MINISTRA CONTRADIZ QUEBRA NO SNS COMPARANDO-O COM ANO PANDÉMICO
2026-05-27 21:08:49

Ana Paula Martins aponta falhas a estudo da Universidade Nova que conclui que em 2025 foram menos e piores os cuidados prestados aos portugueses, comparando-os à atividade em 2020, ano de grandes constrangimentos devido à covid-19. Na apresentação do “Índice de Saúde Sustentável 2025/2026”, esta quarta-feira, a ministra da Saúde deixou ainda um recado: “Os comentadores têm de ter responsabilidade acrescida” A ministra da Saúde aponta várias falhas ao estudo sobre a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que esta quarta-feira foi apresentado pela NOVA-IMS e pela biofarmacêutica AbbVie e que conclui que em 2025 os portugueses receberam menos cuidados e com uma qualidade técnica inferior ao ano anterior. Ana Paula Martins resume as conclusões a uma “perceção da realidade por parte dos cidadãos”, que responderam à sondagem, e contrapõe com dados oficiais. Para sustentar um aumento da atividade, compara a realidade atual com 2020, ano de pandemia e durante o qual as unidades de saúde sofreram grandes constrangimentos. Ou seja, Ana Paula Martins escolheu indicadores muito abaixo de um ano comum no SNS e, por isso, facilmente ultrapassáveis. “Poderia discutir os indicadores utilizados, mas naturalmente não o vou fazer. Poderia discutir a descrição geográfica, por não ser conhecida, pelo menos no estudo ou na ficha do estudo, mas também não o vou fazer. E poderia discutir a não expressão da margem de erro, mas também não o vou fazer”, explicou a ministra no início da sua intervenção na 14ª Conferência Sustentabilidade em Saúde, que decorreu esta quarta-feira, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Salientando que “não é expectável que o cidadão, em geral, compreenda a discussão, muitas vezes, demasiado complexa para daí retirar as devidas conclusões”, a ministra atribuiu a culpa a quem analisa a Saúde. “O tema da comunicação é especialmente sensível e relevante para a compreensão de todo o sistema e da sua compreensão por todos” e, por isso, a presença de “comentadores na comunicação social tem de levar, obrigatoriamente, a uma responsabilidade acrescida nos comentários que produzem”. Para contradizer os vários diagnósticos de redução na atividade do SNS, Ana Paula Martins recorreu aos dados oficiais, mas de 2020. “Atingimos o número mais elevado de cirurgias no SNS, cerca de 458 mil em 2020 e 739 mil em 2025. Face a 2020, a atividade adicional registada em 2025 foi cerca de 11,5 vezes superior. Mas também, no que respeita à atividade cirúrgica, em horário base se observa um aumento.” Ou seja, “operámos e rentabilizámos cada vez melhor os recursos físicos e humanos disponíveis”. Além disso, “no que se refere ao número de doentes operados ao abrigo de acordos fora do SNS, tem-se mantido com valores estáveis desde, pelo menos, 2020, contrariando a afirmação de muitos de que o Governo está a desnatar o SNS e a passar atividades para o setor privado ou social”. Já “no que se refere às Urgências, verificou-se uma redução global do número de episódios de cerca de 33% entre 2020 e 2025, significando que os doentes verdadeiramente urgentes são os doentes que estão a ser atendidos em ambiente de urgência e assim vai continuar a ter de ser”. Nas consultas, “registrou-se um crescimento contínuo das primeiras consultas hospitalares que representa em 2025 cerca de 100 mil doentes a mais do que existiam em 2022. Um aumento que, no entanto, todos sabemos, não conseguiu acompanhar as necessidades do sistema”. E conclui: ”Apesar de fazermos muito mais, há cada vez mais procura no sistema e é por esta razão que temos de encontrar soluções diferentes, e defendemos no Governo, também fora do SNS.” 90% do IRS Ana Paula Martins além do recado aos analistas, deixou um repto a todos: “Estes números e muitos outros obrigam necessariamente a uma reflexão coletiva. Produzimos mais no SNS, o número de doentes aumenta, a contribuição do setor privado e social aumenta igualmente e a lista de espera aumenta igualmente.” Ainda assim, “apesar do esforço permanente das nossas unidades locais de saúde e dos nossos profissionais, tem sido difícil acompanhar o permanente aumento dos seus números, um aumento que cresce a uma velocidade superior àquilo que o sistema tem conseguido crescer e adaptar-se". Mesmo “apesar do aumento permanente de recursos, de investimento financeiro, quase 90% neste momento de todo o IRS que atribuímos aos portugueses e da sua disponibilização através de vários mecanismos”. Vera Lúcia Arreigoso Jornalista Vera Lúcia Arreigoso