pressmedia logo

SINDICATO DOS MÉDICOS DO NORTE ACUSA UNIDADE LOCAL DE SAÚDE DE SÃO JOÃO DE IMPEDIR DESCANSO E DE COLOCAR SEGURANÇA DOS DOENTES EM RISCO

Observador Online

2026-05-27 21:09:12

Joana Bordálo e Sá alerta que serviços organizados “à custa da exaustão permanente” não garantem cuidados seguros e de qualidade. Sindicato avança ter recebido centenas de queixas de médicos. Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões. O Sindicato dos Médicos do Norte acusa a Unidade Local de Saúde de São João de impedir os médicos de descansar, o que coloca a segurança dos doentes em risco. Há dois dias, o sindicato reuniu com médicos desta ULS para analisar o que se passa, quais são estas várias situações que têm sido detectadas nesta ULS. Comigo tenho a presidente do Sindicato dos Médicos do Norte, Joana Bordalo e Sá, ao telefone. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite para esclarecer esta situação e começo por lhe perguntar: que situações concretas levaram o sindicato a denunciar o que se passa na ULS de São João neste momento e motivaram o alerta público? O que está a acontecer na ULS São João é muito grave, porque já ultrapassa claramente um mero conflito laboral. Isto não é apenas um problema dos médicos, é um problema dos doentes e da segurança dos cuidados prestados aos doentes. Quando os médicos são impedidos de descansar após um trabalho ao domingo e feriados, estamos a falar de profissionais sujeitos à fadiga acumulada, à exaustão e maior erro de risco clínico. E quando falamos de erro clínico, falamos de diagnósticos que podem falhar, decisões tomadas sob enorme desgaste e cuidados prestados sem as condições de segurança necessárias. E o Sindicato dos Médicos do Norte recebeu várias denúncias destes incumprimentos laborais, não só médicos impedidos de descansar depois de trabalhar aos domingos e feriados, mas também horários que são alterados sucessivamente, a aplicação ilegal de bancos de horas em alguns serviços e trabalho em regime de turnos que não existem para a carreira médica, além de que os médicos não são avaliados e não estão a progredir, portanto, têm a sua progressão horizontal congelada. E tudo isto cria um desgaste físico, mental acumulado e torna a situação muito difícil para os médicos da ULS São João para conseguirem garantir cuidados seguros e de qualidade à população. E nós estamos a falar de uma das maiores unidades locais de saúde do país com um hospital universitário. E a verdade é simples: é que nenhum serviço de saúde consegue funcionar de forma segura à custa da exaustão permanente dos seus profissionais. E quando os médicos trabalham cansados, quem fica em risco são mesmo os doentes. O Sindicato dos Médicos do Norte pediu uma reunião urgente ao Conselho de Administração da ULS São João e nós exigimos esta correção imediata destas situações que são ilegais e abusivas. E é precisamente por situações como estas, de desrespeito de regras, de degradação das condições de trabalho e risco crescente para a segurança de cuidados, que os médicos vão avançar para a greve geral já no próximo dia 3 de junho. Os médicos estão cansados de ver o SNS a funcionar permanentemente em esforço, sem condições para quem trabalha e sem garantias de segurança para quem é tratado. Há quanto tempo estas práticas estão a ser reportadas pelos médicos na ULS de São João? Infelizmente, muitos destes problemas já existem há alguns anos, mas o fato de serem antigos não os torna normais nem aceitáveis. Mas são problemas pontuais ou sistemáticos? Têm sido problemas agora sistemáticos. E a verdade é que a ULS São João e outras unidades também do SNS habituaram-se a funcionar à custa do sacrifício permanente dos médicos. E o problema é que quando a exaustão passa a ser exatamente estrutural e sistemática, quem fica em risco são mesmo os doentes. Que impacto direto está a falta de descansos compensatórios, que referiu, a ter na segurança dos doentes e no risco clínico? O que acontece é que um médico que não descansa é um médico cansado, é um médico exausto e como tal, há um maior risco clínico ao ver os doentes, porque podem falhar diagnósticos, podem falhar decisões clínicas importantes para os doentes, porque nenhum profissional aguenta a trabalhar em exaustão contínua. Queria também abordar, porque já referiu aqui nesta entrevista e também é referido no comunicado, como está a ausência de avaliação de desempenho a afetar a progressão profissional e aquela que é também a motivação dos médicos. O que acontece é que os médicos na ULS São João estão sempre na mesma posição na sua categoria. Ou seja, os médicos não progridem na sua tabela retributiva, porque não há uma avaliação. Isto faz com que as pessoas estejam congeladas, não tenham nenhuma perspectiva de progressão e isso desmotiva os médicos e todos os profissionais que estão nesta situação. Que respostas já foram dadas pela administração da ULS São João e também o que é que o sindicato exige que seja feito com urgência? Ou seja, já aqui disse que a maneira como isto está a funcionar neste momento tem que ser revertida, mas concretamente que medidas, que ações espera da ULS São João? Nós pedimos uma reunião ao Conselho de Administração da ULS São João. De qualquer forma, o que nós exigimos aqui é que a um médico, depois de trabalhar ao domingo ou feriado, lhe seja concedido o direito ao descanso a que tem direito, que a avaliação seja desbloqueada e, acima de tudo, que os horários dos médicos também sejam respeitados e que não sejam aplicados o banco de horas, porque isso é algo que é totalmente ilegal e não se aplica nem aos médicos, assim como também não se aplica ao trabalho por turnos. Aproveito também, dado o seu cargo na FNAM, na federação que também representa mais os médicos a nível nacional, isto é uma situação mais exclusiva à ULS de São João ou são casos que também têm sido detectados, têm sido relatados por médicos noutros hospitais do país? Esta situação de impedimento dos descansos compensatórios após trabalho ao domingo e feriados é algo que acontece na ULS São João, mas também na ULS do Alto Ave. São conselhos de administração que insistem em não cumprir a lei e obviamente que quem fica prejudicado são os médicos, mas acima de tudo os doentes, que depois não têm médicos descansados e a poder fazer o seu ato médico em segurança. Só para esclarecer, porque penso que não ficou muito claro. Disse-me que estas práticas, esta falta de respeito pelo descanso dos médicos, são situações que já têm sido reportadas desde já há alguns anos, mas que nos últimos tempos têm sido mais frequentes. Consegue me dar aqui uma janela temporal e também o número de queixas que têm recebido? O número de queixas são várias, de serviços inteiros. Estamos nas dezenas, nas centenas? Diria que temos centenas de médicos nestas circunstâncias. É algo que já dura há alguns anos, mas não é isso que torna a situação menos grave. Muito pelo contrário, é uma situação que tem que ser retificada, porque de facto os médicos estão exaustos e sentem que os cuidados prestados aos doentes estão em risco. Joana Bordalo e Sá, muito obrigada por se ter disponibilizado a falar connosco. Matilde Malva Sabino