"CORREMOS O RISCO DE DESTRUIR UMA LENDA": PRIMEIRO ELÉTRICO DA FERRARI GERA REAÇÕES NEGATIVAS (ATÉ DO GOVERNO ITALIANO) E FAZ CAIR AÇÕES DA MARCA
2026-05-27 21:08:59

Apresentação do Luce, o primeiro Ferrari totalmente elétrico, desencadeou uma onda de críticas de investidores, especialistas e antigos responsáveis da marca A estreia do primeiro Ferrari totalmente elétrico está a gerar forte contestação entre investidores e críticos, com o novo Luce a provocar uma reação negativa no mercado e a levantar dúvidas sobre a fidelidade da marca à sua identidade histórica. As ações da fabricante italiana caíram mais de 8% em Milão, segundo a Reuters, enquanto em Nova Iorque recuaram mais de 5%, refletindo a desconfiança em torno do novo modelo. O Luce, um familiar de quatro portas e cinco lugares, com preço base de 550 mil euros, representa uma mudança radical para a marca. Desenvolvido com o contributo de Jony Ive, antigo responsável de design da Apple, o modelo assinala a entrada da Ferrari no segmento 100% elétrico, uma mudança estratégica para uma marca tradicionalmente associada a motores de combustão de elevado desempenho e ao som característico que sempre definiu os seus automóveis. A reação nas redes sociais foi maioritariamente negativa, com vários comentários a criticarem a estética do veículo (com dezenas de memes) e a questionarem a sua ligação ao ADN da Ferrari. Mas também figuras públicas se juntaram às críticas. O vice-primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini, foi uma das vozes mais sonantes, ao afirmar que o modelo “não parece um Ferrari”. “Não se parece nada com um (Ferrari). É isto que se chama “inovação”? Quem sabe o que diria (o fundador da empresa) Enzo Ferrari”, escreveu Salvini, no X. Elettrica, costosissima (550 mila euro!) e, dal punto di vista estetico, si commenta da sola... Sembra tutto fuorché unauto del Cavallino. E questa sarebbe “innovazione”? Chissà Enzo Ferrari cosa direbbe... pic.twitter.com/zITSlz1a9j - Matteo Salvini (@matteosalvinimi) May 26, 2026 Enquanto isso, Luca Cordero di Montezemolo, antigo presidente da marca, classificou o lançamento como uma rutura com a história da fabricante. “Espero que retirem o cavalo empinado (logótipo) daquele carro”, afirmou à margem de uma conferência empresarial em Roma, ele que ocupou vários cargos de liderança na Ferrari durante mais de 20 anos antes de uma saída conturbada em 2014. “Corremos o risco de destruir uma lenda, e lamento muito por isso”, acrescentou, visivelmente emocionado. Former Ferrari chairman Montezemolo tears the new electric Ferrari “Luce” apart: “I cannot say what I really think: I would harm Ferrari. We risk the destruction of a legend. So sorry. Take the Prancing Horse off. At least the Chinese won t copy this car” pic.twitter.com/3qYirOSCjH - Antonello Guerrera (@antoguerrera) May 26, 2026 Na mesma linha, Flavio Briatore, empresário amplamente reconhecido pela sua ligação à Fórmula 1, também reagiu ao lançamento e deixou críticas ao novo modelo elétrico da Ferrari. O italiano afirmou que o carro tem apenas uma vantagem: “não vai ser copiado pelos chineses”, numa declaração interpretada como uma crítica ao design e à qualidade do novo veículo. View this post on Instagram A post shared by Felipe (@felipemottaoficiall) Apesar da reação, a Ferrari mantém a aposta. O modelo, cujo nome remete para a palavra italiana “luz”, deverá começar a ser entregue no último trimestre e foi pensado para conquistar novos mercados, em particular a China, onde os elétricos têm um peso crescente no segmento premium. A marca pretende ainda captar uma nova geração de compradores de elevado poder financeiro, incluindo empresários do setor tecnológico em polos como Silicon Valley, alargando assim o seu alcance para lá da base tradicional de colecionadores. Ferrari Luce. Foto Ferrari Um caminho de desafios O desenvolvimento de um desportivo elétrico representa um desafio acrescido, sobretudo pela dificuldade em recriar a emoção associada aos motores de combustão, tanto pela ausência do som característico como pelo peso adicional das baterias. Apesar das reservas, algumas marcas mantêm o investimento. A Jaguar avançou com a transformação da marca numa insígnia totalmente elétrica e prepara o lançamento de um novo modelo acima das 100 mil libras (mais de 115 mil euros). Enquanto isso, a Rolls-Royce está a desenvolver um veículo elétrico exclusivo para um grupo restrito de colecionadores. Outras fabricantes, no entanto, optaram por travar ou rever os seus planos. A Porsche reduziu a aposta depois de perdas associadas à transição elétrica, redirecionando investimento para motores a combustão e híbridos. Já a Lamborghini cancelou o lançamento do seu primeiro modelo totalmente elétrico até 2030, preferindo avançar com um híbrido plug-in. Também a Lotus, a Aston Martin, a McLaren e a Bentley ajustaram estratégias, privilegiando soluções híbridas. A própria Ferrari procura responder a este desafio com o Luce, o seu primeiro modelo totalmente elétrico, desenhado para reduzir o peso da bateria e equipado com motores e componentes que produzem um som inspirado numa guitarra elétrica. "Investimos muito dinheiro nisso, mas também trabalhámos para tornar este carro lucrativo", defendeu o presidente executivo da marca, Benedetto Vigna, defendendo ainda o projeto como uma forma de “levar mais longe a bandeira da inovação” e sublinhando que o investimento foi pensado para garantir rentabilidade. Segundo o Financial Times, o fabricante não divulgou metas concretas de vendas, mas mantém a intenção de que 20% da sua gama seja totalmente elétrica até 2030, ainda que esse objetivo represente metade da meta inicialmente traçada. https://cnnportugal.iol.pt/ferrari/novo-carro/corremos-o-risco-de-destruir-uma-lenda-primeiro-eletrico-da-ferrari-gera-reacoes-negativas-ate-do-governo-italiano-e-faz-cair-acoes-da-marca/20260527/6a16d5f2d34edcee7c64a53a Tiago Ferreira Resende