QUANDO AS FÁBRICAS DE CARROS OLHAM PARA A GUERRA: DEFESA ABRE UMA NOVA FRENTE PARA A INDÚSTRIA AUTOMÓVEL EUROPEIA
2026-05-25 21:05:38

Ouça este artigo Clique para reproduzir A indústria automóvel europeia, pressionada pela concorrência chinesa, pelos custos da eletrificação e por fábricas com capacidade por utilizar, começa a olhar com mais atenção para um setor que até há pouco tempo parecia distante: a Defesa. O L Automobile Magazine destaca que marcas como Mercedes-Benz, Renault, Volkswagen e Porsche SE já admitem, em diferentes graus, explorar oportunidades industriais ligadas ao mercado militar. O sinal mais recente veio da Mercedes-Benz. Questionado pelo Wall Street Journal , o CEO do grupo, Ola Källenius, admitiu que a marca poderia vir a ter um papel mais significativo na indústria de defesa, desde que essa aposta trouxesse benefícios económicos reais. A declaração foi cautelosa: não há projetos concretos anunciados nem programas industriais detalhados. Ainda assim, a abertura da Mercedes é relevante porque toca num ponto central: a experiência industrial das fabricantes automóveis. Produzir máquinas complexas, com padrões elevados de qualidade, controlo de custos e capacidade de escala, é uma das competências históricas do setor. E a Mercedes não parte totalmente do zero. A marca já disponibiliza há vários anos versões militares do Classe G e continua a ser a principal acionista da antiga divisão de veículos pesados, com atividades que também incluem aplicações militares. O caso da Mercedes não é isolado. A Renault confirmou no início deste ano a montagem de drones no âmbito do projeto Chorus, em Le Mans, em parceria com a Turgis Gaillard. Segundo o texto citado pelo L Automobile Magazine , a capacidade de produção poderá chegar a 600 unidades por mês em menos de um ano. A Renault, no entanto, procurou enquadrar a iniciativa. A marca francesa sublinhou que não pretende transformar-se num grande grupo de defesa, mas sim aproveitar competências industriais já existentes. A mensagem é semelhante à da Mercedes: este não é, pelo menos para já, um desvio estratégico total, mas uma forma de usar capacidade, conhecimento e processos que já fazem parte da indústria automóvel. Continue a ler após a publicidade O interesse é fácil de perceber. As fabricantes sabem desenhar produtos complexos, gerir cadeias de abastecimento, controlar custos e produzir rapidamente em grande escala. Essas são precisamente algumas das capacidades que a indústria europeia de defesa procura reforçar, numa altura em que a guerra na Ucrânia e a instabilidade geopolítica levaram vários países europeus a aumentar os orçamentos militares. Há outros sinais da aproximação entre os dois setores. A Volkswagen estará a discutir possíveis colaborações industriais ligadas a sistemas de defesa. A Rheinmetall, grupo alemão especializado em armamento e também com presença em componentes automóveis, pondera converter parte da sua capacidade produtiva automóvel para responder às suas próprias necessidades. Já a Porsche SE anunciou em 2025 que estava a estudar uma entrada no mercado dos drones. Apesar disso, não se trata necessariamente de uma transformação das fabricantes automóveis em grupos militares. A própria Mercedes fala num possível “nicho”, minoritário dentro das suas atividades. A Renault também insistiu que estes projetos não devem retirar investimento ao negócio principal. Continue a ler após a publicidade A mudança parece, por isso, mais industrial do que ideológica. De um lado, o automóvel europeu enfrenta uma fase exigente: abrandamento em alguns mercados, pressão sobre margens, investimento pesado na eletrificação, excesso de capacidade e concorrência chinesa cada vez mais agressiva. Do outro, a defesa vive o movimento inverso, com mais encomendas, mais despesa pública e necessidade urgente de capacidade produtiva. A convergência entre estes dois mundos torna-se, nesse contexto, menos surpreendente. A indústria automóvel procura novas formas de rentabilizar fábricas, conhecimento técnico e cadeias de produção. A defesa procura escala, rapidez e capacidade industrial. Entre os dois setores, começa a desenhar-se uma zona comum que há poucos anos parecia improvável, mas que a nova realidade económica e geopolítica europeia tornou mais plausível. Automonitor