SNS FEZ MENOS E COM PIOR QUALIDADE TÉCNICA, REVELA ESTUDO DA UNIVERSIDADE NOVA
2026-05-27 21:09:11

Análise da NOVA-IMS e da AbbVie mostra debilidades na assistência à população e uma fatura recorde. Edição atual inclui pela primeira vez resultados sobre prevenção, valência a que 73% dos portugueses recorreram em 2025. A rede pública de saúde passa no teste com satisfaz O alarme já tinha soado com dados preliminares do próprio Governo e agora há mais um diagnóstico a confirmar que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) sofreu uma quebra em 2025. A análise da NOVA-IMS e da biofarmacêutica AbbVie conclui que foram menos os cuidados prestados à população e com pior qualidade técnica. O “Índice de Saúde Sustentável 2025/26” indica que a capacidade assistencial sofreu uma “redução marginal da atividade do sistema”, no caso, menos 1,1%. O valor não seria, à partida, relevante, mas acaba por sê-lo, uma vez que “contraria a tendência de crescimento verificada desde 2021, no pós-pandemia”. E a importância da fraqueza na prestação, que até pode ser passageira, ganha peso por associação a outro sinal negativo: a qualidade técnica piorou, de 66,7 para 65,5 pontos numa escala até 100. Na prática assistencial significa que o SNS teve um pior desempenho na percentagem de cirurgias em 48 horas a fraturas da anca, mortalidade por AVC, quedas, cirurgias em ambulatório ou reinternamentos em 30 dias, entre outros. Também neste caso, o recuo ligeiro tem mais relevância do que parece. A população que utiliza os centros de saúde e os hospitais públicos tende a percecionar muito acima a qualidade técnica e no ano passado essa avaliação repetiu-se, ou seja, aumentou ainda mais o desfasamento entre a qualidade técnica real e aquela que é entendida pelos doentes. A mesma disparidade na avaliação é identificada no acesso, como a primeiras consultas hospitalares, a atendimento atempado na Urgência ou a hospitalização domiciliária. “A acessibilidade técnica do SNS diminuiu, de 51 para 47,6 pontos, um valor negativo e demonstrativo de que esta é uma das dimensões mais frágeis do sistema”. No entanto, o acesso percecionado pelos utentes “mantém-se quase inalterado (de 65,5 para 65,3 pontos em 2025). Estado de saúde dos portugueses melhora Na generalidade, os portugueses reconhecem o SNS como essencial para a sua qualidade de vida e estado de saúde, tal como nos anos anteriores, com 69,9 pontos de eficácia global. Por serviço, a satisfação e a confiança foram reforçadas nos cuidados recebidos no SNS nos últimos 12 meses e no atendimento nas Urgências. A análise não o refere, mas a nota positiva dada ao S.O.S do SNS pode ser já um resultado da generalização da pré-triagem telefónica através da Linha SNS24 instituída. Ao invés, o internamento sofreu uma desvalorização para os doentes. Continua a ser valência mais distinguida, contudo, com uma redução de 3,9 pontos na satisfação e 2,2 na confiança. Questionada sobre as áreas de atuação mais importantes, a população elege a qualidade dos profissionais de saúde - elevada e que deve ser mantida - e a redução dos tempos de espera para acesso aos cuidados, o ponto alvo de todas as críticas. Ainda assim, os portugueses mantêm a procura. SNS indispensável à prevenção O estudo atual inclui agora a prevenção e este novo capítulo atesta a dependência do SNS. “73% dos portugueses refere ter realizado, pelo menos, uma ação preventiva no último ano, sobretudo análises (68%), consultas de rotina (62%) e exames de diagnóstico (51%)” e 64,7% fê-lo na rede pública. “Os portugueses classificaram o seu estado de saúde em 74,3 pontos” e “sem o contributo do SNS, esse valor seria de apenas 62,2, o que revela um ganho de 12 pontos atribuído diretamente ao impacto dos cuidados prestados”. Por exemplo, “no total do impacto combinado do SNS em termos de absentismo e produtividade corresponde a uma poupança de 6,8 mil milhões de euros (via salários), que, tendo em conta a relação entre produtividade e remuneração, se traduz num retorno económico de 10,2 mil milhões de euros”, escrevem os autores do relatório. SNS com fatura recorde E se é verdade que o SNS permitiu um elevado retorno económico, também é um facto que nunca consumiu tantos recursos financeiros. Verificou-se um “aumento substancial da despesa (9,1%) e a subida do stock da dívida vencida (31%)” que “resultaram num agravamento da pressão financeira sobre o SNS em 2025”. Contas feitas, os autores resumem: “A conjugação do forte aumento da despesa, da ligeira redução da atividade, da estabilização dos níveis de qualidade, diminuição da acessibilidade e dos resultados da nova componente de prevenção, devidamente ponderado no modelo, resulta num Índice de Sustentabilidade do SNS de 59,3 pontos numa escala de 0 a 100.” Inovação terapêutica com atrasos Num cenário de elevada pressão financeira é difícil investir, por exemplo, em tecnologia, mas os resultados até são positivos. “Cerca de metade dos utentes (51%) fazem uma avaliação positiva ou muito positiva do nível de modernização tecnológica dos equipamentos utilizados e 56% acredita que o SNS acompanha a evolução tecnológica na saúde”. Ainda assim e apesar dos orçamentos, 89% defende que o investimento em inovação “é essencial para a sustentabilidade futura do SNS”. Menos positivo é o diagnóstico à oferta terapêutica nas unidades públicas de saúde, “apenas 34% acredita que os doentes em Portugal têm acesso atempado a novos medicamentos inovadores através do SNS”. E são menos ainda os portugueses que acreditam “que o SNS é rápido a incorporar novos tratamentos e tecnologias de saúde em comparação com outros países da União Europeia”. O “Índice de Saúde Sustentável 2025/26” tem um universo de 8.657.240 indivíduos, a partir dos 18 anos residentes em Portugal, e inclui 502 entrevistas realizadas entre março e abril deste ano. Vera Lúcia Arreigoso Jornalista Vera Lúcia Arreigoso