não era legal um menor juntar-se a um partido. A resposta que tive foi que teria de esperar uns anos. Acho que fiz 18 anos num dia e me dirigi à sede do Bloco no dia seguinte. Atraía-me a diferença do Bloco em relação ao que me parecia uma série de posições estáticas na política portuguesa. O Bloco nasceu com frescura, falando de assuntos de que mais ninguém falava e com uma utilização retórica muito diferente do que se via quer no PS, quer no Partido Comunista. Trazia a debate assuntos que eram tabu até então e parecia-me que era capaz de agregar uma série de políticas e uma série de entidades num programa comum. Entrei aos 18, pelo menos até aos 29, 30, tinha uma actividade muito directa, entusiasta até. Em dez anos, o Bloco passou de 10% para agora eleger um deputado nas últimas eleições. O que é que aconteceu? A Mariana Mortágua até era muito popular antes de ser líder. Há vários problemas e é muito difícil pessoalizar-se dessa forma, porque se fosse outra cara o problema seria o mesmo. Acho que a esquerda está no meio de uma crise de identidade, que se reflecte na forma de utilização da oratória e, ao mesmo tempo, enfrenta um inimigo de múltiplas cabeças. Corta-se uma, aparece outra. O surgimento da extrema-direita em Portugal ajuda a criar este problema de esquerda, não porque seja uma alternativa melhor, que não é, evidentemente, mas porque simplifica de tal forma que consegue roubar votos e consegue fazer barulho. O surgimento do Chega fez com que a política passasse a estar condicionada por um elemento que até então não existia, que é o elemento do algoritmo e que o Chega manipulou como ninguém. André Ventura foi levado ao colo desde o início, é um fenómeno criado pelas várias estruturas da sociedade, mas muito ajudado pela comunicação social. Nós estamos numa batalha muito diferente porque, de um lado, há a rapidez de uma ideia feita, e do outro há a necessidade não só de apresentar um programa político, mas de desmontar a primeira narrativa, e isto tem prejudicado muito a esquerda, que, além de tudo isto, ainda tem encontrado dentro de si tabus que a impedem de se afirmar politicamente. Que tipo de tabus? Para responder a esta simplificação que a extrema-direita trouxe, a esquerda também se viu obrigada a simplificar numa série de assuntos. A extrema-direita joga a partir do ódio e isso implica que a esquerda tenha muitas vezes que responder através de um discurso que é mais emotivo do que racional. Isso ajuda a alimentar o outro lado. E, enfim, isso eleitoralmente tem sido uma catástrofe, claro. Há uma parte da retórica que importa recuperar e que a esquerda tem sido incapaz de o fazer. Está a falar em recentrar o discurso nas desigualdades sociais? É verdade que foi criado esse mito de que a esquerda abandonou a luta de classes. Não me parece que o tenha feito. Acho é que passou a simplificar a sua posição sem reparar nas mudanças da sociedade, sem estar atenta à sociedade e tendo até um discurso impermeável ao que se passa à volta ao pensar na resposta colectiva a todos os males do mundo, anula a própria ideia de individualidade, o que faz com que as pessoas não consigam rever-se nisto. O Chega identifica uma série de alvos que permitem que um eleitor possa escolher uma facção. Diz-se contra imigrantes, portanto, quem não gosta de imigrantes, encontra ali um nicho. Tem posições homofóbicas ou até classistas, quem encontra aí uma resposta, encontra aí um nicho eleitoral. A esquerda, ao... entregar ao público uma resposta agregadora e colectiva, obriga a aceitação de um pacote. E é um pacote que parte sempre de uma análise dicotómica, do opressor e do oprimido. E põe todos os oprimidos no mesmo saco. Há os oprimidos de classe, há os oprimidos de uma série de direitos sociais, direitos humanos Não é porque uma pessoa é oprimida numa determinada parte da sua vida que vai ser em todas. Ou seja, é possível uma mulher agredida ser homofóbica, é possível que um homem explorado no trabalho seja agressor em casa Mas isso quer dizer que a esquerda se dedicou demais aos assuntos ditos “woke”? Por exemplo, a autodeterminação de género. Acho inacreditável que nós, nos últimos anos, sempre que falamos de questões trans, estamos a falar de género e de autodeterminação, quando devíamos estar a falar simplesmente de acesso ao Serviço Nacional de Saúde. Não entendo como é que em 2026 ainda estamos a falar de género. O género é um problema, é uma expectativa social a ser destruída. O género é simplesmente um conjunto de expectativas sociais em torno de um indivíduo a partir do momento em que nasce, não é outra coisa. Não tem sentido encaixotarmos as pessoas desta forma, porque acaba por ser uma visão conservadora e sexista. A autodeterminação do género engaveta as pessoas. Quando falo da questão da autodeterminação de género, neste discurso, estou a excluir completamente as questões de transexualidade. Ter um corpo que é de um sexo, que passa por mutações para passar a outro, é uma questão do Ministério da Saúde. Quando vemos alguém perfeitamente razoável no corpo que tem, seja de um sexo ou de outro, a dizer-se como sendo do outro sexo, ou do outro género, aliás, acaba por reproduzir esta ideia sexista, dicotómica, binária, de que aos homens está destinada uma vida e que às mulheres está destinada outra. E, portanto, impede a própria flutuação fora desses ditames. Andamos aqui a perder tempo a falar de género e de “como é que te sentes e de como é que queres ser tratada” e se queres andar de saia, quando isto são minudências da vida quotidiana. Foto Nuno Ferreira Santos Acho que a esquerda está no meio de uma crise de identidade, que se reflecte na forma de utilização da oratória e, ao mesmo tempo, enfrenta um inimigo de múltiplas cabeças. Corta-se uma, aparece outra Ana Bárbara Pedrosa Aqui está uma frase bastante escandalosa vinda de alguém de esquerda. Falar de género são minudências da vida quotidiana? Falar desta sensação de género, do “como é que eu me sinto”, se está em conformidade, se não está em conformidade, com o que quer que seja. O debate contemporâneo está enviesado por um problema conceptual e retórico, que é nós estarmos permanentemente a confundir género com sexo. Eu ainda digo sexo, mas esforço-me para dizer género. Acho que não se deve esforçar, porque são coisas diferentes. O sexo é uma realidade biológica. O género é uma expectativa social, comportamental. Acho que essa expectativa social não devia existir. Não tem sentido falar-se da autodeterminação de um género ou de outro. O que pensa da nova lei sobre identidade de género? Eu não me oponho necessariamente à ideia de que só se possa mudar de nome aos 18 anos, é quando se atinge a maioridade. Acho que essa parte não é problemática. A parte dos bloqueadores é muito problemática. Parte de uma direita que acha sempre que a família é que deve poder tomar as decisões, mas depois, não conhecendo o assunto sobre o qual está a legislar, quer meter o dedo na família dos outros. É uma direita que não lê um único estudo, mas tem opiniões na mesma. E até acho miserável que o PSD esteja a ir na cantiga do Chega em relação a estes assuntos que são tão problemáticos. Algumas pessoas acham que a esquerda não tem conseguido lidar bem com o tema da imigração. O anterior líder do PS, Pedro Nuno Santos, disse que era preciso olhar para os problemas da imigração e para os problemas, nomeadamente, dos serviços públicos que criavam. Acha que a esquerda está a actuar bem nesta questão? Acho que é hipócrita, enquanto portugueses, estarmos a falar da imigração e dos problemas da imigração. Somos um país com uma tradição enorme de imigração com “E”. Essa imigração com “E” salvou a vida a muita gente, permitiu condições de vida monetária a muita gente. Ana Bárbara é minhota e sabe bem de onde fala. Exactamente, tudo o que é tio, avô e que fugiu para a França ou para a Alemanha durante a ditadura poderá reiterar isto. Recuando há uns anos, tínhamos Passos Coelho a aconselhar a população portuguesa jovem a emigrar. Portanto, a relação entre os portugueses e os estrangeiros, sendo esse o movimento de Portugal para fora, sempre foi vista com a benevolência de quem procura uma vida melhor. E, portanto, acho ultrajante que a extrema-direita traga este assunto como o faz e que fale de questões de criminalidade que não têm espelho nos números, que cria uma percepção de insegurança que não corresponde à insegurança das ruas. Muitas vezes é simplesmente por racismo, não é outra coisa. A Rita Matias uma altura estava muito indignada, como está sempre nas redes sociais, a dizer que o problema da crise da habitação em Lisboa se deve aos imigrantes - do Bangladesh, da Índia ou o que seja - porque vivem aos 20 por casa e, portanto, cada um deles pagando um bocado, conseguem pagar uma renda exorbitante e os portugueses não conseguem competir. Eu nunca tinha ouvido este raciocínio. Fascina-me esta forma enviesada de pensar. É fascinante, é fascinante. É mau, é de uma crueldade enorme. Não vejo nunca o Chega a falar de política a sério. A falar de imigrantes com “I” que vêm de Silicon Valley a ganhar 10 mil euros por mês e que, portanto, podem pagar um T2 no Príncipe Real a 5 mil euros por mês. Isso sim faz subir as rendas. Parece que há uma imigração boa e uma imigração má. Há a imigração tecnológica branca, muitas vezes loirinha de olhos azuis, e a falar com o sotaque inglês muito aberto; e há a imigração de países pobres, que parece que não interessa ao país. Ora, essa imigração traz contributos para a segurança social que são muito importantes. E traz uma diversidade social que enriquece culturalmente uma cidade, seja ao nível da gastronomia, seja ao nível da utilização de línguas diferentes, seja ao nível do conhecimento que temos uns dos outros, de movimentos que existem na vida, de pessoas que moravam do outro lado do mundo e que trazem uma realidade completamente diferente para a nossa vida quotidiana. Tudo isto enriquece. O que é pobre é uma cidade fechada sobre si mesma, um país fechado sobre si mesmo, é existirmos enquanto redoma dentro de uma portugalidade que parece uma bolha impermeável ao que está lá fora. Salazarista. Salazarista, claro. E esta extrema-direita adora a ideia de recuperar três Salazares, ignorando uma série de questões. Encontra nos imigrantes um alvo, praticamente quer mandar os imigrantes para a terra deles. Se tirarmos esta questão que é imoral e é cruel, a verdade é que a extrema-direita depois também não tem uma resposta para os problemas que seriam criados. Qual seria o impacto na demografia do país? Qual seria o impacto na economia do país? O que é que se ia fazer aos milhões que perderíamos de contribuições para a segurança social? Voltamos ao início da nossa questão: trata-se de identificar um alvo e de alguma forma ganhar os votos de alguém que olha para um turbante e sente uma estranheza e acredita na narrativa de que Portugal vai estar cheio de turbantes e que nós não queremos andar de turbantes e, portanto, encontra ali uma fileira. tp.ocilbup@sepol.as.ana "Há uma parte da retórica que importa recuperar e que a esquerda tem sido incapaz de o fazer" Nuno Ferreira Santos Nuno Ferreira Santos Ana Sá Lopes