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DRONES MÉDICOS, SATÉLTES E VIDEOJOGOS: O NOVO MAPA TECNOLÓGICO DO PRR

Jornal de Notícias Online

2026-05-26 11:38:04

PRR dá asas a projetos inovadores Foto: Direitos reservados Universidades, câmaras municipais e empresas juntaram-se, nos últimos três anos, numa lógica de cooperação inédita para desenvolver novos produtos, processos e serviços financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). O modelo está na base das chamadas agendas mobilizadoras, que são 51 consórcios destinados à inovação empresarial formados por empresas, instituições científicas e entidades públicas que começam agora a apresentar resultados concretos em áreas tão distintas como o espaço ou a indústria automóvel. As agendas mobilizadoras entram agora na sua fase decisiva, o momento de avaliação final. O principal critério de sucesso são os chamados PPS - Produtos, Processos e Serviços - que cada consórcio terá de comprovar junto do IAPMEI até ao próximo mês. "São os indicadores de resultado que cada agenda terá de demonstrar que concluiu", explicou Pedro Dominguinhos, presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR. No terreno, multiplicam-se já exemplos de inovação com aplicação concreta e impacto económico. Um dos casos destacados é a Neuraspace, criada praticamente com o PRR, que desenvolveu uma plataforma tecnológica para gestão de lixo espacial. A empresa já gere mais de 500 satélites em todo o mundo através de algoritmos que antecipam colisões e propõem manobras automáticas para evitar detritos espaciais. Trata-se de um problema crescente para a comunidade científica, à medida que aumenta o número de objetos em órbita. Monitorização do clima Na área aeroespacial, a agenda "Aero.Next Portugal" já lançou satélites da chamada "Constelação do Atlântico", desenvolvida entre Portugal e Espanha para monitorização do oceano Atlântico e recolha de dados climáticos, projeto que envolve a Força Aérea Portuguesa e a Geosat. Também a LusoSpace colocou cinco satélites em órbita no âmbito da constelação Lusíadas. "O objetivo é transformarem-se numa aplicação de mapeamento por GPS, o "Waze dos mares"", explicou Dominguinhos, referindo-se à monitorização permanente de rotas marítimas. LusoSpace colocou cinco satélites em órbita (Foto: Direitos reservados) No setor aeronáutico, a Tekever está a desenvolver drones de grande dimensão, com aplicações que incluem o transporte de órgãos e material médico. Estes sistemas poderão revolucionar a logística hospitalar, reduzindo tempos de resposta em situações críticas, sobretudo em zonas de difícil acesso. Na indústria automóvel, a Stellantis Mangualde já produz veículos comerciais elétricos destinados à exportação e, em julho de 2024, foi elogiada pelo antigo presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. "O Estado tem de pôr olhos na Stellantis". Por seu lado, a portuguesa MCG desenvolveu uma nova peça de suspensão que já estará a gerar entre 15 e 20 milhões de euros anuais. Sediada no Carregado, o seu projeto permitiu à empresa reforçar a sua presença na cadeia de valor automóvel internacional através de um produto de maior valor acrescentado. Outro exemplo é o consórcio eGames Lab, que está a criar um ecossistema nacional de videojogos com polos na Madeira, Açores, Lisboa e Évora. Ao JN, o diretor científico, Pedro Campos, referiu que o consórcio já publicou mais de 130 artigos científicos, prevendo lançar até nove videojogos, e ajudou a consolidar a indústria portuguesa. "Portugal não tinha praticamente presença internacional nesta área". Loja inteligente O projeto contribuiu para aumentar a visibilidade internacional do setor português através da presença em conferências internacionais e da aproximação a empresas como a Amazon, Sony e Epic Games. Já no retalho, a parceria entre a Sonae e a Sensei criou em Leiria a maior loja inteligente da Europa, onde os produtos retirados das prateleiras são automaticamente registados através de inteligência artificial e câmaras. O sistema utiliza câmaras e inteligência artificial para identificar automaticamente os produtos retirados das prateleiras, criando um carrinho virtual sem necessidade de leitura manual na caixa. Saber mais Dimensão reduzida Em Portugal, muitas agendas ficam entre 50 e 250 milhões de euros de investimento, mas na Europa projetos ultrapassam frequentemente os mil millhões. A diferença está na dimensão. Saída da H2Enable Das 52 agendas aprovadas inicialmente, a H2Enable, liderada pela Bondalti, acabou por sair do programa. Projetos concluídos Entre os PPS já concluídos destacam-se projetos nas áreas da mobilidade inteligente e da economia espacial, com soluções baseadas em inteligência artificial e observação da Terra. Perguntas e respostas O que são as agendas mobilizadoras? As agendas mobilizadoras são projetos financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), programa apoiado pela União Europeia para acelerar a recuperação económica e modernização dos Estados-membros após a pandemia. O objetivo é transformar conhecimento científico em atividade económica, reforçando a competitividade da economia portuguesa até 2026 através do desenvolvimento de novos produtos, processos e serviços inovadores. Como funcionam estes projetos? As agendas funcionam através de consórcios entre empresas, entidades científicas e, em alguns casos, autarquias ou associações empresariais. As universidades desenvolvem investigação e tecnologia, enquanto as empresas transformam essa inovação em produtos comercializáveis. Muitas das agendas estão ligadas à transição digital, sustentabilidade, indústria, espaço, saúde ou videojogos. Qual o impacto esperado na economia? O PRR destinou mais de 2800 milhões de euros às agendas mobilizadoras, com o objetivo de criar novos negócios, aumentar exportações e gerar emprego qualificado. Alguns projetos já estão a produzir resultados concretos, como satélites, componentes automóveis, drones, videojogos e lojas inteligentes baseadas em inteligência artificial. "Agendas vieram dar um "boost" comercial" Pedro Dominguinhos, Presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR O que são os PPS das agendas mobilizadoras? Os PPS são os Produtos, Processos e Serviços que cada agenda tem de concluir e demonstrar perante o IAPMEI. São os indicadores de resultado que medem o sucesso dos projetos. Portugal comprometeu-se com 959 resultados perante a Comissão Europeia, mas as agendas comprometem-se com cerca de 1207, o que cria uma margem face aos objetivos. Até 30 de junho, cada consórcio terá de apresentar dossiês de evidência acompanhados por relatórios de peritos independentes. Que impacto concreto já está a ter o PRR? Estamos já a falar de produtos comercializados no mercado. Por exemplo, a Neuraspace gere mais de 500 satélites para evitar colisões espaciais e a MCG criou uma peça automóvel que gera até 20 milhões por ano. Há também videojogos, drones médicos, satélites e lojas inteligentes já em funcionamento. O que distingue estas agendas mobilizadoras? O foco no mercado. Estas agendas apoiam todo o ciclo de vida do investimento, desde a investigação até à comercialização. Somos muito bons na investigação e nos protótipos, mas menos competitivos na passagem para o mercado. As agendas vieram dar esse "boost" comercial. Rui Farinha