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SEGURO E MONTENEGRO: CHOQUE NA COABITAÇÃO?

Público Online

2026-05-27 21:07:47

O relatório da primeira Presidência Aberta de António José Seguro não deixa margem para dúvidas. O novo Presidente inaugurou uma nova era e isso não vai ser confortável para o Governo. Muitas das críticas que se fizeram a António José Seguro durante a campanha eleitoral eram de que seria um Presidente irrelevante, com pouca iniciativa, sem vontade de ser interventivo ou de criar ondas. Nada mais errado. Em pouco mais de dois meses, já se percebeu que o ex-secretário-geral do PS que esteve afastado durante dez anos da vida política e partidária teve muito tempo para pensar e planear um novo estilo de Presidente da República, que quer estar perto da população sem precisar de dar muitos beijinhos e tirar selfies e que quer ser fiscal e conselheiro do Governo de um modo mais transparente. O relatório sobre a Presidência Aberta na região centro fustigada pelo “comboio de tempestades” mostra bem isso tudo. Mostra às populações que visitou como registou as suas preocupações, sistematizou dados, agregou testemunhos e devolveu conclusões claras. Ao mesmo tempo, evidencia ao país o que já foi transmitido ao Governo e aquilo que servirá de bússola para os próximos tempos, tanto na prevenção de riscos como na reconstrução e no ordenamento do território. Introduz método, calendário e métricas, e isso cria expectativas - e responsabilidades. O caso do Pacto Estratégico para a Saúde também é revelador do tipo de Presidente que Seguro quer ser. É, no mínimo, uma iniciativa arriscada. Poderá ser exagero dizer, como disse Paulo Pedroso em entrevista ao PÚBLICO/Renascença, que nunca desde o general Eanes houve tal intromissão na esfera da governação por parte de um Presidente da República, mas não deixa de ser de assinalar a inovação e a ambição. Já houve pactos para a justiça patrocinados por Belém, mas nunca nesta área da saúde que é mais divisiva nos partidos. Não só há o risco de o pacto ser uma mão cheia de nada, como enquanto os consultores de Belém trabalham, o Governo prossegue aparentemente o rumo no Ministério da Saúde, sem esperar pelos inputs de Seguro. O Conselho de Ministros aprovou recentemente a chamada lei dos tarefeiros e tem previsto para breve a revisão da lei de bases da saúde, lei estruturante de toda a política de saúde. Não será inteiramente confortável para o Governo lidar com um Presidente assim, mais vigilante e com mais apetite para marcar ele próprio a agenda do Governo, mas os tempos pedem mais exigência e não são só os partidos tradicionais que estão esgotados, os modelos de Presidente que havia também. tp.ocilbup@arierep.aneleh Helena Pereira