SÓ OS IMIGRANTES É QUE PODEM TRAVAR O COLAPSO ECONÓMICO DE PORTUGAL
2026-05-26 21:06:12

Relatório alerta para a baixa qualificação dos empregos da maioria dos imigrantes Foto: Adelino Meireles O país está a entrar numa armadilha demográfica e laboral que ameaça transformar a falta de trabalhadores num dos maiores bloqueios ao crescimento económico da próxima década. O alerta é deixado pelo relatório "Emprego em Portugal", apresentado esta terça-feira em conferência no Porto e elaborado pelo CoLABOR juntamente com a Sonae, Mota-Engil, DST e ConfMinho, que traça um retrato duro de um país envelhecido, incapaz de reter jovens qualificados e dependente da imigração para evitar uma crise estrutural no mercado de trabalho. O diagnóstico, ao qual o JN teve acesso, é frontal: "Se nada for feito, parece provável que a situação se intensifique nos próximos anos, devido ao envelhecimento da população e, consequentemente, da força de trabalho". O relatório identifica um sistema económico preso a baixos salários, fraca produtividade e incapacidade de atrair ou fixar mão de obra qualificada. Apesar do desemprego relativamente baixo, as empresas continuam com vagas por preencher e dificuldades de recrutamento. O problema tornou-se estrutural. O país está a perder trabalhadores em várias frentes ao mesmo tempo. Há menos jovens, mais reformados, forte emigração e uma integração caótica dos migrantes. A imigração surge não apenas como complemento, mas como condição de sobrevivência económica. Os estrangeiros já representam cerca de 10% da força de trabalho em Portugal e o saldo migratório tornou-se positivo. Sem eles, vários setores estariam já em rutura, da construção ao turismo, da agricultura aos serviços. Mas o relatório acusa o Estado de estar a falhar na integração. A burocracia, a lentidão da AIMA, as dificuldades no reconhecimento de qualificações e a precariedade laboral estão a desperdiçar mão de obra essencial. "A dificuldade em definir e operacionalizar políticas consistentes para fixar imigrantes reduz a capacidade de renovar a força de trabalho", alerta o estudo. Paradoxo explosivo Há ainda um paradoxo explosivo: Portugal precisa desesperadamente de trabalhadores estrangeiros, mas continua a empurrá-los para empregos mal pagos, precários e abaixo das suas qualificações. O documento fala em "sobrequalificação", discriminação e vulnerabilidade social dos estrangeiros, muitos deles presos em processos de regularização demorados ou dependentes da economia informal. O estudo defende que a imigração não pode continuar a ser tratada apenas como resposta de emergência para tapar buracos no mercado de trabalho. Exige uma estratégia integrada de acolhimento, regularização, reconhecimento de diplomas, aprendizagem da língua e acesso à saúde e habitação. Entre as recomendações prioritárias, surge precisamente um "programa de integração multifacetada à chegada de imigrantes". Travar fuga Ao mesmo tempo, os autores insistem que a solução não passa apenas por importar trabalhadores. É necessário travar a fuga dos nacionais e aumentar a produtividade da economia. O relatório denuncia que grande parte do emprego criado desde 2013 continua concentrado em setores de baixo valor acrescentado, incapazes de pagar salários competitivos. "Portugal continua a ter níveis de produtividade inferiores à média da UE", lê-se. O resultado é um círculo vicioso: baixos salários alimentam a emigração, a saída de trabalhadores agrava a escassez de mão de obra e a falta de qualificações trava a modernização da economia. Mas Portugal continua a ser terra de emigrantes. O relatório sublinha que somos o quarto país da União Europeia com mais emigrantes em proporção da população residente. E os que saem são precisamente os mais qualificados. "A engenharia e a informática são as áreas de formação com população mais propensa a emigrar", diz o documento, apontando salários baixos, carreiras frágeis e condições de vida precárias como motores da fuga. O país forma quadros qualificados com investimento público, mas depois deixa-os partir. "A saída de profissionais qualificados e/ou com experiência é uma perda significativa para todo o tecido produtivo português", conclui o relatório. Para quebrar esse ciclo, o documento propõe uma mudança profunda: valorização do ensino profissional, reforço da ligação entre empresas e formação, reconversão da economia para setores de maior valor acrescentado e políticas agressivas de retenção de trabalhadores. Diagnóstico aprofundado O documento parte de um diagnóstico aprofundado sobre as principais tendências do emprego em Portugal, centrado em três temas considerados críticos: "competências, expectativas e qualidade do emprego", "movimentos migratórios" e "políticas fiscais e trabalho". Os autores analisaram a forma como o envelhecimento da população, a emigração e a imigração estão a redesenhar a força de trabalho portuguesa, mas também os bloqueios estruturais da economia, os baixos salários e a falta de articulação entre formação e necessidades das empresas. O estudo explica que foi dada "especial atenção às condições de formação das competências adequadas às mudanças na estrutura da economia", à interação entre "fatores demográficos e migratórios" e à necessidade de reforçar o diálogo social, a produtividade e o valor acrescentado da economia portuguesa. O objetivo foi construir um mapa das fragilidades estruturais que estão a travar o crescimento do emprego e da competitividade do país. A primeira parte do relatório, intitulada "Diagnóstico: 9 questões para agendamento", identifica precisamente nove problemas centrais que condicionam o mercado de trabalho português e que exigem resposta política urgente. Entre eles surgem as dificuldades de crescimento da força de trabalho, os desajustamentos entre oferta e procura de competências, a incapacidade de reter trabalhadores qualificados, a subutilização da população ativa e a integração deficitária dos imigrantes. Conferência explica relatório A conferência "Emprego em Portugal: políticas públicas e estratégias empresariais", que decorre esta terça-feira, na Fundação Manuel António da Mota, no Porto, reune académicos, economistas, juristas e jornalistas para discutir os desafios do mercado de trabalho. A sessão arranca com Rui Pedroto e Manuel Carvalho da Silva e inclui uma mesa-redonda com Catarina Carvalho, João Cerejeira, Inês Cardoso e Pedro Brinca. O encerramento estará a cargo do secretário de Estado Adriano Moreira e Rute Guerra, numa iniciativa dedicada à apresentação do relatório. Cinco medidas a tomar1- Crescimento da força de trabalho Reforçar o modelo de ensino profissional como instrumento estruturante de capacitação para otrabalho, a inovação e a inclusão. 2- Subutilização da população Promoção de programas de formação e de acreditação profissional nas áreas da transição digital e verde, dirigidos a grupos específicos em situação de maior vulnerabilidade. 3- Fluxos migratórios e trabalho Providenciar serviços-chave durante a fase inicial de chegada de imigrantes nos primeiros cincoanos, a qual é considerada fase determinante na obtenção de experiências de integração positivas. 4- Produtividade e salários Promover uma transição para setores estratégicos e de maior valor acrescentado através da definição de estratégias concertadas e mecanismos eficazes de governação. 5- Inadequações na fiscalidade Reforçar a justiça fiscal através da promoção da literacia fiscal ao longo da vida. António José Gouveia