PATERNIDADE - EM PAUSA
2026-05-27 21:07:22

E PAUSA Durante muito tempo, parecia não haver um limite de idade para ser pai. No entanto, à medida que surgem mais evidências de um "relógio biológico” masculino, cresce o interesse pelo congelamento de espermatozoides. Será que guardar as esperanças de uma futura família num laboratório realmente compra mais tempo? QuER PATERNIDADE já tenha passado pela sua cabeça ou não, provavelmente ainda não sabe que o setor da fertilidade masculina em Portugal tem registado um aumento significativo de procura e relevância, acompanhando a tendência de que a infertilidade masculina é responsável por cerca de 40% a 50% dos casos de infertilidade nos casais*. Até agora, o crescimento nos últimos anos tem girado em torno de testes para garantir que tudo está a funcionar corretamente: desde exames completos em clínicas, que podem custar centenas ou mesmo milhares de euros, até kits para casa, mais acessíveis e disponíveis em farmácias. No entanto, há uma nova opção a surgir que especialistas dizem poder tornar-se comum entre homens que pensam a longo prazo: o congelamento de espermatozoides. “Nos últimos anos, temos registado um aumento claro na procura por congelamento de esperma, tanto por motivos médicos como por motivos sociais”, afirma Nuno Louro, médico especialista em urologia, dedicado à andrologia na ULS Santo António e na Procriar ono Porto, acrescentando que “os homens estão cada vez mais conscientes da possibilidade de preservar a fertilidade e de antecipar decisões sobre a paternidade”. Para alguns, essa consciência surge cedo ede forma muito concreta. Lucas Santos, de 28 anos, começou a pensar no tema há cerca de dois anos: “Eu comecei a pensar nisso quando iniciei a minha transição de género e para futuramente ter uma certeza. Ter alguma coisa para, se eu decidir ter um filho um dia, poder contar com isso”. E provável que já tenha ouvido falar de mulheres que congelam óvulos = um procedimento caro e invasivo que exige várias injeções hormonais. Em comparação, o congelamento de esperma é muito mais simples e menos intrusivo. “Recolhe-se a amostra, faz-se uma avaliação inicial, adiciona-se um meio crioprotetor e procede-se à congelação controlada. Depois, o esperma é armazenado em azoto líquido”, explica Sofia Figueiredo, médica especialista em ginecologia-obstetrícia na maternidade Dr. Alfredo da Costa, em Lisboa, e subespecialista em medicina da reprodução pela Ordem dos Médicos. Antes de ser congelada, a amostra é analisada ao microscópio, avaliando-se a concentração, a morfologia (forma e estrutura) e a motilidade (movimento). De forma geral, “pode ser preservada durante vários anos sem perda clinicamente significativa da sua qualidade”, afirma a especialista. No caso de Lucas, o processo foi vivido com tranquilidade: “Eu fui à AVA Clinic duas vezes: fiz a primeira preservação, depois disseram-me que eu poderia realizar uma segunda para ter uma percentagem maior. Então, foram realizadas duas colheitas. A equipa tratou-me super bem” Tradicionalmente, o congelamento de esperma é utilizado por razões médicas antes de tratamentos como quimioterapia ou radioterapia. “Segundo as recomendações internacionais, a preservação da fertilidade masculina deve ser considerada sobretudo em situações em que exista risco de infertili-dade futura”, refere Sofia Costa, ginecologista especialista na área da medicina da reprodução ono Centro Procriar, ono Porto. No entanto, a procura social está a aumentar, refletindo mudanças culturais e sociais que colocam a parentalidade tardia como uma opção viável. Como assim? Essa mudança já é visível na forma como clínicas promovem o serviço: “Preserve a sua fertilidade até estar pronto para ter filhos”. Surge assim o chamado “congelamento social de espermatozoides” feito por razões não médicas, numa fase mais jovem da vida, quando a qualidade é melhor. “Pode fazer sentido, mas depende muito da intenção e edo contexto”, diz Catarina Lucas, psicóloga e diretora do centro Catarina Lucas, em Lisboa, acrescentando que “a ideia de seguro é apelativa porque dá uma sensação de controlo sobre o futuro, algo que muitas pessoas procuram. No entanto, é importante lembrar que não é uma garantia , é uma possibilidade”. As motivações variam: foco na carreira, ausência de uma relação estável, desejo de manter opções abertas ou experiências próximas com infertilidade. “Cada uma destas motivações tem uma dimensão emocional importante e merece ser explorada com curiosidade, não com julgamento”, sublinha a psicóloga. No caso de Lucas, a decisão foi clara e sustentada: “Eu sempre tive muita certeza disso , de fazer, de preservar”. Sem indicação clínica, foi uma escolha de planeamento pessoal: “Não tenho histórico familiar de infertilidade, foi mesmo pelo futuro. Se tiver alguma doença, caso aconteça alguma coisa, eu tenho uma amostra boa e saudável” Andreia Filipe Vieira, psicóloga no Hospital Trofa Saúde Gaia, reforça que a decisão é mais válida quando surge de reflexão consciente e não de ansiedade ou pressão externa: “Biologicamente, quanto mais cedo, melhor. Psicologicamente, a idade ideal é quando o homem consegue refletir sobre o futuro, os seus valores e a parentalidade que deseja”. Nuno Louro acrescenta que “hoje, cada vez mais homens procuram esta opção por planeamento familiar, adiamento da paternidade ou simplesmente curiosidade sobre como o envelhecimento pode afetar a fertilidade. Esta tendência social não existia de forma tão clara há uma década”. Investir na fertilidade O interesse pelo tema acompanha uma tendência mais ampla de preocupação com a saúde. Tal como se monitoriza o sono ou a frequência cardíaca, o esperma passou a ser visto como indicador de saúde geral. Como se renova a cada três meses, mudanças no estilo de vida podem melhorar ou piorar a asua qualidade. Nuno Louro destaca: “o congelamento de esperma não substitui hábitos saudáveis. A prevenção continua a passar por estilo de vida adequado = alimentação equilibrada, exercício, sono regular e controlo de substâncias como tabaco e álcool. Mesmo o esperma congelado precisa de ser utilizado num contexto de fertilidade assistida”. “Vivemos num contexto onde a parentalidade é cada vez mais tardia, a estabilidade financeira é valorizada antes de ter filhos e as relações são mais fluidas e menos previsíveis”, afirma Catarina Lucas. Normas culturais sobre masculinidade, que durante décadas assumiram a fertilidade como garantida, estão a mudar lentamente, com mais informação e abertura emocional. Segundo Virgínia Marques, nutricionista na área da fertilidade e gravidez (@virginiamarquesnutricionistz), o estilo de vida tem impacto direto: alimentação, sono, exercício, tabaco e álcool influenciam a motilidade, concentração e integridade do ADN espermático. A adesão a padrões como a dieta mediterrânica, perda de peso, prática regular de exercício, sono adequado e gestão do stress são determinantes mais sólidos que qualquer suplemento genérico. Questões de paternidade Apesar de os homens poderem conceber em idades avançadas, a qualidade dos espermatozoides diminui com o tempo. “Existe um relógio biológico masculino, mas funciona de forma diferente do das mulheres. O envelhecimento reprodutivo é mais gradual e não existe uma quebra abrupta como acontece com a menopausa”, explica Sofia Figueiredo. As alterações tornam-se mais evidentes a partir dos 40 anos e mais consistentes depois dos 50, podendo associar-se a pior qualidade do esperma e a um aumento de alguns riscos para a descendência. Recorrer ao esperma congelado não é uma solução simples. Sofia Costa salienta: “Uma amostra congelada implica sempre recorrer a técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) ~ inseminação intrauterina, FIV ou ICSI. Não se trata de fertilidade natural guardada), mas sim de preservar a possibilidade de recorrer à PMA Ono futuro” Congelar ou não? Muitos veem o congelamento como forma de segurança, ainda que imperfeita. “Há risco de se criar uma falsa sensação de segurança”, alerta Catarina Lucas. Andreia Filipe Vieira concorda e acrescenta que “esse é talvez o maior risco psicológico. A existência desta tecnologia pode levar alguns homens a acreditar que a paternidade fica resolvida), como se pudesse ser adiada indefinidamente sem consequências”. Ainda assim, para quem passa pelo processo, o impacto emocional pode ser significativo. Lucas descreve o momento após a decisão: “Quando eu realizei o procedimento senti-me aliviado e senti-me mais confortável por saber que posso ser pai no futuro”. Do ponto de vista clínico, não é uma necessidade generalizada. Sofia Costa sublinha que homens sem fatores de risco médico, jovens e sem infertilidade conhecida não têm, em geral, indicação médica formal. “o mais importante é perceber que a congelação de espermatozoides não garante um filho no futuro. Preserva uma possibilidade reprodutiva, não a fertilidade natural”. Nuno Louro acrescenta que a procura tem vindo a crescer e é provável que se torne mais comum. No entanto, o custo, aacessibilidade limitada a grandes centros urbanos e a necessidade de técnicas assistidas continuam a ser barreiras. Para Lucas, a decisão encaixa num projeto de vida claro: “Eu quero ter só um filho. Então, acredito que me vou dedicar 100% a isso e acredito que serei um bom pai. Acredito que farei tudo o que estiver ao meu alcance para lhe dar uma boa educação e amor”. O desejo não é recente: “Sempre tive esse sonho. Eu sou filho adotado, então é uma coisa que eu sempre quis ter, seja meu ou não”. E quando questionado sobre a decisão, responde sem hesitar: “Sim, eu recomendaria a todos os homens que querem ser pais, porque não sabemos o dia de amanhã, como pode estar a nossa saúde e anossa fertilidade”. No final, resume a experiência de forma direta: “Eficiência e qualidade.” Mh V Amostras saudáveis de esperma podem ser congeladas para serem usadas quando estiver realmente pronto para constituir família: “o congelamento de esperma não substitui hábitos saudáveis” VCongelar esperma significa que os homens podem guardar amostras quando a sua saúde está no melhor estado. QUATRO FORMAS DE MELHORAR A QUALIDADE DO ESPERMA Deixar de fumar Um estudo de 2015* mostrou que fumar mais de 20 cigarros por dia reduz a concentração de esperma em 19%. 7 Reduzir o álcool Uma pesquisa de 2023* associou mais de sete unidades semanais a pior qualidade do sémen. 3 Fazer exercício Atividade física moderada regularmente aumenta a contagem de espermatozoides, mas excesso pode ser prejudicial*. 4 Consumir proteína de qualidade De acordo com a European Fertility Society, a carne branca, peixe, ovos e leguminosas estão ligados a melhor qualidade emotilidade do esperma. JOANA FERNANDES